O Estado de Minas | A dinâmica das larvas


JORNAL: O Estado de Minas
DATA: 30 de outubro de 1996

As difíceis relações editoriais
|| Por Jorge Fernando dos Santos

Dois editores, uma executiva – mulher de um e amante do outro – e um cientista e escritor premiado formam o estranho quarteto que protagoniza “A Dinâmica das Larvas – Comédia trágico – farsesca”, de Rodrigo Lacerda, livro publicado pela Nova Fronteira. Autor de “O Mistério do Leão Rampante”. Prêmio Jabuti de Melhor Romance de 1995, o escritor agora mergulha nos bastidores das relações editoriais e constrói uma trama farsesca. divertida e quase absurda. Não há como negar o talento de Rodrigo Lacerda. ainda mais levando-se em conta os prêmios já conquistados. Além do Jabuti, ele faturou também o Prêmio CBN da Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro, em 1995. Em seu novo livro, no entanto, ele deixa um pouco a desejar. A trama vai bem até pouco mais da metade do livro. Mas, verdade seja dita, torna-se óbvia e desinteressante a partir daí. levando o leitor a concluir que as 176 páginas da publicação poderiam ter sido reduzidas pelo menos em um terço.
Escritor X editor

O ponto alto da história é o tom bem – humorado – quase cínico – da narrativa. Ao criar sua farsa ambientada nos bastidores do mercado editorial brasileiro. Rodrigo Lacerda tece uma profunda crítica à relações que geralmente permeiam o ambiente no qual se digladiam escritores e editores. Os primeiros penam na tentativa de publicar suas respectivas obras e, não é raro, acabam parecendo ridículos devido ao excesso de vaidade intelectual nem sempre fixada em sólidos alicerces. Já os editores, posam do alto do. sua disputada condição como deuses do saber. Sem o seu aval ou simpatia, os escritores não têm como chegar aos leitores.

Em seu novo romance. Lacerda introduziu uma terceira personagem, a da esposa do editor que acaba se prostituindo na vã tentativa de se tornar uma poderosa agente literária. Este papel aliás, é praticamente inexistente no Brasil leva os autores a se destacarem ainda mais na sua relação com os editores.

O resultado é uma história tragicômica, que traz sob a camada do riso fácil a mais profunda ironia de um escritor que parece conhecer os dois lados da trama. No entanto, falta mais sutileza no trato com o tema. A história toma-se óbvia demais a partir de certo ponto, o que leva o leitor mais exigente a se decepcionar um pouco. Mesmo assim, vale conferir devido à precisão dos diálogos e à boa construção psicológica das personagens.

Trecho

Enquanto José remoia suas preocupações, aterrando remorsos e expectativas de lucros, contribuições e rompante de maquiavelismo, com o pensamento pulando atabalhoadamente de um para outro a estreita abertura das janelas filtrava a luz da lua recém-chegada, e abafava os sons neurotizantes dos automóveis. A epopéia cotidiana dos engarrafamentos cumpria seu horário, o cair da noite abafava a cidade. Nas grandes avenidas, buzinas de todos os timbres e inflexões trombeteavam o estabelecimento da confusão. As calçadas fervilhavam repletas de profissionais de toda sorte, de todos os sexos, loucos para tirarem suas roupas de trabalho, tomarem uma ducha, vestirem-se mais confortavelmente, espocarem uma latinha de cerveja, ou fazerem um uísque, ou baterem uma macarronada, para então se estenderem diante da tevê, rendidos aos efeitos hipnóticos do canal de esportes ou dos programas de auditório. Os ônibus trançavam de lá para cá, recolhendo e despejando pontos exércitos de sacrificados recomendo brotavam, no lusco-fusco do anoiteça; operários revoltados, comerciantes paranóicos, funcionárias preguiçosas, gerentes desonestos, balconistas antipáticas, analistas de sistemas emotivos, cada um sentindo-se o mais infeliz dos seres. Todos ansiosos por chegarem em suas casas. Lá talvez pudessem viver conforme as essências de suas respectivas personalidades, que o trabalho os obriga a sufocar durante a maior parte dos dias.