No teatro Globe | O mistério do leão rampante
Às três da tarde, no horário previamente combinado, voltamos aos quartos alugados e de lá rumamos em direção ao teatro. Este era muito distante por sinal (como convém a entretenimentos dessa natureza), ficando na margem sul do Tâmisa, do outro lado da cidade. Quando a carruagem encostou, vimos aquela estranha construção circular, que contrariava todos os procedimentos conhecidos e que muito intrigou nosso instrutor voluntário nas artes da edificação. Com sólidas fundações em madeira, tijolos, cal e areia, o Globo lá de fora assemelhava- se a uma colméia de abelhas vazada no topo, e lá dentro, às arquibancadas do inferno, com suas vigas de madeira aparentes e o bafo morno do pecado no ar. O Globo isso, o Globo aquilo, diziam, com indisfarçável orgulho, alguns freqüentadores que entravam naquele momento para assistir ao espetáculo. Algo por sinal inexplicável para mim era essa vaidade da platéia, falando daquele lugar mundano como se fosse um orgulho nacional. Mas devo reconhecer que o teatro inspirava uma exótica imponência. O senhor Grymestone e minha tia Harriet já tinham provado o desprazer de assistir a espetáculos dessa natureza em Londres; mesmo eu e Maria já estivéramos no pátio de uma estalagem do vilarejo lá em Shropshire, onde se havia apresenta do uma companhia teatral em excursão pelo interior. Mas nada se comparava ao tão falado Globo e seus três andares, seu palco enorme, com dois níveis e várias entradas e saídas e alçapões, com seus inúmeros cômodos tapados à vista do público pelas cortinas, onde se produziam tempestades, labaredas infernais, música celestial, entre outros efeitos cênicos.
O teatro também dispunha de um largo espaço em frente ao palco, ao rés-do-chão. Ali, por um penny, o populacho podia assistir aos espetáculos. Havia ainda camarotes no segundo e no terceiro andar, as pessoas de bem e de posição, que por um motivo ou por outro, ou por simples deslize de consciência, apreciavam semelhante passatempo. Se há uma ponta de admiração nas palavras que passo ao papel sobre o Globo, é porque, quando penso nele, sempre me causa espécie a necessidade que tem o homem de se auto-iludir, sua dedicação em construir monumentos a seu próprio engano, uma coisa de doido essa velha mania da humanidade, compreensível nos estágios mais atrasados de nossa civilização, mas um paradoxo nos dias correntes. Estávamos há poucos instantes do início da peça e Maria já dava mostras de nervosismo, participando das conversas com incipientes “Hãa?”, “Hum, hum”, “É”, “Não” e demais sensaborias. Ela mantinha seus olhos vidrados no palco, alheios a tudo o mais senão aqueles poucos metros de tablado que, por enquanto, apenas suas esperanças povoavam. Estava isolada num mundo só dela – agora por opção e não pela timidez infantil que demonstrara até recentemente –, esperando um Rei mágico, que havia ultrapassado os limites da tumba e penetrado em sua vida, passando a controlar seu destino. Não viesse alguém dizer que o sujeito no palco seria apenas um ator e aquela uma peça como tantas outras, pois desacreditar o milagre da véspera arrebentaria o último fio de esperança possível, que nesse momento ela vivia intensamente.
Pela abertura no alto do teatro, a luz da tarde iluminava a cena. Enquanto as pessoas se acomodavam em seus camarotes, a ralé lanchava, babava, arrotava, grunhia e prevaricava em frente ao palco. Maria remexia nas mãos, com ansiedade, o retalho bordado com o escudo do Rei Plantageneta. Então, aproveitando-se de um silêncio momentâneo na platéia, entrou no palco um dos atores, o coro, conforme ele mesmo teve a bondade de se apresentar. O homem deu início a uma invocação da fantasia, uma “musa de fogo” (atentem para a pobreza das imagens criadas pelo mencionado Shakespeare), incitando a todos no recinto que desprezassem as aparências e acreditassem no que as palavras iriam mostrar, e uma série de tolices do gênero. Não obstante o precário valor da literatura, essas linhas tiveram um efeito arrebatador em minha prima, ávida que estava em tornar o encontro com Henrique o mais real possível e portanto disposta a se deixar transportar pela “magia” das palavras, acreditando que só ele poderia curá-la, mesmo que não soubesse bem como, ou por quê. A partir desse momento, ela caiu num transe realmente místico, coisa que não se explica com palavras, mas que eu via crescer no fundo de seus olhos, cada vez mais vidrados e ao mesmo tempo cada vez mais expressivos, revelando uma beleza, uma espontaneidade, um encanto até então inéditos na- quele semblante, um vigor e uma sensualidade nunca percebidos naquele corpo. Seu rosto respondia a cada gesto, palavra e expressão dos personagens. Quando Henrique entrou, vestindo roupas de veludo escarlate, nas quais se destacavam as cores luminosas de seu brasão, Maria perdeu totalmente o contato com a realidade. Ricardo Burbage, desempenhando o papel-título, cumpria sua função com habilidade considerável, tenho que admitir, recriando em cores vivas os traços que marcavam trajetória do grande rei.
Lá estavam sua disposição em servir aos interesses do povo inglês, sua fé em Deus, sua obediência aos altos magistrados da Igreja, seu desafio ao herdeiro do trono francês, mesclado à seriedade com que encarava uma declaração de guerra, enfim, cada detalhe de sua história e de sua personalidade. Tudo isso transportava Maria aos mais voluptuosos delírios, vibrando, enrubescendo, identificando-se totalmente com aquele ser fictício, como se a ficção lograsse de fato revivê-lo. O coro, ao longo de mais dois monólogos, repetiu seus clamores pela força imaginativa do público. Porém, Maria talvez nem mais o ouvisse agora, ela não precisava mais ser encaminhada, seu espírito já mergulhara naquele mundo fantasioso e parecia flutuar sobre o palco.