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DATA: 12 de março de 2004.



O Rio visto da Estrela

|| Por Flávio Pinheiro

Não é fácil, mas é preciso vencer as primeiras páginas deste livro. Nelas, um beija-flor debate-se dentro do copo de um liquidificador. O motor está ligado. O bicho bica com sua típica sofreguidão as paredes de plástico em busca de uma saída. “Ele é forte”, diz um dos garotos que o observa e aproveita para aumentar a rotação do motor. O passarinho resiste o quanto pode até que, exaurido, entrega-se ao esfacelamento.

Nem Marco Antônio nem Virgílio, os meninos extasiados com a sangueira do extermínio, se transformam mais adiante em seria! killers, torturadores ou seguem a carreira do Dr.Joseph Mengele, o médico que brincava de deus e diabo com cobaias humanas na fúria do irracionalismo nazista. Rodrigo Lacerda, o autor do livro “Vista do Rio”, quis que a cena laboriosamente chocante falasse por si e não se prestasse a ilações mais óbvias.

Primeiro porque queria mostrar o sadismo infantil, que, Freud explica, muito cedo coabita com a inocência. (Um ex-presidente do Banco Central se comprazia na infância em chutar galinhas até vê-las estrebuchar e há mais sinais de perversão nas feitiçarias econômicas que pôs em prática do que na índole dos personagens de “Vista do Rio” embora eles sejam produtos de ficção). Além disso, Rodrigo queria mostrar “os dois garotos aplicando sobre o pobre animal aquilo que o mundo iria aplicar sobre eles próprios”.

Em gradações diferentes, a vida maltrata Marco Antonio, o narrador, e Virgílio, seu melhor amigo, mas não inflige aos dois nada tão absurdo e bárbaro. E isso inclui o sofrimento atroz da Aids que flagela Virgílio até consumir sua última gota de vida. Virgílio é bissexual doutrinário, militante da transgressão. Marco Antonio flerta com abismos, mas mesmo tentado não consegue transpor barreiras e interdições de uma educação com forte tintura aristocrática. Diverte-se curtindo as aventuras de Virgílio e sedando a própria ambição com maconha.

O início violento no fundo dá uma pista falsa de “Vista do Rio”. Não é um livro sobre violência, o que seria bom motivo para abandoná-lo, dada a sufocante saturação do tema. E nisso reside sua benfazeja originalidade. O Rio é visto da perspectiva de um edifício – o Estrela de Ipanema – e não do interior de uma favela ou da sacada do Corcovado. Na exuberância fria da arquitetura desta estação orbital de concreto decompõe-se a desumanização vertiginosa, e talvez inapelável, promovida pela urbanização. É deste Rio e do curso que ele dá a vida de dois garotos ipanemenses pós surto imobiliário que Rodrigo Lacerda se ocupa.

A arquitetura é uma chaves do livro. “Este nosso país indefinido, desordenado e abundante, não inspirava a arquitetura do futuro, tão rigorosa, tão avessa a conformismos e hesitações. Nem querendo. Era ela que inspirava o Brasil. (Se não imprimir nossas marcas culturais em todas as formas construtivas fosse crime, pegaríamos prisão perpétua no barroco)”. O Estrela era o futuro empurrado pela goela de Ipanema, faminta dele. “Viver naquele edifício”, diz o narrador, “implicava uma relação distanciada com tudo o que não tivesse a marca da espécie”.

O edifício existe. Como o avô do narrador, o avô de Rodrigo também foi um político. Carlos Lacerda. Ninguém menos. No livro, o avô político é comunista. Na vida real Lacerda foi comunista por 15 minutos na juventude. Daí para frente devotou-se a um anti-comunismo quase hidrófobo. Semeou sublevações mas foi o poder militar, que insuflou em 1964, que lhe impôs silêncio.
Reduzi-lo só a isso seria simplifica-lo. Dotado de genuína erudição, com formidáveis dons oratórios, Lacerda foi uma metralhadora giratória no mundo estreitamente bipolar da guerra fria. Era um esteta do insulto, desses que não existem mais. E um competente administrador da cidade, embora tenha sido o último a acreditar na possibilidade de uma hieginização social que abolisse as favelas da paisagem enxotando-as à força para a periferia.

Marco Antonio nasce à sombra do avô político. Da regra de ouro da avó: “Na sala se fala de idéias; na cozinha, de pessoas”. Das evoluções coreográficas do manual de etiqueta da mãe travessas à esquerda, guardanapo derramado displicentemente no colo, cotovelos nunca em cima da mesa. O pai vive no Império Romano. Tudo o que veio depois é degradação da perfeição de Roma no seu apogeu.
Virgílio não pode ser mais diferente. Na vida adulta torna-se um diretor de teatro prestigiado com fama de ousado e hermético. Encena “tragédias gregas na porta de um banco nas ilhas Cayman, comédias envolvendo o cartel de Bogotá, Molieres no Pavãozinho, Shakespeares no sertão da Paraíba”. Mais tarde, já muito doente se “aplicava doses diárias de humor negro” como uma droga que o revestia “contra as fraquezas e corrupções fisiológicas, contra o medo e o sentimentalismo”.
As hostilidades da cidade estão esquadrinhadas no rigor da autópsia arquitetônica do Estrela de Ipanema. Concreto aparente, vidros, esquadrias, canteiros são, a um só tempo, alegorias e limites de um modernismo avassalador. O livro praticamente acaba capítulo 8. No 9, começa outro com a descrição do salto a bordo da asa delta num dia do verão de 1987. No periclitante equilíbrio da asa oscila a ambigüidade da cidade, sua estonteamente beleza misturada a uma perturbadora desordem urbana.

“Só entende o Rio quem, das fronteiras entre a perfeição natural e a instável ordem urbana, souber extrair um estilo de vida, uma ética muito sutil e peculiar. Eu me revoltava, tinha ataques de indignação cidadã, de onipotência civilizatória. Já Virgílio era um adepto fervoroso do modelo”.
Rodrigo Lacerda mudou-se do Rio para São Paulo quando tinha 22 anos. Hoje tem 34. Seu livro de estréia “O Mistério do Leão Rampante” (1995) é uma pequena e deliciosa farsa que João Ubaldo Ribeiro saudou como uma novidade na literatura brasileira e que lhe valeu um Premio Jabuti. Depois escreveu “Dinâmica das Larvas” (1996), seguindo a mesma rota, mas sem o mesmo frescor.
Com “Vista do Rio” dobra a sempre perigosa esquina da prosa urbana contemporânea. O livro tem inegáveis virtudes. Nele, Rodrigo foge da clicheria da linguagem cinematográfica, da pontuação de frases curtas que espreme e acelera narrativas. Escapa também do que já está se tornando abominável vício de falar da marginalidade pelos olhos da marginalidade, o que tantas vezes soa falso, artificial. Não é compassivo, mas também não caricatura o Rio da classe média e alta de Ipanema.

Confinado a memória e a tagarelice do narrador o enredo carece de surpresas, de imaginação. Às vezes falta-lhe mesmo ossatura – entre o Marco Antonio garoto e o Marco Antonio adulto e envelhecido há atalhos abruptos. O mote arquitetônico nas suas últimas repetições dá sinais de fadiga. Atravanca a narrativa mais do que a serve.

Rodrigo aceita a ambigüidade, indispensável para retratar qualquer coisa mas sobretudo o Rio. Ambigüidade que é resumida numa frase do final de Hamlet, citada por Virgílio: “Nada é bom ou mau, o juízo é que avalia”.