Movimento

Para João Antônio

Eu não devia ter ido. No meu ramo, as festas vêm até mim. Tranqüilamente. Até porque, festa mesmo sou eu quem vendo. Mas fui. O Maurinho era freguês antigo. Conheci michê — assaltou um monte e não duvido que tenha esfaqueado umas “colegas” — agora tinha virado ator de novela pra adolescente. Daí a festa, daí meu interesse em ser apresentado à turma nova, clientela por tradição.

Na chegada, falando com o dono ainda, senti o drama. Aquela não era minha praia. Para cada comprador, dez atletinhas. Os artistas de agora não querem mais se conhecer – tudo garotada. Pra fazer bem o papel, ou seja, para ficar sem camisa em cena, os homens bombam o dia inteiro, enquanto as mulheres fazem botóque e turbinam os peitos, e todos confundem passar fome com inteligência emocional. Numa festa, dançam a música que estiver tocando. Aqueles quartinhos de porta fechada, para as pessoas se drogarem em paz, agora têm uns malandros fazendo alongamento nas meninas, falando do cachê dos comerciais, altas perversões. Das inexplicáveis. Não é a troca que importa, de jeito nenhum. Ninguém fuma, e tem uns que nem bebem. No meu planeta, pelo menos, as drogas ainda juntam as pessoas. No deles, nem isso. Mundinho de capa de revista, vitamina de mamão com laranja, farelo de trigo e ongues, uma pancada de ongue. Um troço horrível de anti-social.

Sobrei no canto, filmando. Assuntei com meia dúzia, mas vendi o mínimo e desisti de milagre. Até me olharam meio feio. O tempo deu um guincho devagar.

Sintonizei – Louvado Seja O Senhor! –, a programação do horário nobre. Pelo menos isso. Olhos bem pretos, cabelo na cara que cheiroso, um corpo que mete medo. Peitos e camisa de alcinha. Em beleza, até podia ter suas adversárias, só que parecia menos ninfeta, mais cara de gente. E, feito pessoa de juízo, parecia estranhar o lugar, mistura de boate com academia de ginástica. Fiquei gostando, de longe; aí reparei que tinha três já na cola.

Mas ela jogava pro empate, e bebia bem, o que era duplo positivo. Me preocupo muito com isso de beber. Não confio em quem não bebe;  por que alguém ia querer ficar sempre alerta?; ou é estátua ou está armando… Sou também da teoria que só gente esnobe e anti-social come em festa. Bebida é que combina com festa. Festa não é lugar de dançar, não é lugar de se esconder, de tapar a voz do outro com uma trilha sonora idiota, e muito menos lugar de comer. Festa é lugar de fazer a cabeça e falar. E falar mais e mais alto que o comum. Festa é lugar de falar e de ouvir os outros. Só doido vive legal em sociedade. Se empanturrar nas festas equivale a dispensar a troca pela mastigação. Não beber equivale a se fechar. Quem enche a cara sabe, e ela sabia.

Só não se esparramava. Ficava no grupo, no venha a mim. Com tantos agrados, os três amiguinhos, achei, estavam dando uma força pra ela. A troco do quê?, eu não tinha como saber. Vi que ela estava pra baixo, mas não achei que fosse grave. Achei a trinca de doer, isso com certeza.

Por pena, ou vencida pelo cansaço, uma hora foi dançar com os morcegos. Sempre com ar de quem está fora, a cabeça longe, mas também sem montar uma festa alternativa, ou sair procurando coisa melhor. O que faltava era a decisão.

Passou um tempo. Fiquei só no cisco, só em volta. Fiz um contatinho, rápido, discreto no escuro e no barulho. Até que, fora do bolo de gente, fora da pista de desfile, ela vai seca atrás de cerveja. Eu vi quando entrou na cozinha. Tinha uma garrafa de uísque lá, e outra de vodka, importada de onde servem de suquinho contra o frio. Os amigotes ficaram na dança.

— Alô.

Antes de responder, ela me olhou; aí disse:

— Eu te conheço?

O dono da festa, quicando nos grupinhos, apareceu no meio e no susto, todo alegre já, resolvendo o problema dela: Paulo Braite-Ana, Ana-Paulo Braite. Nos olhamos. Ele disse, muito cedo, que fazíamos um bonito casal. Bicha burra. Ri amarelo, ela nem isso. Achei mesmo que estava triste por alguma coisa. Ele foi tosco, mas pelo menos deu o nome que eu precisava. Depois, reabasteceu o guaraná de dragão e saiu de perto.

— Quer uma cerveja?

— Não bebo álcool.

Mentirosa, mentirosa e ingrata; nem tinha me visto olhando lá na sala. Lugar de gelo é no copo.

— Não é álcool, é uma cervejinha.

— Não quero.

— Você fuma — perguntei, oferecendo.

— Não.

Ela fez cara de saco cheio, maltratando. Procurei uma volta nela dentro da minha cabeça, de pura pirraça. Raspei o indicador no nariz:

— Tá a fim? Eu ofereço.

  Dá licença? Vou ali me divertir um minuto e já volto.

Coisa feia, coisa linda. Que decepção. Perdi todo o amor e dei a porra da licença.

Chutar parede eu dispenso. Não existe vida sem vício, tanto na motivação quanto no tema. Todo sóbrio é um eremita. Até os índios sabem disso. Ela também, mas pra mim quer fazer que não. Preferiu ficar na torre, mais fria que beijo de criança em tia velha. Eu odeio as mulheres femininas! Quando eu crescer, só quero comer sapatão.

Interrompi o pesadelo, serventia da casa, e meu dedo descarregou no botão do elevador.

       

Era sábado. Meia-noite e meia, uma hora. Estacionei, de mau humor, na calçada do meu prédio sem garagem. Ali em frente, o motel de putaria estava no auge. Bom sinal. Forneço para a clientela do estabelecimento, extra além dos meus fregueses de lei e confiança. O dono é do meu time, ligado no meu jeito de trabalhar; sabe que eu, em casa, não vendo pra qualquer maluco. Um acordo vai-e-volta de freguesia nível 1, top de linha (senão, top-top). Ele sempre me manda uns taradões querendo cheirar, eu sempre devolvo uns cheiradões a fim de tarar. Há! E dá um troco, o acertinho.

Subi os três lances de escadas do meu prédio sem elevador e, mais animado, abri a porta sem campainha da minha quitinete. Meu braço no fornecimento, o Zeca, outra bicha, essa mais enrustida, sorte minha, e Bia, a última das mulheres de verdade, já estavam lá, e a toda. Peguei uísque e dei dois tiros pro alto, chegando na noite.

A Bia, durante um tempão, colou em mim, dizendo que era amor de casar. Claro que não era, lógico. Eu simplesmente era o único por perto que não estava nem aí se o nariz dela era meio grande, o corpo meio tábua. Não que fosse feia demais, só o suficiente para atrapalhar seu espelho do mundo, misturando amizade com outra coisa. Transamos umas vezes, mas pra mim era neutra, amiga daquelas que nem dá vontade de olhar o bico do peito na hora que o decote abaixa (pelo menos não muita).

Já o Zeca era só regular na tarefa. Braço esquerdo. Afinou umas duas vezes, coisa que perdoei com muito custo. Tinha lealdade, vai, era limpo e ficava na dele, mas não conseguia alcançar a grandeza do trabalho. A festa que é. A importância.

Aquela noite o coração da Bia estava mole. O seu último caso de cama veio longo, cheio dos detalhes. Ela se queixou um monte da vida; não teve filhos, não casou, o profissional ficou no mais ou menos. A gente lá, ouvindo e falando da vida dela; sem frescura. Coisa de irmão, coisa de festa. Parou aqui e ali por causa da clientela — duas vezes na porta e duas no telefone, nas encomendas e combinações —, mas deu o solo comprido.

Quando a Bia se distraiu (porque, na onda da festa, terminar a gente nunca termina), o Zeca falou mais alto e contou uma história. Um carinha que fez não sei o quê, que saiu no jornal de não sei onde, tudo meio bagunçado. O cérebro dele era meio cozido de nascença.

Mais umas paradas, horário comercial.

Em seguida fui eu que falei, da menina estranha da festa. Reclamei que esse mundo ia mal de mulher. Bia me olhou meio assim, fingi que não vi. Também nunca tive filho, nunca me acertei com ninguém, meu trabalho exige uma vida que é sem acordo. Não reclamo. A paixão só fugiu mais rápido dessa vez. Talvez até fosse melhor. Bronqueei foi comigo, de errar quem ela era por tão longe.

A noite foi indo, fui melhorando, quase esquecendo. Uma pajelança de brilho e uísque, com nós três reacendendo. Crescendo na gente aquela massa de vida, o barulho elétrico, de fora e de dentro.

Duas e meia tocou o interfone. A noite não esfriava. Zeca atendeu, devagar demais pra quem estava bebendo em serviço. Todo mundo era outro já.

— É o Ricardo de novo, Paulo.

Fiz careta.

— Quantas ele pegou na semana?

— Umas dez…

— Deixa subir — eu disse.

Esse ia me escutar. Entrou um minuto depois, eu vi logo em que estado. Puxei pro quarto:

— Quer morrer?

— Qualé, Braite? Tá me estranhando?

— Mais de dez em uma semana?

— Hoje é sábado, Braitão. A gente é amigo ou não é?

— Overdose de freguês fixo é mau negócio duas vezes. Suja e cai o certo do mês. Não tô a fim.

— Semana que vem eu dou uma parada.

— Semana que vem é amanhã.

— Pois então…

— Você não entendeu, Ricardinho.

— Entendi. É que hoje merece, te juro. Tem gente me esperando…

Parei, olhei pro bicho. Era motivo. 

— Quanto você quer?

— Trêsinha…

— É só pra hoje, tá lembrado?

— Duas, então.

— Uma.

— Uma pra cada um.

Esse era teimoso. A sorte era o corpo ser tão teimoso quanto a cabeça.

— Esse é o Paulo Braite… — ele disse, feliz da vida quando eu concordei. Deu tapinha na minha barriga e tudo. Fingi que não teve tapinha:

— A partir de amanhã, por sete dias, a fonte secou…

— Você manda.

— Então acabou-se.

Enquanto isso, o Zeca e a Bia ficaram na sala, na função, aproveitando a loucurinha boa com o uísque. Tinham despejado um morro de pó numa das minhas pedras, a de quartzo azul-piscina, lisa toda a vida. Em volta, os apetrechos: o funil micro de plástico preto, o canudinho da padaria cortado, os vidrinhos marronzinhos com as colherinhas pretas engatadas na tampa, um isqueiro, muito uísque, as merdas todas. Ritual montadíssimo. O amor do vício batendo.

— Pega duas pro Ricardo — falei.

O Zeca se levantou, balançando, e foi para o quartinho dos fundos, onde morava o estoque.

— É sessenta — cobrei.

— Sente, Paulão, o jeito que eu vou te pagar é o seguinte…

Putaqueopariucaralhobuceta. Me fudi. Com esse precisava ficar ligado, sempre, no mau sentido. Estava longe na coisa, demais. Não foi por falta de aviso.

E mais, olhando o meu lado: pechincha é um porre! Se eu pudesse, eu dava. Diluía na água das torneiras da cidade. Tentei cortar:

— Só tem dois jeitos pra me pagar: dinheiro ou cheque. Qual vai ser?

— Tô sem grana. Cheque já não tenho faz uma porrada de tempo.

Cara-de-pau perde. Quando eu ia soltar o verbo, no ponto, o interfone me botou quieto. Na certa outro pau-ralado, pensei, sobrevivente da putaria aí adiante, atrás de uma sobrevida no sábado à noite.

O Zeca, que voltava da área-de-serviço com cara de bêbado, atendeu. E ficou com um ar bobo, chamando a gente. Tapou o fone e largou a bomba:

— É a garota que você conheceu na festa.

Explodiu no meio da sala. Fiquei perdido. Silêncio gozador na boca dele, Bia achando graça, viajandinha também. Fiquei meio assim, com as quatro patas atrás – pinta de galã sarado eu não tenho…. – mas atendi:

— Fala.

A voz apareceu entre os chiados, quase gritada.

— É a Ana.

— Que Ana?

— A da festa, na casa do Mauro.

— Como chegou aqui?

— Ele me deu o endereço. 

— Veio sozinha?

— Vim.

Parei um segundo, mas, não vou enganar, esqueci a murchada. O entusiasmo lá do começo da noite voltou, no esguicho. Nessas horas a gente não pensa, vai logo deixando entrar. 

— Abriu?

Ouvi ela responder que sim, já longe. Antes de sair da cozinha, preparei um uísque do zero, sem aproveitar o suquinho aguado no copo. Gelo estalando de novo. Lentamente, na concentração. Pra encrenca se vai de gala. Tomei uns goles e enchi mais um pouco. Voltei para a sala. Os amigos ficaram não deixando a conversa morrer, fingindo que não estavam me gozando. O Ricardo, o cliente, que não tinha ouvido eu contar da festa, simplesmente ficou parado, sem entender o climinha.

Ouvi ela subir as escadas e chegar. Não esperei a campainha; abri a porta e apresentei as pessoas, caprichando na finesse. Achei que estava bebinha, ou mais; que nem a gente. Ainda mantinha a pose, apesar disso, e a cara triste. E estava mais bonita. Pedi, amolecendo a voz:

— Senta aí.

— ‘brigado — respondeu sem jeito, não aceitando.

— Quer um uísque? — perguntei de novo, mostrando meu copo.

E ela, ainda mais sem graça, falando embrulhado, baixinho, quase de costas para as pessoas:

— O nosso amigo falou que você vende umas camisetas…

Outra bomba, outra dispensada. Doeu na hora. E ela sabia. Veio mesmo assim. Otário eu, achando que tinha vindo por… Chá pra lá, como diz um bebum amigo meu. Se veio comprar, só isso, merecia tratamento frio. O profissional aqui sou eu.

— Dá um tempinho aí.

Ela ficou me olhando, meio indignada, meio surpresa. Se achava grandes coisas; sabia que era. Mas segui adiante e voltei pro assunto Ricardo:

— E então? É cheque ou dinheiro?

— Tíquete-refeição…

Eu olhei pra ele que nem besta. Minha vontade era fazer pescocinho do filhadaputa.

— Se você preferir, Braite, na semana eu venho e troco por dinheiro.

Em outra situação, nem ia pensar, mandava à merda. Por menos, já soube de neguinho botando pra correr e até pra dormir. Mas, na frente da visita, segurei. Alguma coisa tinha nela que me botava fazendo cerimônia. Até puto eu ficava de roda presa, e olha que raiva é combustível. Ela tinha tristeza e tinha força, alguma coisa impondo respeito.

A Bia, que me conhece, disfarçava, mas eu via a ironia coçando na língua dela. Pro Zeca nem olhei. Antes que eu ficasse puto de vez, dei sinal de que tudo bem e saí por cima:

— Eu acho mesmo que cocaína é cesta básica.

 A Ana riu, pelo menos. O Zeca passou os papéis pro Ricardo, recebeu os tíquetes e despachou o sem-vergonha. Então eu virei para ela:

— Vem cá.

A Ana me olhou sem saber. Tomei o rumo do quarto. Ela veio atrás, na desconfiança. Mas é normal, lá em casa; quarto de dormir é sala de reunião. Comecei tirando uma:

Camiseta?

Ela deu um sorriso lindo, triste também, que já me levou um pouco a pose. Doidão, ficava mais bonita. E afinal, ela veio buscar a festa que eu tinha pra dar e vender; era um começo.

— Não é assim que vocês falam? — perguntou, toda linda.

— Falar é só falar. É no uso que o entendido se mostra.

Ela não respondeu. Pensou um instante e fez que sim com a cabeça, gozando um pouco da minha fala séria:

— Certo.

Sorri, de mim mesmo. Pra essa eu não tinha nada que ensinar. Ela é que me guardava. Na sua frente, as palavras saíam moles, eu não conseguia ser direito. Tinha uma autoridade em cada sopro, elegante, não perua, e eu balançava. Essa era mulher, a gente vê, tinha rosto. Não achava que a vida era simples.

Mas agora, além da fissura, eu tinha o direito, a obrigação profissional, de pedir o cadastro completo. Antes da primeira venda, eu sempre checava a limpeza do freguês. Garantia de sobrevivência na selva, mesmo que o “freguês” fosse ela. 

Ficamos um tempo no estudo. Adivinhando as jogadas um do outro, bolando as nossas. Ela sentou na cama e acendeu um cigarro. Avancei as pedras:

— Ué, e aquela história de “eu não fumo”?

— Agora deu vontade. 

— Tô vendo.

Ela perdeu a cerimônia de repente, e foi direta:

— Você tem pó ou não?

Me senti parado no trilho, recebendo beijo de trem. Ela sempre dava um jeito de me pegar no susto. A beleza se reconhece e afirma. 

— Pra vender? – respondi, salvando o que dava do meu orgulho.

— Claro.

— Ou então, melhor, do começo: como você sabe que eu vendo?

— Um amigo que comprou na festa falou. Me ofereceu e falou que tinha comprado de você. Depois o Maurinho confirmou e me deu seu endereço.

— Esse tal amigo também sabe que você veio aqui?

Não.

Ela ia ficando brava com tanta pergunta.

— Desculpa a curiosidade – eu disse –, mas você não foi muito legal comigo na festa, e agora aparece aqui. Esquisito. Mais esquisito ainda é uma garota bem-comportada. E mais ainda só uma bem-comportada que bebe, fuma e cheira.

— O Ministério da Saúde adverte? Ou é a Secretaria de Segurança?

— Para um comerciante, o bem-estar da freguesia é tudo.

Nova pausa. Foi a minha vez de acender um cigarro. Ela pediu um gole do meu uísque. Passei o copo. A garota virou meio de uma vez, se arrepiando toda. Depois enxugou a boca nas costas da mão, sem orgulho da aparência que tinha. Gostei. Gosto assim.

Me entregando o copo vazio, falou:

— Você quer saber se eu já cheirei, é isso?

— Não quero saber. Quero entender.

Ela deu uma olhada que até machucou. Depois, um suspiro. Aí voltou ao normal:

— Então bate uma carreira pra mim. Ajuda a falar.

Outra rasteira. Dessa até ri.

— Você joga um açúcar legal…

— Vai bater?

O pior é que eu queria mesmo ouvir ela falar. Mentir pra quê? E depois, ia dar uma ligadinha, cortar um pouco a zonzeira. Ia fazer bem pros dois. Tirei meu vidrinho do bolso e pûs na mão dela, que logo entendeu como funcionava; deu um tiro, eu dei outro, ela deu mais um. O brilho funcionou como eu disse, e então, sempre direta, ela veio:

— Desculpe a antipatia de antes. Tava achando aquela festa um saco.

Pronto: melhor que enciclopédia. Resumiu tudo num instante. Falei na sintonia:

— Considerando sua turma… é normal.

Ela percebeu a gozação com os amiguitchos. Abaixou o rosto e começou:

 — Quero… 

Estava começando, mas parou. E foi aí que ela pensou bem no que ia dizer.

— … experimentar.

Achei que tinha chegado a hora dela falar, e perguntei:

— Mas numa boa? Você tando legal?

— Essa pergunta é mais difícil de responder: defina “legal”.

Ô figurinha difícil, pensei. E respondi:

— Define você.

— Vamos pensar — ela começou, na gozação mansa —, o que é estar “legal”? — eu não acreditando na calma da sacanagem, e ela me assando no fogo baixo: — Sou jovem, tenho carro, dinheiro, sou médica formada, rica de família, já tenho consultório, amanhã é sábado, e consegui me livrar de todos os chatos que estavam comigo lá na festa. Chega?

Eu tinha razão. Depois dessa, ela merecia. Só que agora era a sua vez de perguntar, para tentar me entender:

— Mas, por que a pergunta? Você se interessa pela vida de todos os seus fregueses?

— Todos não. Só os especiais.

Eu disse isso olhando bem pra ela. Vai entender a sorte; quando eu estava rendido, pintou a brecha. Ela segurou a vista um tempinho, mas depois fugiu. Tinha alguma coisa, uma parte sofrida, triste demais, e que dava vontade de cuidar, sarar, proteger. Mas tinha as garras. Não resisti e convidei:

— Fica aqui com a gente?

— Ainda vou encontrar uns amigos. Outros amigos.

Olhei para ela — mentira, claro — e ri de leve. Depois, concluí:

— Você não está nada legal.

A safada achou graça. Os olhos e os dentes brilharam um pouco.

Eu não tinha mais o que saber. Ela podia estar pra baixo, agora, até aí… Era lúcida, você via, por mais que a lucidez machucasse. Eu podia ficar tranqüilo, quem sabe até otimista. Já era bonita e interessante; aprendendo a gostar da minha festa, ia só melhorar.

— Mas vai começar de pouquinho: uma grama — retomei.

— Não vou morrer com isso, vou?

Nem respondi à provocação. Ela é que insistiu na piada, séria de rosto:

— Eu queria mesmo era comprar um monte. Cinco, sei lá… 

— Você ia ficar ligada até o ano que vem.

— Qual é o máximo que alguém pode cheirar numa noite?

— Você não precisa de muito.

— Três, pelo menos — ela forçou, achando graça na brincadeira.

— Ana — ela se assustou quando falei seu nome —, uma, e acabou.

Ela abaixou o rosto, pensando. Fiquei até com medo do que vinha.

— Você é inédito. O traficante que não quer vender — ela disse, e fez uma pausa antes de jogar o resto. — Acha que eu vou pagar com tíquete-refeição também?

— Pra sala. O Zeca pega teu papel — eu disse, acabando a discussão.

Ela não veio. Me olhou, se encolhendo de novo:

— Posso esperar aqui?

Saí, dizendo que voltava. Acionei o Zeca, esperei, recebi o papel, voltei. Quando abri a porta, quase me deu um encontrão. Estava indo agitada para a sala. Ficamos em silêncio, eu caçando os olhos dela, ela retrancada e ansiosa, querendo voar. Zeca e Bia de platéia, que jeito? No disfarce, a Bia fingiu procurar alguma coisa na bolsa, então se levantou e foi olhar a rua da janela. Um pouquinho depois, Zeca foi junto, também como se nada fosse coisa nenhuma.

Eu continuava mudo, sem idéia. No que entreguei o papel, ela olhou para mim e disse, com metade de um sorriso:

— Quanto é?

— Cortesia da casa.

Ela olhou pra mim de novo: 

— ‘brigado.

Gostei. Gostei até do jeito de falar. Sem frescura.

— Às ordens — respondi, me achando.

Ela agradeceu com a cabeça, sem jeito, e saiu na direção das escadas. Largou um “tchau” para o Zeca e a Bia, que responderam. Então desceu o primeiro lance sem virar para trás.

Fechei a porta e fui até a janela. Queria ver ela entrar no carro. Foi eu fazer isso e meus amigos logo acharam de me sacanear. Para isso é que servem, no final.

— Um dia acontece, com qualquer um — veio o Zeca.

— Vai tomar no rabo — cortei logo, só que sem dar certo.

Risadinhas. Que se fodam. Num segundo já estava com a cabeça pensando nela. Ana: bonito nome.

Curtindo minha cara, meu jeito de fome triste, Bia e Zeca riram de novo. Se metendo à besta, ele mexeu comigo por uma coisa que nem tinha nada a ver:

— Bia, reparou que o Paulo desistiu de consertar as persianas da sala?

Bia nem entendeu muito a brincadeira, mas costurou pra dentro, pelo prazer.

— Essa janela aberta é um perigo.

O Zeca terminou a piadinha:

— Em vez de consertar, arranjou um binóculo.

Riram os dois. Eu estava ficando de saco cheio do moleque. Bebum.

— A melhor defesa é o ataque — a Bia disse.

Riram outra vez.

Comprei um binóculo, e daí? Dois pregos tortos. Fazer o quê? Sobretudo ele, que vivia de não me respeitar. O melhor era nada. Não fazer. Nem sofrer. Preguiça de entrar no joguinho. Voltei nela, pensando. Era uma coisa, um…

Fiquei quieto, esperando a calçada florir no meio da noite.

— Paulo, vamos noutrazinha? — o Zeca perguntou.

— Já acabou a de vocês?

— Já — responderam os dois, em coro.

Apalpei os bolsos, sem tirar os olhos da rua. Estava demorando. Respondi:

— Deixei o que eu tinha no quarto. Pode pegar.

Ele foi e voltou:

— Paulo, só vi uma pedra raspada.

— É o meu vidrinho que você tem que procurar.

— Qual deles?

— O maior — respondi, na irritação.

— Não achei. Você não quer vir olhar?

O inútil, pensei, incapaz de uma coisa tão simples. O Zeca era uma borboleta disfarçada. Perigo ambulante. Cresceu a vontade de ver se ele ficava esperto. Fiz careta:

— Vem cá. Vigia pra mim.

Ele veio.

— Quando a garota aparecer, me chama — completei.

Fui até o quarto. Tinha certeza que o meu vidro estava lá. Tirei ele do bolso quando fiz a presença pra Ana. E não estava nos meus bolsos. Só que também não estava no meu quarto. Procurei um pouco, sem paciência, ansioso, e ia ficando cada vez mais irritado. Voltei para a sala.

— Sei lá onde eu enfiei essa merda.

— Ih, ó o cara… Esse truque é velho, Paulo Braite — disse o Zeca, me deixando mais puto.

— Não torra, Zeca.

— Vai regular pros amigos? 

— Zeca, dá um tempo, caralho! — e empurrei o cara com meia força, que chegou pra uma boa balançada.

Finalmente ele notou que devia parar. Eu, firme, perguntei:

 — E a garota? Não saiu do prédio?

— Por aqui não passou — disse a Bia, também na janela.

— Engraçado… — falou o Zeca, já cavando as pazes e puxando intimidade. Olhei feio mesmo assim.

A Bia, claro, foi a primeira a juntar os dois sumiços:

— Vai ver ela pegou teu vidrinho quando ficou sozinha no quarto e está cheirando tudo aí pelos corredores.

A frase pesou. Olhei feio. A Bia sempre secando as minhas histórias. Ela, lendo minha cabeça, se defendeu:

— Sei lá…

Relembrando, admiti por dentro que até podia. Mas, na loucurada, a gente nunca acha onde largou a festa, ela se entoca e espezinha a fissura. Isso era mais lógico, mais possível, muito mais comum. Fica todo mundo afobado, ansioso em não deixar que o sumiço demore, estragando a sessão, ou preocupado nem que seja em desmanchar o flagrante, e a festa parece que evapora no ar (com maconha é igualzinho).

A voz do Zeca me cortou:

— Olha lá!

A Ana ia saindo do edifício naquele segundo. Mas tinha algo errado no jeito que andava. Uns passos frouxos, o corpo meio mole, quase tropeçando nas pernas. No meio da rua, simplesmente caiu. Desabou no asfalto.

A adrenalina chutou forte um gosto de raiva e medo. Caiu na minha cabeça uma outra ligação, que não te dá total controle do que você faz, às vezes nem deixa pensar, mas te põe soltando faísca, com uma ação muito maior. Pensei rapidinho:

— Zeca, vai agora e procura alguma coisa na escada até a portaria. Se achar, recolhe. Mas não sai do prédio, entendeu?

— Eu, Paulo? – ele gemeu, querendo moleza.

— Você. Agora.

Ele foi, eu e a Bia ficamos olhando da janela, assistindo. A garota talvez não estivesse totalmente inconsciente; se mexia no asfalto. Mas ficava se torcendo toda e, uma hora, vi uma convulsão. Do meu lado, a Bia assustou. O Zeca apareceu, no drama total, esticando as mãos cheias pra mim:

— Olha só!

— Merda! — eu gritei, puto.

— Tomou nos cordões — ele disse, ainda mostrando nas mãos a seringa, a colher, o isqueiro e uma garrafinha plástica de água praticamente cheia.

Ana sua filhadaputa; com todo o meu vidrinho, mais a grama que comprou, ia morrer na porta da minha casa. E mesmo sem morrer, ia acabar me levando pro inferno.

— Que que a gente faz? — a Bia apavorou.

— Vai pra casa — eu mandei.

— Você não vai socorrer a menina, Paulo? — perguntou ela, num tom que não gostei. 

— Socorrer como?

Chato dizer isso, mas não era? Tomo cuidado pra nunca acontecer. Depois, quem sou eu pra ajudar? Eu era mão, pé, boca, joelho, tudo amarrado no camarote. Mesmo pela Ana. Ia ter que assistir sem mexer um palito. A Bia, percebendo a minha crise, obedeceu direto:

—Já fui — ela disse, passando a mão na bolsa. — Boa sorte pra vocês.

Eu completei:

— Não chega nem perto dela, Bia. Quando sair, não atravessa a rua, finge que não viu. Anda na nossa calçada e sai pela primeira esquina.

A Bia foi, ouvimos ela descendo as escadas. Torci para sair do prédio antes de alguém chegar. Finalmente apareceu na rua. Sem chamar atenção, andou rápido na direção contrária, dobrando a esquina. Eu e o Zeca apagamos as luzes e encostamos na parede embaixo da janela, agachados. Silêncio, o maior breu. Logo depois, lá fora, já tinha gente em volta da Ana. Ouvi uma sirene, longe ainda, mas chegando.

Minha raiva era do mundo. Do Zeca, da Ana, da Bia, da polícia, do caralho a quatro. Será possível que ninguém entendia?

A polícia chegou.

— Paulo, socorro — o Zeca gemeu do meu lado.

— O pessoal da rua chamou. Não estão atrás de nós.

— Como você sabe?

— Meio da rua é meio da rua.

— Podem ter visto ela saindo do prédio.

Grande novidade. Nem respondi.

Passaram uns dez minutos. Nós dois agachados embaixo da janela. Silêncio e breu na quitinete, uma confusão de sons e luzes lá fora. As sirenes vermelhas gritando no ar, o teto lá de casa parecendo vivo, com formas e cores que se mexiam, procurando. O Zeca prendeu um choro, feito criança. Ouvimos outros carros estacionando; mais luzes e sirenes. Botei os olhos pra fora. Um segundo carro de polícia e uma ambulância. Dois enfermeiros e primeiros socorros. As luzes brilhavam na pele branca do rosto da Ana e dos seus braços moles.

Fiquei mal quando vi os guardas aproveitando pra dar uma batida no motel meu vizinho de frente, levando todo mundo até a rua, pra revista geral. A gente se entendia, eu e aquele puteiro, mas sempre periga alguém morder. Daquele jeito, grande chance, aliás. Também era mal fazerem ficha por culpa de cliente meu. E se a polícia batesse aqui?

Bom, aí não adiantava coração mole. Era saber agir. E o pó ia me ajudar a defender a vida que eu tinha.

Agachado, fui até o quartinho e voltei com uns papéis e aquilo, pra mim e pro Zeca. Ele afrouxou de cara:

— ‘Cê tá maluco? Vai trocar tiro com a polícia?

— Pega e não discute.

Eu tava decidido. De herói não tenho muito, mas de bundão não tenho nada. Só que o Zeca miou mais alto:

— Tô fora.

Eu olhei sem acreditar. A voz dele tremia. Escorria lágrima na boneca.

— Vou sair — ele avisou, como se desse.

— Senta aí.

— Por favor, Braite. Deixa eu ir.

Bêbado. Cocainômano. Cagão. O que mais eu podia achar? Ele estava encharcado, trincado, apavorado, e não sabia o tamanho da invertida. Mas não tinha volta: cana por culpa dos outros eu não pegava.

— Senta aí e cala a boca.

— Por favor — ele insistiu, esfregando o nariz e me olhando, pedinte.

Fiz a última tentativa:

— Você acha que não vão te segurar? E que não vão te sacar nesse estado? A Bia se mandou enquanto dava, agora espera.

— ‘Tô com medo.

— Isso passa.

— Se me pegarem, juro que não falo nada.

— E eu tenho que correr o risco?!

Ele parou quando eu disse isso. Mas depois, me olhando sério, de repente todo macho, falou grosso:

— Tem!

Encarei de volta. Vi vermelho. Nessas horas, um primeiro movimento é o de limpar a loucura da cabeça pra pensar, ver bem. Só que é impossível, e mais, é ilusão. O segundo movimento é buscar a decisão na própria loucura. Reagir rápido. Foi quando eu desisti dele:

— Vai, infeliz.

O Zeca me olhou de novo. Foda-se. Depois largou o ferro e engatinhou até a saída. Abriu a porta, se levantou, parou no início da escada – tentando encaretar, secar o choro. Viadinho. Traidor e burro. Eu é que não ia pro inferno só porque ele estava se borrando.

Engatinhei atrás, de mão cheia. Ele começou a descer, devagar, querendo parecer normal. Eu, chegando na escada, me levantei: nenhum vizinho na área. Desci uns degraus, ficando mais perto. Ele, anestesiado por tudo, até pelo medo, não me ouviu. Soprei:

— Cuzão… 

No que ele virou, explodi bem no meio da testa mole. Ouvi o estalo da coronha no osso. O Zeca apagou sem um pio, e começou a cair. Já no chão, eu de joelhos no peito dele, mandei mais duas porradas firmes, que abriram de vez aquele buraco. A cabeça ficou afundada, um rasgo roxo e vermelho na pele. Peguei o corpo, arrastei de volta pra dentro. Fechei a porta de casa. Larguei o peso morto. Voltei pra perto da janela. Encostei de frente pra cozinha, de costas pra rua. Limpei o suor da testa, respirando fundo.

“— Alô.

— Eu te conheço?”

Pra que isso, Ana? Ninguém faz nada sozinho. Ia ser difícil sair limpo agora. Acendi o brilho no tendão do polegar. Uma taturana gorda que veio rasgando por dentro.

Lá fora, no meio da confusão, vozes, luzes, carros da polícia; eu ouvi.

Teria sido legal uma paixão, pra variar. E a Ana parecia legal. Faltava esperança nela, é verdade. Faltava acender. Ali na sala, parado, agachado, sozinho, só com o cadáver daquele merdinha estirado no chão, que não era boa companhia nem vivo, percebi que era exatamente isso que eu via na Ana, aquele ar triste era isso: falta de esperança. Por quê, eu tinha vontade de saber. Falta de animação, dentro dela. Como se alegria fosse uma coisa que só existe por acaso. Eu posso falar. A alegria do careta não vale mais que a do drogado. Se a do drogado pode ser mais curta, pelo menos está mais ao alcance da mão. E ambas são viagens. Motivo mesmo pra ser feliz ninguém tem. Vendi festa a vida inteira e fiz muita gente se divertir. Podia ter ajudado a Ana; me interessei, por isso fiquei triste. Naquela altura, nem pra se ela ia viver ou não consegui palpite. Não devia ter ido naquela festa, só isso. Mas fui…

Mandei nariz acima outra centopéia branca, e o azedo bom veio ralando até o alto do coco e o meio do esôfago. Funguei com a garganta, esfreguei os restos mortais do papel nos dentes e na gengiva. Eu ia defender o meu jeito de ser feliz.

Zeca apagado, eu no escuro. O tempo guinchou devagar outra vez aquela noite. Anestesia nos lábios, nos dentes. A sensação de apertar e não sentir. Uma paz elétrica. No fundo, todo muito sabe por que os suicidas se matam. Merda quanto mais mexida mais fedida.

O pó sempre foi meu sentido da troca. E dava força. Eu esquecia o sol lá fora, brilhando. Indo fundo nele, o pó tem esse poder. O tempo fica paradinho, só pra te ouvir; as festas não acabam, furam a noite, que vira dia seguinte, manhã, meio-dia, tarde, noite, manhã, meio-dia, tarde, noite, tudo é uma noite só até o infinito, que é quando o pó acaba. O juízo final dos fracos, que saem e vão fritar no colchão, cheios de culpa, preocupados que vão se arrastar no trabalho quando chegar a hora, que não sei quem vai perceber, que faz mal ao organismo, que isso mais aquilo; eu desprezo. Ficam acertando as contas com a lavagem cerebral do medo de morrer, que termina sempre no medo de viver. Tudo agride a saúde. Então o risco do pó era tanto quanto, e mais humano. Pra quem dá valor, o pó não agride. E eu gostava de todas as partes. Sem juízo depois, sem ressaca. Gostava até sozinho, como naquela hora. Gostava dos detalhes; as janelas fechadas, nem que fosse com um cobertor pendurado no lugar da persiana quebrada, a garrafa de uísque vazia, os copos espalhados, o cheiro de cigarro nas roupas e no cabelo, e o pó, espremido nos retalhinhos de saco de lixo grudados com fita isolante, esparadrapo ou durex, marrom nos vidrinhos de bolso, poça branca no preto da bandeja térmica, ou puro em escama, que de pouquinho era normal, mas que na pedra ficava com uma luz verde clara, meio fosforecente, kriptonita ao contrário.

Cherei outra. A Ana era uma lembrança triste. Usou a solução para aumentar o problema. Eu podia ter ensinado o caminho, mas não deu tempo. A Ana morreu, viva ou morta.

Tentei escutar o que diziam lá embaixo. Fechei os olhos e senti meu corpo todo formigando, a cabeça indo e vindo. Pra que iam falar? Era só apontar na direção da janela do boneco aqui. Os próprios donos do motel, se tivessem certeza que ela veio do meu prédio, de raiva, podiam ó, fuc-fuc eu. Matar não foi tão difícil, incrível. Morrer é que ia ser uma merda.

Mandei outra. Mal sentia meus lábios, mal sentia meu corpo. Delícia. Abaixo a saúde, que só cuida dela mesma. Apertei o revólver. Se nada mais acontecesse aquela noite, eu tinha um defunto na mão, a vingança do puteiro pra desfazer, e, voando, um michezinho galã que sabia que a garota tinha ido lá em casa.

Só podia torcer. Rezar para não dançar. Senti muito orgulho de mim, enquanto isso, e muito nervoso. O que me deu força foi o pó. Que me ensinou. Graças a ele, antes, eu tinha ido a barraco no morro e a cobertura de magnata, os dois com a vista da cidade todinha. Conheci dona-de-casa pobre, artista doidão, classe-média bobo, o não bobo, socialaites, empresários, bandidos, polícias, diz aí o quê. Graças a ele tinha ouvido tudo quanto é problema, solução, tristeza, alegria; cada um com seu jeito, história nova. Todos os segredos aparecem numa noitada. Que outro tipo de festa combina com esse mundo nosso? Bailinho é que não é.

Eu sou quem solta as pessoas, virando outras mais elas. E me orgulho disso. Me orgulho dele. O pó faz quem vende, é quem vende. O pó faz quem compra. Por ele eu aproveitei inteira a variedade dos outros, o que para mim era o negócio. A importância. Falei tudo, na sinceridade, de cá e de lá como só ele faz. Falei o coração. Só ele, que força o mergulho e não admite máscara, que sempre me protegeu da maluquice careta. O mundo se divide, mesmo, é entre os que disfarçam e os que mostram. Quem é quem o pó separa. A verdadeira festa.

Fiquei lá um tempão, quietinho. Torcendo. Pensando. Nem me mexia. Só os dentes se apertando na boca, fazendo uns nós de osso embaixo das orelhas, que eu só percebia quando o maxilar reclamava da dor. Era uma agitação agarrada por fora, que soltava por dentro. Torcendo. Tive uma idéia melhor. Derreti um pouco na colher da Ana, suguei com a sua seringa, puxei um teco de sangue, dei uma balançadinha pra misturar, e pûs o caldo vitaminado de novo dentro de mim.

Daí em diante, tomei outra, e outra, e outra, até que deixei a agulha quebrar. Tirei do braço sem dor, como se fosse uma farpinha no pé. Fiquei muito além do medo, da culpa, da solidão, explodido numa sensibilidade de anestesia.

[Esse conto foi escrito entre as décadas de 1990 e 2000]