Marte | coleção Deuses da Mitologia

a outra vida

“O mais odioso dos deuses”, foi assim que, nas palavras de Homero, Zeus caracterizou seu filho Ares, o deus da guerra. A frase é impactante, pois o senhor do Olimpo não está se referindo a nenhum bastardo, concebido por acaso numa de sua mil aventuras extra-conjugais, e sim a um filho legitimamente concebido com sua esposa, Hera.

Esse número da coleção Deuses da Mitologia é quase inteiramente escrito por nossa principal colaboradora, a professora Marlene Suano, que entretanto contou com uma contribuição da professora italiana Angela di Niro, autora da matéria intitulada “O passado de Ares”. E as duas são unânimes ao afirmar que Zeus, ao agredir com tanta franqueza a quem supostamente deveria amar, de certa forma verbalizava um conceito geral dos gregos sobre Ares. Tal conceito, acrescentam elas, era ecoado por outros povos, em relação a divindades correspondentes.

Embora a guerra fosse um elemento indissociável do mundo antigo, embora propiciasse ao povo vencedor coesão e prosperidade, nem por isso deixava de trazer grandes males, inspirando nos homens temor ou revolta. Ares concentrou tudo o que a guerra tinha de ruim: a impulsividade irrefletida, ou mesmo a irracionalidade, o prazer no derramamento de sangue, a briga entre irmãos, a traição entre aliados, os sentimentos de medo e pânico (encarnados por dois filhos de Ares), a destruição das cidades etc.

De fato Ares, em bom português, era um encrenqueiro. Descontado seu único amor duradouro, pela deusa Afrodite, ele via de regra tinha relacionamentos problemáticos com seus colegas de Olimpo. Brigava com Atena feito cão e gato, perseguiu Hércules até não poder mais, foi levado a julgamento por Poseidon, para citar apenas alguns quiprocós célebres. Mesmo suas bençãos costumavam ser duvidosas. Ora ajudava um filho perverso a matar os pretendentes de sua neta, ora tomava as dores dos monstros que havia gerado, ora concedia a alguém o direito de castigar para sempre determinado desafeto.

A redenção de sua imagem viria, enfim, em Roma, com Marte. Mais do que um novo pseudônimo, lá Marte agregou a seu conteúdo simbólico valores altamente positivos, como a proteção aos campos e à agricultura. Mesmo no ideário militar seu papel deixou de ser negativo, ganhando atributos mais heróicos.

Fartamente ilustrado com pérolas da história da arte, este número sobre Ares chega ao fim mostrando o quanto o deus da guerra, para o bem ou para o mal, ainda está presente no mundo contemporâneo.