Manchas roxas com bordas verdes

No monitor maior, bem visível no meio da parafernália, girava a imagem de um cérebro 3-D, em tamanho natural. Um labirinto cinza, com sombras e volumes, rodopiando lentamente sobre fundo preto.

Quando entrei na cabine, fui apresentado a todos. Tive direito a uma pequena aula sobre os equipamentos disponíveis e como se adequavam aos objetivos da pesquisa.

O voluntário no 7 chegou em seguida. Era baixo, moreno, tinha um rosto quadrado e uma expressão simpática. Mas não parecia alguém especial, ou eu tinha ficado cego. Reparei que segurava cuidadosamente o envelope com as três fotos solicitadas, a da moça por quem estava apaixonado e duas outras, de amigas. Fazia parte da experiência.

Embora já tivesse passado pelo tomógrafo e pela espécie de detector de mentiras, que medira a resistência de sua pele, o no 7 parecia intimidado. Não o culpo. Eu, se fosse ele, morreria de medo.

Todos os voluntários recrutados, lá mesmo no campus — quatro garotos e quatro meninas, entre dezoito e vinte e cinco anos —, preencheram devidamente o único pré-requisito, o de sentirem-se apaixonados. Testes semelhantes nunca haviam sido feitos por aqui. Duraram ao todo duas semanas. Apenas um deu negativo, o do quinto voluntário. E só o no 7 fez jus àquela nova rodada.

O Instituto Tecnológico reservara uma de suas novas salas para o time de pesquisadores, três neurologistas e dois técnicos em computação. Uma parede envidraçada dividia o espaço, com o tomógrafo e os equipamentos pesados de um lado, e os técnicos, cientistas e ainda mais equipamentos do outro. Tanto lá quanto cá, muita luz, temperatura polar, assepsia cirúrgica.

O no 7 foi recebido com a maior descontração. Todos lhe agradeceram por haver aceito um segundo teste. Comentaram vagamente o anterior e prometeram mais detalhes ao final, quando confirmassem o diagnóstico. Ele entregou o envelope ao primeiro neurologista, que por sua vez repassou-o a um dos técnicos. Enquanto voltávamos para nossa cabine, o segundo neurologista acompanhou o no 7 até a mesa, onde ele deitou meio sem jeito, ainda precisando relaxar. O outro técnico posicionou o scanner ao redor de sua cabeça e voltou para junto de nós, fechando a porta entre os ambientes. As luzes foram diminuídas. As máquinas, acionadas. Um novo cérebro 3-D, ainda mais real, apareceu no monitor. Deram a partida no gravador e nas duas câmeras de vídeo. Por pequenos auto-falantes, os neurologistas perguntaram ao no 7 se estava pronto para as preliminares. Peguei lápis e papel.

Ele repetiu sua história. Recém-completara 21 anos, estudava Letras, morava com os pais, planejava seguir carreira acadêmica. Há dois meses havia começado a namorar uma estudante de Desenho Industrial. Conhecera-a numa festa. Era dois anos mais moça, filha de um advogado importante, também morava com os pais.

Então, após uma ligeira pausa, acendeu diante dele a fotografia de uma de suas amigas, não a da namorada. Os cientistas lhe perguntaram sobre a garota, sobre o que sentia por ela. Percebi que tinham pensado sobre a ordem em que as imagens seriam projetadas. A resposta do no 7 foi morna. Olhei em volta e, a julgar pela reação geral dos neurologistas, sua namorada teria gostado do que apareceu em nosso monitor. Eu, o que vi, foram apenas manchas pálidas, marrons e cinzas escuras.

Em seguida veio a foto da outra amiga. Os pesquisadores foram mais diretos em suas perguntas, querendo detalhes da amizade. Quando o no 7 anunciou que já fora apaixonado por ela, e que haviam chegado a “ficar” tempos atrás, parando por aí porque ela quis, senti que os neurologistas ficaram instigados, concentrando-se no monitor. Não ficou claro para mim qual a idéia. Pareciam dispostos a induzir alguma reação no garoto. Mas o tom de suas respostas foi o mesmo, e o detector de mentiras ficou impassível. O monitor reproduziu as manchas pálidas no cérebro virtual.

O rosto da namorada do no 7 chegou num retrato simples; cabeça, pescoço, ombros. Nenhuma sugestão mais forte. A beleza despojada por excelência; um sorriso, um olhar alongado, um pescoço esguio, ombros largos e suaves ao mesmo tempo.

Será que, da nossa cabine, vimos o amor do garoto antes mesmo dele o sentir?

À flor da pele, os aparelhos registraram uma transpiração leve. Então, bem no meio do cérebro do no 7, quatro pequenas áreas se iluminaram, todas ligadas à percepção das emoções.

— Confirmado: foi amor à primeira vista — disse o primeiro neurologista.

Embora fosse uma piada, ele me pareceu estar coberto de razão. Os pesquisadores, em seguida, estimulariam o no 7 a pensar em sua namorada, nos momentos que tiveram juntos, nos prazeres comuns. E com isso aqueles sinais, sem dúvida, se transformariam em evidências. Mas o registro da atividade cerebral já tinha se alterado na largada. Bastou o rosto dela aparecer.

O no 7, tive a impressão, sorriu com orgulho contido. Ou, no mínimo, com auto-satisfação. Não por ouvir o que dizíamos dentro da cabine; me pareceu que se julgava realmente dono de uma sensibilidade especial.

Um segundo neurologista observou que a parte do cérebro responsável pela visão, o “cérebro visual”, não havia se iluminado. Aparentemente não sentia nada, apenas repassava as informações às tais quatro áreas iluminadas, o “cérebro emotivo”.

O terceiro neurologista, e autor do convite para eu estar ali, apontando outra área apagada no cérebro do monitor, disse:

— De novo algumas regiões ativas nos momentos de desejo sexual não se alteraram.

— Quer dizer que ele não sente desejo pela garota? — foi a pergunta que me escapuliu pela boca.

— Quer dizer que o cérebro distingue, sim, o amor romântico do desejo sexual…

Olhei incrédulo. Isso era uma novidade?

— … mas não inteiramente — completou meu anfitrião. — Essas áreas aqui também se associam ao desejo sexual, e estão ativadas. É um equilíbrio que pode variar de pessoa para pessoa.

— A voluntária no 3 teve todas as áreas ligadas ao sexo ativadas… — comentou displicentemente o primeiro neurologista.

— Já o no 4, além das áreas ativadas pelo amor romântico, teve a metade direita do cérebro tão ativada quanto a esquerda — acrescentou o segundo.

Os três neurologistas riram.

— Pau pequeno. Ou pai autoritário. Ou ambos — concluíram todos ao mesmo tempo.

Não entendi. Por um instante, fiquei perdido.

— O lado direito do cérebro está ligado predominantemente às situações negativas. Entre elas, o medo — explicou o neurologista amigo.

Olhei de novo para o menino do outro lado do vidro. Se era assim, no futuro existiriam poções do amor aprovadas pelo Ministério da Saúde. Uma para o amor sexualizado, outra para o amor culpado, outra para o amor idealizado etc. Uma revolução maior que a pílula. E ainda poderia criar situações divertidas. Quando um casal saísse pela primeira vez, tanto ele quanto ela ficaria morrendo de curiosidade para saber se o outro tomava alguma dessas poções, e qual. Se o amor equivale à soma de um estímulo elétrico com uma reação bioquímica, era só questão de tempo.

Meu pensamento seguinte foi menos pitoresco: e se fosse eu deitado ali? Eu, pensando na minha mulher…? Sem tempo para racionalizar o que sentia, com meu próprio órgão da razão me expondo completamente. A tecnologia, afinal, propiciando a certeza científica sobre a fusão entre sentimento e organismo.

No monitor, o cérebro 3-D evoluía em giros e rotações. Os neurologistas pediam certos movimentos aos técnicos em computação, e estes executavam comandos misteriosos. Descobrimos novas manchas iluminadas. Localizavam-se na altura da testa do no 7, onde, segundo entendi, fica a estrutura cerebral que nos ajuda a reconhecer nossas emoções e as dos outros. Uma espécie de classificador natural de sentimentos. Onde o amor deixa de ser uma “emoção cega”, como os neurologistas chamaram; isto é, uma emoção da qual não temos consciência, como, por exemplo, a causa de uma angústia difusa.

As manchas eram roxas com bordas verdes, superpostas às dobras e aos gomos cinzentos. Aos poucos, cresceram ainda mais, e suas cores ganharam força.

Entendi de repente o que meu anfitrião tentara me dizer há pouco, quando mencionou que o cérebro do no 7 separava amor de estímulo sexual. Era o contrário do que eu havia suposto. Não os separava para poder controlá-los melhor, manipulando-os vida afora, e sim porque nele o amor romântico predominava. A velocidade com que as manchas apareceram, sua conformação e intensidade eram provas disso. No no 7, a aptidão para o amor romântico superava tudo mais. A iluminação das áreas ligadas ao sexo era, digamos, residual. No primeiro teste, os cientistas hesitaram em aceitar tal diagnóstico, que lhes soou improvável. Por isso aquela segunda rodada.

— Vocês repararam na ínsula do diencéfalo? — disse o segundo pesquisador, com a maior naturalidade.

 O amigo neurologista percebeu a minha cara, quase de revolta, e fez o favor de traduzir:

— A ínsula aumentou sua atividade quanto mais atraente foi o rosto apresentado. Enfim “cérebro visual” e “cérebro emotivo” estão se comunicando.

Tive sentimentos dúbios em relação ao menino. Ali, naquele laboratório inóspito, ele reafirmava seu amor de forma tão clara. Tentei lembrar de como foi, para mim, a sensação de ter uma pessoa por quem eu dava tudo, uma pessoa a quem eu, sem piscar, estava disposto a entregar, como entreguei, a melhor parte da minha vida. Casei com ela, tive filhos com ela. Passei dezessete anos com ela. O que me levara a ir tão longe? Menoridade emocional? Fiquei tentando lembrar como era a sensação de que é para sempre.

Talvez, combinando metafísica e psicanálise, materialismo histórico e, dali em diante, a neurologia computadorizada — tudo isso mais a convenção que diz ser o coração o órgão do amor —, eu entendesse meu destino com a minha mulher, a mesma que, naquela exata manhã, e de propósito, rosnara para mim no café.

Cientificamente falando, nos humanos, enquanto o sentimento amoroso é estimulado, a atividade cerebral comporta milhares de variações, tanto na intensidade quanto no conjunto das áreas ativadas. E, cientificamente falando também, o amor não existe numa região cerebral única. Embora ative sobretudo pequenas áreas bem-definidas, estas são conectadas a muitas outras regiões. O amor, portanto, depende de um equilíbrio sutil entre pontos ativados e desativados, que varia infinitamente de acordo com cada um: biografia, bagagem emocional, meio social, meio cultural, estruturas neurológicas etc.

Mas existe uma configuração neurológica base que permite caracterizar este ou aquele amor, sua composição, grau de intensidade e nível de desejo sexual. Por enquanto, a humanidade em geral ainda não dispunha de tomografias como aquela, e precisava se virar na base da intuição. Mas aquilo era o futuro. E no futuro, quem sabe, nossos psicanalistas, juízes de conciliação e terapeutas conjugais, em seus respectivos locais de atendimento, irão fazer uma tomografia do nosso amor, a partir da qual discutiremos a relação com nossa cara-metade.

Quanto a mim, beirava o ridículo querer tudo estático e organizado na minha cabeça, na minha vida. Euzinho, decifrando a natureza, com a metafísica, os ideais românticos, com o meu Freud, mas sem a bioquímica, a neurologia e a computação. Finalmente vislumbrei a chance de ter uma imagem palpável do meu sentimento, uma que eu pudesse colocar num envelope, dentro da minha pasta de trabalho, levar de um lado para o outro, mostrar para meus confidentes, para um garçom amigo no bar da esquina, ou mirar com olhos vidrados, em horas escuras e de silêncio. Estávamos na era do visual, eu queria ver.

As manchas no monitor, sua infinita variação em cada voluntário, eram um novo caminho. Um enigma científico, que explicava tudo e nada ao mesmo tempo. Um novo equilíbrio sutil, sobreposto a todos os outros. Tentadoramente concreto.

Olhei de novo o retrato da namorada do no 7. A imagem da beleza simples. O rosto anguloso, mas feminino, extremamente feminino, e o olhar oriental. Olhei novamente para aquele garoto, de sentimentos tão férteis. A aparência banal do no 7 de repente fez sentido. Sua timidez fez sentido, sua falta de jeito. Seu pequeno sorriso tolo e satisfeito.

Com a idade deles, era do mesmo jeito, minha mulher também. Abertos. Nos últimos tempos, ao ver casais se beijando na rua, nos bares, nos clubes, eu ficava olhando sem parar. Assistia-os exibindo sua felicidade, a ponto de me tornar inconveniente. Exatamente como no local do teste, com uma divisória envidraçada entre mim e o amor romântico. Quando via um casal de velhos no cinema, ainda se beijando na boca, ou um casal de pessoas muito feias, perdidamente apaixonadas uma pela outra, eu morria de pena do meu espírito híper-crítico. Nem todos se tornavam o que eu me tornei. Nem todos os amantes viviam como eu, eternamente querendo saber o que havia por trás da entrega amorosa. Com o passar dos anos, eu desconstruíra o sentimento amoroso no cotidiano, compatibilizando-o racionalmente com o dia-a-dia. Foi para tentar prolongá-lo ao máximo.

No entanto, eu já mal conseguia lamentar que meus filhos estivessem crescendo, embora os visse perdendo as roupas, ganhando gostos próprios, passando de ano. Nem conseguia imaginar a velhice com minha mulher. Teríamos netos, era de se supor. Talvez até o final estaríamos vivendo a vida e a morte um do outro.

Escapei de ser flagrado pela ressonância magnética naquele dia. Mas não senti inveja do no 7 e de sua namorada, eu juro; nem raiva, nem ressentimento, nada condenável. Pelo contrário.

[Este conto originalmente apareceu na revista Pesquisa, Fapesp, SP,2005.]