Lua de Mel

Ao descer da estrada para a Ponta da Lagoinha – um pequeno entalhe dos costões rochosos formando a península –, a primeira impressão do visitante era a de que o local estava para os grandes sítios geológicos assim como estão para as catedrais as capelas menores, que não impressionam pelo tamanho, mas pela riqueza de sua ornamentação. Sua vista para o mar, o grande santuário azul e branco da região, de fato era quase inteiramente bloqueada por uma pedra; em compensação, as paredes que a rodeavam, havia milhões de anos esculpidas pela temperatura e a pressão da atmosfera, guardavam seu impacto discreto.

Para o turista apressado, claro, o tom geral era cinza. A austeridade, completa. O olhar mais cuidadoso, contudo, sem fazer tanto esforço assim, logo percebia, no dorso das rochas, veios mais claros e mais escuros; largos no alto, e se estreitando até embaixo, como faixas no corpo de um animal. E depois desse primeiro detalhe, quanto mais firmasse a atenção, mais enfeites apareciam. A beleza se espalhava, e uma grande variação de formas e de cores aparecia – o brilho transparente do quartzo incolor, a silimalita branca, as esferas vermelhas da granada, os retângulos pequenos do diopsídio verde-escuro, os azuis tubulares da cianita –, ora valorizados individualmente, ora apreensíveis somente em seu harmonioso conjunto. Culminando esse trabalho ornamental, havia os entalhes mais recentes, de cinzelamento árido e desenho moderno, feitos pelos ventos de oceano.

Mas não eram apenas as obras-primas gravadas nas paredes da Lagoinha que justificavam sua reputação, difundida pelos moradores da península, de lugar místico, poderoso. Havia o barulho das ondas, que vinha de trás da barreira visual, dando ao ambiente um toque de grandeza ameaçadora, isto é, de solenidade. E havia o altar, cujo exame detalhado bastava para dar um forte impulso na elevação da alma.

De tempos em tempos, restos de ondas venciam a muralha que a separava do mar. Então, borbulhantes, regavam o corpo seco da rocha, para depois caírem num remanso cristalino e amplo, de apenas um palmo de profundidade, onde se formava uma espécie de aquário: a lagoinha propriamente dita.

Um habitat de vida miúda, isolada pela natureza: sargentos de uniformes amarelos de listras pretas, mantidos em suspensão por barbatanas vaporosas, feito medalhas esvoaçantes; estrelas-do-mar recém-nascidas, mas já com forte tom vermelho; conchas vazias e cacos de conchas, antigas habitações de moluscos que não sobreviveram à transposição forçada; caranguejos em miniatura, pardacentos e subdesenvolvidos; folhas rasgadas de vegetação marítima; manadas frenéticas daquelas pequenas baratas que vivem à beira-mar, plânctons e outros microorganismos flutuantes. 

A luta pela vida estava apenas sussurada entre os seres da minúscula cadeia alimentar. Qualquer turista, diante daquele reservatório acanhado, de uma beleza frágil e inofensiva, era tomado por uma agradável sensação de superioridade.

Só quem olhasse de perto o micro-sistema conseguia ver, naquele palmo de água, a mesma intensidade absoluta do alto-mar, entre os grandes animais. Esses poucos observadores atentos, que enxergavam o quanto era constitutivo, inescapável, o destino das espécies, sabiam que atrás da grande pedra, as ondas os engoliriam se tivessem chance, as pedras os rasgariam e os habitantes das profundezas se alimentariam de sua carne. Quando se conscientizavam disso, os visitantes sensíveis, de seu ponto intermediário da hierarquia natural, faziam juz ao raro privilégio de admirar, numa perspectiva transcendental, a força do ciclo no qual tomavam parte

Um escurecimento repentino fez com que o jovem erguesse a cabeça. O céu ia se fechando, como a garota tinha previsto antes de saírem da pousada. Logo se ouviu um estrondo, e depois mais um; trovões imaturos comos os dois membros do casal, nascidos na massa de nuvens que o vento sudoeste trouxera. A vegetação das encostas, toda feita de cactos-de-cabeça-branca, em breve perderia a secura característica.

Elisa, já carregando outra mulher na barriga, havia trazido uma capa de chuva. Grávida de seis meses, casada há três, ela perdera a silhueta perfeita e a leveza de seus movimentos. Andava com dificuldade no chão de pedras, mas estava feliz por ter tomado a decisão certa, salvando a vida do feto de sua própria covardia. André vibrava com a perspectiva de ser pai, enquanto ela passava fisicamente muito bem. Sentia-se em geral bem disposta e saboreava os efeitos positivos que as ebulições hormonais lhe traziam; os cabelos brilhantes e sedosos, a digestão facilitada, a pele mais macia e hidratada que o normal.

Uma chuva fina começou a cair. Apesar de estar protegida pela capa, Elisa pensou que talvez devessem voltar para a pousada. André, por sua vez, apenas de bermuda e camiseta, recebeu com prazer as gotas em seu rosto, braços e pernas.

Enquanto prosseguia no exame da Lagoinha, a todo momento ele chamava a mulher, apontando feito criança para algum ponto da imensa e rasa piscina de água salgada. Uma bela hora se ajoelhou, como se fosse rezar, mas, ao invés disso, tirou do bolso uma bolinha de papel-jornal, que abriu misteriosamente. Em seguida, pinçou no papel algumas migalhas de pão, pulverizou-as ainda mais na ponta dos dedos e pousou-as suavemente à flor da água, deixando-as boiar.

Ainda um pouco afastada, ao vê-lo alimentando os peixes, Elisa se consolou das dificuldades presentes e futuras. Casara-se com um homem sensível, honesto, que a amava. Ela, de sua parte, queria provar a seus pais que a gravidez e o casamento precoces não significariam a ruína de seu futuro. Também tinha ambições. Amava o marido, sentia-se bem ao seu lado e estava determinada a fazer do casamento algo muito positivo na vida de ambos.

Seu maior medo vinha de uma sensação de finitude gerada dentro dela no mesmo instante em que concebera o bebê, mas já nascida, já presente no seu dia-a-dia. Essa angústia difusa atingia não somente o seu esplendor juvenil, subitamente encurtado, ou a sua existência física, a sua parábola biográfica; atingia a tudo o mais: a posição social em que crescera, as fantasias sexuais que ainda não realizara, a união recém-começada e até a confiança no seu talento para a maternidade. Nada lhe parecia inesgotável. Nada era capaz de durar para sempre.

Sentia-se presa a um paradoxo, segundo o qual, para desempenhar com alegria o papel de esposa, precisava saber que a opção conjugal não era um compromisso eterno. Se, no seu íntimo, mantivesse a possibilidade de mudar, de refazer seus planos, aí sim poderia se dar ao luxo de amadurecer mais rápido, de relevar as diferenças de temperamento, de cumprir o rito do cotidiano matrimonial. Se, ao contrário, encarasse a vida a dois como os seus pais faziam, ou como os pais do marido, e como o próprio André, às vezes, parecia fazer – um cristal milenar, a imobilização definitiva da matéria –, ficaria instantaneamente sufocada e predisposta a jogar tudo para o alto.

Devagar, enquanto pensava, Elisa se aproximou do marido, ajoelhado à beira da Lagoinha. André novamente baixara a pinça dos dedos em direção ao espelho de água fria, levando farelos ao pelotão de mini-sargentos, já reunidos em alerta. Dessa vez, porém, não largou o alimento e se recolheu; ficou com a ponta dos dedos na água, secretando migalhas, liberando partículas de pão com uma suavidade de movimentos que a mulher prezava mais que tudo e nunca vira em ninguém.

Os peixes bicavam-lhe a pele, como as gotas finas de chuva. André sorriu, encantado diante da obediência instintiva da natureza.

“Você sabia que era para trazer pão?”, Elisa perguntou.

“O homem da pousada me disse.”

Um grande estrondo fez ambos se virarem assustados, a tempo de ver, por um instante, a forma, o volume e a cor branca da espuma pairando no alto, e depois desabando atrás da grande pedra que cobria a vista do mar. Em seguida, um jorro de água contornou o corpo maciço e escorreu junto aos dois, renovando o santuário da Lagoinha.

André propôs que subissem ao topo do promontório. Elisa olhou para a trilha por onde tinham chegado e viu os demais turistas indo embora, interrompendo o passeio por causa da chuva. Olhou para cima e viu as nuvens, prontas para se derramar.

“Vai chover forte daqui a pouco…”

“Você está agasalhada.”

“… e eu tenho medo”, ela admitiu, pondo a mão na barriga.

André não respondeu. Apenas se levantou, olhou a mulher com doçura, pegou sua mão e começou a andar em direção ao ponto que lhe pareceu melhor para a subida. Escolheu o ângulo do terreno que oferecia um caminho seguro. Elisa pensou em puxar sua mão de volta, desobrigando-se de acompanhá-lo. Contudo, mais do que a idéia de obedecê-lo, incomodou-a a sensação de ter seus deslocamentos limitados pela gravidez, de admitir que a filha, mesmo antes de nascer, restringia sua liberdade. Então se deixou levar.

Tomaram um caminho diagonal, suavizando a inclinação da subida. Enquanto avançavam, a chuva apertou. As pequenas mordidas na pele de André viraram agulhas finas que caíam do céu, e começaram a fazer um barulho engraçado na capa de chuva emborrachada de Elisa.

A meio metro do topo, na parte mais lisa do promontório, André colou o corpo junto à pedra, para não perder o equilíbrio. Agarrando-a com as duas mãos, ergueu-se com agilidade. Uma vez firme lá em cima, esticou os braços até a mulher e puxou-a delicadamente.

Aprumando-se no ponto mais alto da Lagoinha, ao ver a paisagem escancarada diante de si, Elisa se pôs a girar, com um sorriso deslumbrado no rosto. “Há coisas que nunca acabam, afnial”, pensou, enchendo-se de esperança e agradecendo ao marido por tê-la trazido até ali. Ele, lançando os olhos no vazio, tentou enxergar ainda mais longe. 

Os dois admiraram a beleza e a dignidade a sua volta. Havia ilhas distantes, cercadas por uma névoa densa; uma nesga de azul se abrira num canto superior da paisagem, apesar da massa gasosa, escura e úmida, que nascia no encontro do mar com o céu e vinha se retorcendo até eles, passando bem alto por cima de suas cabeças. Ao longe, rente às ondas, uma gaivota planava, cruzando a cena. Muito acima, à esquerda, três fragatas, com suas asas extremamente longas e angulosas, ainda voavam em círculos, sem pressa para se abrigar. Lá embaixo, as correntezas também evoluíam e, sob as águas, as criaturas oceânicas – peixes de imensa variedade, em cardumes ou solitários, arraias, tartarugas, crustáceos, anêmonas e os grandes predadores – tratavam de suas vidas misteriosas, imunes ao derramamento iminente na superfície. O vento soprava e o cheiro do sal corria no ar.

Era daquele ponto, quatro a cinco metros acima das ondas, que o espetáculo da Lagoinha se completava. Num mesmo sítio, os turistas podiam observar o milagre da criação, e da luta pela vida, em três dimensões; na elaborada constituição das pedras, no raso aquário natural e no gigantismo do horizonte marítimo; na fé concentrada da capela, na beleza frágil de um altar e na espiritualidade poderosa de uma catedral.

A natureza, com suas violências e fatalidades, afinal podia ser encarada de maneira mais generosa. No grande quadro, tudo fazia sentido. As turbulências inerentes ao ato de viver perdiam momentaneamente seu caráter angustiante, imantadas por uma sabedoria compartilhada. Lá em cima do promontório havia clareza, e um sentimento de paz, ou melhor, de acolhimento, que abrangia inclusive a tempestade cada vez mais próxima. Qualquer visitante podia, dali, gritar sua fé às alturas e às profundezas, ou simplesmente assistir, com tudo incluído, ao glorioso martírio do planeta.

O jovem casal sentou na pedra, e André pôs o braço em volta de Elisa. Em silêncio por algum tempo, eles rezaram à integridade da paisagem.

O vento açoitava todo o costão da enseada. O dia definhava, convertido em milhões de gotas rápidas, que explodiam sobre os dois. As ondas, num embalo denso, batiam contra o paredão de pedra, esguichando sua impotência na forma de rajadas brancas. Algumas folhas e um pedaço de tronco de coqueiro flutuaram por perto, devolvidos pela água. As escarpas em torno, lanhadas na secura da armação geológica, mantinham suas cicatrizes altivas, mais uma vez enfrentando o elemento sem forma, o mar só volume, a cada minuto mais bravo e opaco, que perdia suas cores como o céu perdia sua luz.

À direita, a elevação do promontório terminava abruptamente, formando entre ele e as escarpas uma toca de água selvagem, um poço agitado e voraz. Lá, o tom verde-escuro do mar clareava, tornando-se cor de jade, iluminado por alguma armadilha da natureza.

À frente, erguia-se do mar a laje que sustentava o promontório. Vinha marcada pelas mesmas contradições e turbulências que só a vista do alto era capaz de justificar. Quando as ondas recuavam, preparando o próximo bote, toda a laje crepitava. Algas frescas e verdes agarravam-se à rocha, coexistindo com os furúnculos cortantes das cracas e os buracos soturnos dos ouriços, de onde despontavam espinhos negros e compridos.

André olhava o horizonte com adoração. O seu casamento vivia o esplendor dos primeiros dias. Sua união com Elisa não representava a seus olhos qualquer perda de liberdade, por isso ele nem imaginava a consciência mais aguda do passar do tempo que a esposa ganhara após a gravidez. Ele não sentia a pulsação subterrânea, a vida agora batendo como um relógio, e a vida conjugal, como um relógio de dois mostradores. Ele não antecipava que o nascimento da filha traria um terceiro mostrador para o quadro, e que seria muito difícil mantê-los todos regulados.

Mas para Elisa, a diferença entre se estar casada ou solteira, entre ser mãe ou não, era que sozinha e sem filhos ficava mais fácil esquecer da existência dos relógios. Quando separações aconteciam, as pessoas erravam ao acusarem o outro de ter mudado, responsabilizando-se mutuamente por terem deixado de ser os mesmos. O problema não era esse. Impossível não mudar. Mesmo quando alguém continuava igual, mudava, pois a vida em volta mudava, e a mesma coisa que se era antes ganhava outro significado.

André, porém, acreditava na força do amor e em seu poder de adaptação. Como o sogro andava no ritmo da sogra, e sua mãe, no de seu pai, sua engrenagem interior seria perfeitamente capaz de se adaptar a um ritmo mais acelerado, como o de Elisa.

A mãe dele sempre dizia que o casamento era a forma de vida mais corajosa, por exigir o exercício constante da compreensão. Como recompensa da natureza, segundo ela, os casados tinham vida mais longa que solteiros. André acreditava nisso como em uma verdade científica. Para ele, os outros, exigentes e volúveis colecionadores de paixões, fracassavam a cada instante, sucumbindo à tentação covarde de estar sempre no início de um romance. Mas não ele. O jovem marido estava plenamente disposto a aprender com a mulher. 

Elisa, por intuir no marido essa boa disposição, já desenvolvera uma estratégia para ajudá-los a vencer os desafios que tinham pela frente. A vida conjugal que imaginava era uma de movimento incessante. A finitude precisava ser combatida com dinamismo. Tentar freiar o tempo era uma burrice tão grande quanto deixá-lo passar levianamente. 

As dificuldades a vencer eram muitas, é claro. O modelo mãe de família completo se armara para ela; o modelo pai de família completo valera para ele também. Era justo que fosse assim, e que continuasse sendo assim. Estavam felizes com a filha e o casamento, mas a outra vida que tinham desenhado no futuro ia apenas começando. Apesar de tudo, os dois estavam cheios de esperança.

A enseada que cercava a Ponta da Lagoinha encontrava-se agora completamente vazia de turistas. Nenhum barco atracado nas redondezas, nenhum mergulhador na água. Só os dois ainda permaneciam sentados no alto do promontório. No céu, a tempestade era iminente.

“Vamos”, pediu Elisa, apoiando-se na perna dele para levantar. André deu uma última olhada no mar lá embaixo, depois no horizonte, e então se levantou também.

O abandono das pedras à chuva era inevitável e, portanto, de uma inteligência natural. A capacidade de se resignar, imóveis, à inconstância de tudo em volta era o maior motivo de orgulho que podiam ter, apenas comparável ao talento de aderir à instabilidade generalizada, como faziam a luz, as ondas e os ventos.

O jovem casal venceu o primeiro pedaço mais liso do promontório, e continuou descendo pelos mesmos ângulos por onde havia subido, debaixo de gotas cada vez mais duras de chuva. Quando podia, a futura mãe gentilmente recusava-se a ser ajudada. Enquanto seguia o marido, o material emborrachado de sua capa soava feito uma metralhadora de brinquedo. 

Contudo, um vislumbre do poço à direita do promontório fez com que André, num gesto repentino, saísse do caminho de volta, puxando Elisa pela mão.

“Está chovendo demais”, ela reclamou, sem entender o desvio que faziam.

“Olha.”

Elisa entendeu o que o marido tentava lhe mostrar quando viu a água cor-de-jade se debatendo contra as rochas. Mas após alguns instantes, ela gentilmente o lembro de que precisavam ir:

“Querido…”.

Antes de terminar a frase, no entanto, reparou que André avaliava a conformação das pedras naquele ponto, buscando um jeito de chegar mais perto. Elisa olhou de novo e constatou a óbvia dificuldade de se alcançar com segurança um ângulo da pedra em que a visão para o poço fosse mais direta.

“É perigoso.”

“Por aqui”, ele respondeu, soltando a mão da mulher.

“Cuidado.”

Não havia passagem, na verdade. Uma falha no caminho tornava necessário que se pudesse flutuar para atingir o local desejado. Lá embaixo, as ondas ameaçavam tomar posse definitiva de qualquer coisa que caísse em seu território.

Mesmo assim, sob o olhar inquieto de Elisa, André arriscou uma perna aberta até o outro lado da falha, encaixando o pé numa reentrância. Em seguida, esticou o braço, agarrando uma protuberância da pedra imensa. A chuva caía-lhe nos olhos, atrapalhando. 

Num segundo movimento de impulso, André atravessou o vazio com o resto de seu corpo. Vencida a queda, olhou para Elisa por um instante, do seu jeito muito particular, e foi até a beira do poço.

Algas carnudas, cor-de-rosa, penduravam-se na base das escarpas em volta e na lateral do promontório, ora mergulhando nas ondas, ora emergindo encharcadas. Davam a ilusão de que um náufrago, um praticante de pesca submarina, ou um nadador desavisado, teriam no que se agarrar para subir à terra. Mas aquelas esponjas, além de escorregadias, se desfariam ao primeiro puxão, e a força das ondas acesas, que ricocheteavam nas paredes de pedra, jogaria o infeliz para lá e para cá até a morte.

Elisa ficou olhando o marido, que tinha diante de si o poço convulsivo, cheio de luz e movimento. Ela, por um instante, novamente encheu-se de esperança. André admirava a turbulência das ondas sem se deixar invadir pelo medo. A inquietação dos elementos não o penetrava em absoluto. De onde vinha tanta placidez? Aquele homem demonstrava com tanta economia os sentimentos, e no entanto, por dentro, era tão emotivo e generoso. André arremessava seu olhar de tarrafa, como se as águas fossem lhes trazer o amanhã que tanto desejavam, o progresso daquele casamento recém-erguido com massa instável.

Mas a chuva caía cada vez mais forte e, apoiando-se numa pedra, Elisa abraçou a barriga com a outra mão. Finalmente André decidiu voltar. Repetindo os movimentos anteriores, lançou um pé, depois a primeira mão, encaixando-a numa reentrância da pedra. Faltava o resto do corpo.

Dessa vez, porém, faltou-lhe o apoio para o segundo impulso. A pedra na qual agarrara partiu-se de repente, fazendo-o balançar para longe e para trás, num esboço de tragédia. 

Elisa sentiu o desequilíbrio do homem que amava como se fosse dela mesma, e viu André oscilando no espaço, lentamente, com uma das mãos desprendida e o braço espetado no ar. As correntes turbulentas lá embaixo se agitaram outra vez.

Ao contrário do peso de seu corpo, naquele instante puxado pela gravidade, o olhar de André se ergueu, pairando, e conseguiu alcançar o outro lado da falha na pedra, agarrando-se ao olhar de Elisa. Os dois, num susto, constataram abismados que a morte estava prestes a acabar com suas esperanças de uma vida melhor.

Aquele contato visual deu um objetivo à mão pendurada no vazio, fazendo-a pular na direção contrária ao corpo de André, que pendia para trás, e se esticar até o outro lado da falha, onde estava o corpo e as mãos de sua jovem esposa e futura mãe de sua filha. A mão que vinha do abismo queria ser agarrada, puxada, queria que Elisa a trouxesse com toda a força para junto de si.

Mas um instinto de auto-defesa a fez imediatamente perceber que, se agarrasse a mão de André, acabaria sendo arrastada para baixo. O reflexo mental involuntário, irracional, proibiu-a de correr esse risco. Não conseguiria salvá-lo e ainda mataria a si mesma e à filha que trazia na barriga. O medo, o instinto materno e o egoísmo mais secreto – que nessas horas sussurram dentro de qualquer pessoa “antes ele do que você” – fizeram soar um alarme na cabeça de Elisa, trancando-lhe as reações, contendo o gesto em direção à mão que pedia socorro.

O olhar de André entendeu que não receberia ajuda, e sua mão caiu no ar. Todo o imenso corpo entrou em refluxo, tentando desesperadamente voltar para o outro lado da falha.

Assim como foi, voltou, como que por milagre. Encontrou no vazio a firmeza que a pedra e a esposa não lhe tinham dado. A mão deixada à própria sorte enfim se prendeu a uma outra ponta do paredão, bem junto ao rosto de Elisa.

E ela, profundamente aliviada, abriu caminho na pedra, dando um passo para trás.

[2008]