Jornal do Brasil | Vista do rio

JORNAL: do Brasil – Rio de Janeiro
DATA: 17 de abril de 2004.
SEÇÃO: Idéias
PÁGINA: 03

Olhar amoroso sobre o Rio

Romance mostra a cidade entre utopia e desilusão.

|| Flávio Carneiro | Escritor, professor de Literatura Brasileira da UERJ e autor de O Campeonato.


No início dos anos 80, Sérgio Sant’Anna e Silviano Santiago davam a dica: é preciso reescrever o moderno. N o romance Em liberdade, Silviano revisitava o projeto estético e ideológico da segunda geração modernista, por meio de um diário fictício de Graciliano Ramos. Enquanto isso, nos contos de O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro, Sérgio Sant’ Ana passava em revista a euforia utópica das vanguardas da década de 1960, na literatura, no teatro e na música.

Ao longo dos anos 90, grande parte dos novos ficcionistas brasileiros desprezou, ou não conhecia, o conselho dos mestres. Foram autores que apostaram, e alguns ainda apostam, em revivais de experimentalismos datados, acreditando ser possível chocar o leitor com técnicas requentadas de antigos transgressores.

Rodrigo Lacerda, ganhador do Jabuti em 1995 com a novela O mistério do leão rampante, foge à regra. Seu novo livro lança um olhar crítico sobre os anos 60, marcados sobretudo pelo processo de modernização do país. Enquanto narra a história de dois amigos, o autor vai desenhando uma imagem da cidade do Rio de Janeiro em dois momentos: o da euforia modernista, representada pela arquitetura futurista do edifício Estrela de Ipanema, cenário principal da primeira parte do livro, e o atual, quando o sonho, ou pelo menos aquele, revela enfim sua ambição desmedida e sua propensão ao fracasso.

Historiador em início de carreira, poeta frustrado, amante da cidade, Marco Aurélio, o narrador, é um jovem que ainda mantém acesa alguma esperança de futuro. “O fato é que ainda acredito”, diz ele, em frase lapidar. Confia desconfiando, mas confia – nas pessoas e nos seus sonhos, por mais disparatados que sejam.

É com esse olhar que ele vê o Rio, e nele o amigo de infância, Virgílio, genial e iconoclasta. O amigo é sua contra face, de que tenta se distanciar, mas sem a qual não consegue viver. A história dos dois é também a história da cidade, da natureza multipartida, da predisposição ao convívio, nem sempre pacífico, das diferenças.

A história é narrada de forma não-linear, com idas e vindas no tempo, mas a base do relato é uma espécie de flash-back do narrador, que assiste aos últimos dias do amigo num leito de hospital enquanto vai retomando, pela memória, a trama de uma amizade começada na infância e ligada diretamente ao Estrela de Ipanema. Mais tarde, o narrador vai entender que sua urgência de viver e de cumprir metas, sua necessidade de estar sempre à frente, de chegar sempre antes vinha diretamente do edifício e de tudo o que ele representava. E que essa “urgência vital”, como ele a define, vai deixar marcas, de formas antagônicas é e complementares,nele e em seu melhor amigo.

Vista do Rio pode ser lido também como um tipo de narrativa que se introduz timidamente em nossa produção literária nos anos 80, firmando-se na década seguinte e permanecendo em alguns de nossos melhores ficcionistas: o diálogo com a escrita ensaística. Sem perder o encanto da ficção, a história é permeada por considerações sobre a modernidade no Brasil, em especial no campo da arquitetura mas também noutras áreas, com breves comentários sobre os impasses do projeto moderno, sobre seu caráter utópico e seus desdobramentos no modo como a cidade vive hoje.

Nesse sentido, o mais interessante do livro talvez seja o fato de que a “vista” escolhida não é a do intelectual ou artista que, tendo participado da construção dessa modernidade, vivendo por dentro todo o processo, sobre ele se volta agora, com distanciamento. Se há um balanço do modernismo, aqui, ele é feito do ponto-de-vista de um jovem que, quando tudo aconteceu, mal sabia do que estava participando. Essa ingenuidade dá ao romance um frescor que os depoimentos conhecidos talvez não tenham, impregnados de um contato visceral com a estética, a política, os conflitos sociais da época. Como diz o narrador: “Meus pais viveram seus sonhos em 1968. Eu comecei a sonhar em 1969, quando nasci”.

Lançando mão de dados autobiográficos – a idade, a infância passada em Ipanema, a família de intelectuais e políticos atuantes, entre eles Carlos Lacerda, avô de Rodrigo – o autor talvez tenha elaborado, para si mesmo, um relato de sua própria experiência, ao longo de pouco mais de 30 anos. O mais importante, no entanto, foi que deixou para o leitor, além de um romance envolvente, um outro retrato: o da cidade do Rio de Janeiro, vista, com afeto, em algumas de suas fraturas, entre a utopia da modernidade e a realidade do presente.