Jornal do Brasil | O mistério do leão rampante
JORNAL: do Brasil – Rio de Janeiro
DATA: 30 de agosto de 1996.
PÁGINA: 02
Tese de mestrado bufona
Prêmio Jabuti, o estreante Rodrigo, neto de Carlos Lacerda, diz com humor que criou gênero literário. || Por Cristiane Costa
Contra Rodrigo Lacerda, não faltavam senões: jovem, estreante, tinha publicado um livro pequeno e aparentemente despretensioso, por uma editora que ninguém conhecia e, pior de tudo, eca um dos donos da tradicional Nova Aguilar, num país em que, reza a tradição literária, editores editam e escritores escrevem – cada macaco no seu galho. Mas se a indicação de O mistério do leão rampante como um dos melhores livros de 95 foi uma surpresa, maior ainda sua premiação com o Jabuti na categoria romance, ao lado de livros de autores consagrados, como Ivan Ângelo e Carlos Heitor Cony. “Não esperava a indicação para o Jabuti. Seria como o Olaria disputar as finais do campeonato brasileiro”, brinca Rodrigo, 28 anos.
Modéstia, já que o livro ganhou elogios de ninguém menos do que o crítico literário mais importante do país, João Antônio. “E uma peça autônoma, saborosa, guiada por um senso estético próprio, uma familiaridade espontânea (e trabalhada) com uma prosa de arte, um gosto apurado, lúdico mesmo, em que palavra, tema e personagens se movem harmoniosamente”, avaliou o crítico. Antes mesmo de receber o prêmio na Bienal do Livro, a nova estrela da literatura brasileira já tinha outro livro debaixo do braço: A dinâmica das larvas, uma história irônica sobre o mercado editorial. Um meio em que Rodrigo praticamente nasceu. Neto do governador Carlos Lacerda, filho de Sebastião e sobrinho de Carlos Augusto, dono da Nova Fronteira (por onde saiu o novo livro), ele ainda trabalhou durante dois anos na Edusp. Este ano, Rodrigo assumiu a administração financeira da Nova Aguilar, responsável pela publicação das obras completas dos maiores clássicos da literatura universal.
Mas A dinâmica das larvas não é um roman à clef, uma espécie de jogo onde a brincadeira é descobrir quem é a pessoa por trás do personagem, mas uma “comédia trágico farsesca”, como indica o subtítulo. “São meus fantasmas, não gente de carne e osso”, comenta o autor. Logo nas primeiras páginas, brilha a fina ironia. Um entediado editor universitário é procurado por um professor de zoologia interessado em publicar um livro sobre os insetos Neurópteros Mirmeleontídeos. Os personagens de A dinâmica das larvas são todos tirados do mundo dos livros: um escritor tardio que quer rever sua vida publicando um romance, um editor de ficção desencantado com a literatura, uma executiva que quer virar agente literária. Gente que descobre, na meia idade, que tomou um caminho errado em algum ponto da vida e quer voltar atrás.
Mesmo sem ter tido muito espaço na critica – a premiação do Leão rampante fez muita gente abrir o livro pela primeira vez – a obra já está na segunda edição. Para defini-la, Rodrigo apela para um novo gênero literário: “Trata-se de uma tese de mestrado bufa”. Na verdade, a novela de apenas 96 páginas foi concebida como um exercício na pós-graduação em história da USP, quando foi proposto aos alunos transformar suas monografias em ficção. Rodrigo, que estudava as mudanças na mentalidade dos homens do Renascimento, encontrou numa piada de 400 anos o ponto de partida do livro. Foi o único documento histórico verdadeiro que usou para escrever uma trama passada na Inglaterra do século 17, em que Shakespeare e o ator mais famoso da época, Burbage, armam uma grande confusão envolvendo uma nobre nada tímida, seu marido desastrado e uma família ávida por um herdeiro. Pode parecer muita ousadia para um autor iniciante usar logo Shakespeare como personagem mas, ao abordar o universo e principalmente o teatro elisabetano de forma iconoclasta, Rodrigo o faz com domínio narrativo, erudição e uma rara capacidade de fazer rir.
“Eu não achava que tivesse qualquer talento para a ficção”, diz. Mas, como o resultado do trabalho tivesse ficado além das expectativas, ele decidiu fazer uma edição do autor, de apenas 200 exemplares, desprezando todo o poderio editorial da família Lacerda. Encantado com o livro o editor Plínio Martins Filho propôs a criação de uma empresa quase artesanal, o Ateliê Editorial, hoje com oito títulos.
Depois da paixão repentina pela literatura, Rodrigo decidiu largar o mestrado. “Eu me divertia muito mais escrevendo. Durante um bom tempo trabalhei na tese e no livro em paralelo. Mas descobri que não me realizava no texto acadêmico. É entediante ter que fundamentar cada afirmação sua num alentado acervo de notas bibliográficas”, comenta. Mas a coleção de documentos da época, recolhidos ao longo do curso de história, permitiu que Rodrigo fizesse uma extensa pesquisa de linguagem. “Não queria reproduzir a sintaxe exata, mas criar a ilusão de um texto arcaico”, conta.