Jornal do Brasil | A dinâmica das larvas


JORNAL: do Brasil – Caderno de Idéias
DATA: 07 de setembro de 1996

A dinâmica das máscaras
Jogo de ciladas e embustes do mundo literário é revelado no segundo livro de autor premiado.
|| Por Juva Batella

Este pequeno e inusitado romance, que não é exatamente romance; é comédia, não apenas comédia, mas farsa, talvez comédia-farsa, ou farsesca; esta quase novela levemente realista e de gestos largos; esta peça enfim, mas não de teatro, podendo – se lhe chamar então peça em prosa; este romance, dizíamos, já nascido imune à estratificação em gêneros, conta, em quatro capítulos, a história de quatro personagens, quatro desejos e um punhado de insetos cientificamente observados em sua fase larval.

A dinâmica das larvas, de Rodrigo Lacerda, mesmo autor de O mistério do leão rompante, premiado com o Prêmio Jabuti de melhor romance em 1995, é também uma dinâmica das máscaras. Larva, aliás, nunca é demais dizer, vem do latim e pode significar “máscara”. O enredo é um tecido minado, e as armadilhas se vão armando e desarmando à medida que avançamos, capítulo a capítulo, neste jogo de ciladas e embustes.

A história começa no dia em que será anunciado o resultado do concurso de literatura promovido pela Casa do Livro. A verdadeira identidade do autor premiado esta muito bem guardada na ponta da língua de uma única mulher. O problema é que Dona Miriam, funcionária da Casa do Livro e principal organizadora do evento, não abrirá a boca por nada deste mundo, nem mesmo para beijar seu marido e tentar reativar as rotinas amorosas de um casamento que já vai longe.

O professor Carlos Vasconcelos, doutor em teoria literária, editor universitário e marido, tem um sonho secreto: fundar uma editora que só publique a nata, o supra sumo da chamada “baixa literatura”: coleções de faroeste, revistinhas picantes e espionagem americana de quinto escalão. Depois de trinta anos de Academia, Vasconcelos deixou de acreditar na arte como via de conhecimento para as coisas do mundo, está insatisfeito com seu emprego à frente da editora da universidade e quer autonomia para decidir o que deve e o que não deve publicar.

A tese “ Estrutura e dinâmica de uma população de larvas de Mymeleon uniformis, do zoólogo Abdias Lobato, é m exemplo do que Vasconcelos julga não dever publicar. O próprio professor Abdias, cientista obcecado, depois de quinze anos curvado sobre o modus vivendi das tais larvas, tornou-se, aos olhos de Vasconcelos, uma patologia ambulante, a representação viva de uma ciência morta — especializada, técnica e melancolicamente afastada da realidade cotidiana dos homens. Mas as larvas são, para o zoólogo, uma questão pessoal. Significam a funcionalidade morfológica levada às últimas conseqüências, exprimem a harmonia inabalável entre modo de vida e organização social, sendo, enfim, o símbolo da metamorfose sem dor e sem filosofia – um exemplo para a raça humana, esta errante, insatisfeita e desajustada espécie.

Para completar o quadro, há ainda o editor de literatura José Fonseca. Sua editora está a dever tubos aos banqueiros, seu contador já não sabe mais a quem pedir empréstimos e Fonseca, bon vivant incurável, só faz beber e dormir. Entre os editores Fonseca e Vasconcelos está o vencedor do concurso literário. Publicar o romance premiado significa, para os dois, dinheiro. Para Vasconcelos, a única maneira de fundar a editora de seus sonhos. Para Fonseca, a única maneira de não falir.

Em menos de duzentas páginas, Rodrigo Lacerda conta, e muito bem, esta história de arapucas. O texto é ágil, o narrador esbanja competência quando passa, num átimo, do discurso indireto para o indireto livre, o vocabulário arrebanha, sem desafinar, palavras raras e outras deliciosamente informais, os diálogos são engraçadíssimos, mas, como há sempre uma gramática ranzinza ( e um critico implicante ) no meio do caminho, o texto não é integralmente escorreito. Sob este aspecto, O Mistério do leão rampante é um trabalho bem mais artesanal.

A edição da Nova Fronteira é, acima de tudo, sofisticada. A capa é um primor, e a apresentação de Marcos Lucchesi é poesia, brilhante e luminosa, do começo ao fim. O único senão foca por conta do texto, anônimo, da contracapa, que inclui entre as qualidades “em geral contraditórias” da escrita de Rodrigo Lacerda a qualidade de ser ao mesmo tempo “engraçada e inteligente”. Ora, ser engraçado e, ao mesmo tempo, inteligente não é ser, nem em geral, contraditório (aliás, os respectivos opostos também podem, por sua vez, conviver, e o texto da contracapa é um exemplo vivo); ser engraçado e inteligente é, acima de tudo, ser o que esta Dinâmica das larvas verdadeiramente é artística do começo ao fim.