Jornal de Brasília | A Dinâmica das larvas
JORNAL: de Brasília – Caderno 2
DATA: 09 de setembro de 1996
Reviravoltas de uma tragi-farsa
Rodrigo Lacerda, que ganhou o Premio Jabuti 96 com O Mistério do Leão Rampante, lança a Dinâmica das Larvas.
|| Por Paulo Paniago
O primeiro livro de Rodrigo Lacerda ia ser publicado numa restrita edição de autor, em São Paulo. Chama-se O Mistério do Leão Rampante e, na verdade, foi o primeiro título da Ateliê Editorial. Resultado: ele ganhou o Prêmio Jabuti 96. Agora, Rodrigo Lacerda, que dirige com o pai e a irmã a editora Nova Aguilar, no Rio de Janeiro, está lançando A Mecânica das Larvas (Nova Fronteira), que tem como subtítulo Comédia Trágico-Farsesca, uma novela que distorce propositalmente a realidade do mercado editorial para diversão e gáudio dos leitores.
Lançado no Rio semana passada (e com lançamento previsto para quarta, na Livraria da Vila, em São Paulo), A Mecânica das Larvas tem todos os elementos da farsa: poucos personagens, ação concentrada, reviravoltas constantes. “Comecei exata-mente pelo começo, pelo capítulo da entrevista do editor universitário com o cientista”, conta Rodrigo Lacerda. “Não tinha a menor idéia de que o cientista ia voltar a aparecer ou de que a mulher do editor seria agente literária”.
Por trabalhar numa editora de literatura, e por já ter trabalhado numa editora universitária, Rodrigo se baseou na experiência própria para criar Carlos Andrade Vasconcelos, o editor universitário, e José Fonseca, o editor de literatura, ambos de meia idade e ambos buscando reviravoltas em suas carreiras. “Eu promovi uma revisão antecipada do meu futuro”, avalia Lacerda
Os outros dois personagens, Miriam uma executiva, e o escritor que recebe um prêmio, também são facetas Jekill e Hyde do autor, que é um executivo literário lidando com direitos autorais, e ganhou ele mesmo um prêmio literário. “Esse universo profissional tem um coeficiente trágico”, admite Rodrigo Lacerda. “E se eu tiver feito as escolhas erradas? É cada vez mais difícil voltar atrás nas escolhas. Aos 17, você pode corrigir urna decisão errada, mas aos 27, a escolha da profissão é a escolha de um mundo, que determina, entre outras coisas, as pessoas com quem você vai conviver”.
Partindo de um cenário realista. Rodrigo Lacerda sobrepôs a ele personagens caricatas, para ter como resultado uma contradição. No posfácio, endereçado a um amigo que não existe (“usei esse recurso para não ficar tão solene”), ele explica: “Sei que muitos consideram a farsa um gênero menor (…). Apenas gostaria de deixar registrado que não acredito na existência de gêneros maiores ou menores. A má tragédia é o que é, uma obra de arte mal-sucedida, e não menos fracassada por ser tragédia”.
A decisão de colocar esse posfácio foi tomada para não deixar margens á má interpretações. “Fiz o posfácio porque queria esclarecer certas coisas, para que não se confundisse, por exemplo, como uma obra à clef, diz o autor.
Na orelha de A Dinâmica das Larvas, Marco Lucchesi diz que Rodrigo Lacerda é um escritor “temperado pela leitura de La Fontaine”. Esse fato fez com que Lacerda hesitasse entre chamar o livro de Comédia Trágico-Farsesca, como afinal permaneceu na capa, ou Uma Fábula Pessimista, como está na ficha catalográfica. Enquanto duvidava, o livro foi enviado à Biblioteca Nacional e voltou de lã com a ficha pronta.
Rodrigo Lacerda já entregou ao editor paulista, da Ateliê, uma novela intitulada Confissões. “Não gosto dos títulos que escolho”, diz. “Hoje, chamaria O Mistério do Leão Rampante só de O Leão Rampante. e tenho medo do título .
Esse deve ser publicado no próximo ano, uma novela que começa em tom escatológico e vai para o gênero de aventura Lacerda tem três contos em andamento e espera ter outros tantos para constituir um livro. Além disso, menciona um romance, mas que está ainda apenas em projeto.
Elegância do estilo em primeiro plano
“Aqui Deus errou”, medita Carlos Andrade Vasconcelos, um editor universitário que recebe em sua sala um zoólogo no final do expediente e no início de A Dinâmica das Larvas. O cientista lhe traz os originais de uma pesquisa sobre as larvas, representante de um “ ideal de funcionalidade da natureza.”
Enquanto sonha em montar uma editora de apelo popular, Vasconcelos briga mentalmente com Deus e argumenta em voz alta com o cientista, elaborando uma recusa elegante. “ A falta de sentido da história e a incongruência de nossas rotinas individuais suo as melhores provas de que Deus não existe, (…) ou, melhor dizendo, existe sim, mas é de uma incompetência crônica e irrecuperável”, vocifera em seus pensamentos o editor.
Cada um dos capítulos do livro é centrado num personagem. O contraponto a Vasconcelos é Jose Fonseca, um editor literário à beira da falência. Se Vasconcelos sonha em montar sua própria editora. Fonseca arma um golpe para manter a sua em pé. A esposa de Vasconcelos, Miriam, é executiva da Casa do Livro, que organiza um importante prêmio literário. Ela começa a ser assediada tanto pelo marido, como por Fonseca, ambos vendo no ganhador do prêmio a perspectiva de redenção de suas vidas.
Contado assim, parece simples, mas o livro é pleno de reviravoltas, como cabe a uma farsa. O que sobressai no texto de Lacerda, entretanto, não é o domínio técnico, mas a elegância do estilo. Impossível permanecer sério com as atitudes do editor. E, aos poucos, o leitor é levado do riso a um tipo de angustia com as trajetórias das personagens.
Em O Mistério do Leão Rampante, Rodrigo Lacerda mostrava a que veio. A partir de uma pequena anedota envolvendo o nome de Shakespeare, ele fazia um mergulho na mudança de perspectiva do indivíduo provocada no teatro renascentista. Não se trata de um jovem promissor, mas de um escritor já pronto, e um dos bons.