Jornal da USP | O mistério do leão rampante
JORNAL: da USP
DATA: 22 a 25 de maio de 1995
SEÇÃO: Livros
PÁGINA: 14
A história do leão, do bardo e da moça
Em o Mistério do Leão Rampante, Rodrigo Lacerda carnavaliza a Inglaterra da época de Elizabeth I e brinca com Shakespeare, criando uma novela divertida e inteligente.
No começo dos anos 80, o mercado editorial brasileiro foi assolado por uma onda literária que acabou criando vigorosas raízes e durou até princípios desta década: a chamada “literatura jovem”, cujo expoente máximo foi o best seller Feliz Ano Velho, de Marcelo Rubens Paiva. Além deste, obviamente, surgiram outros na esteira, menos bombásticos e bem mais egocêntricos, com seus autores dando um tom “memorialista” aos seus 20 e poucos anos e contando experiências e desilusões amorosas e intermináveis passeios à volta de seus quartos. A ode ao umbigo era a tônica e, de uma certa forma, ainda faz eco em um ou outro livro publicado. Por isso, é sempre uma grata surpresa assistir à estréia de um autor novo – nos dois sentidos que foge a esta regra. É exatamente este o caso de Rodrigo Lacerda, que se prepara para lançar o seu O Mistério do Leão Rampante , editado pela Ateliê Editorial também ela uma estreante no mercado.
Aos 26 anos, Lacerda deixou de lado o espelho narcísico e preferiu o retrovisor. Ao invés de falar de distante século XVII, o assunto para sua novela. E que assunto, A história se passa na Inglaterra elizabetana e tem como um dos personagens ninguém menos do que o bardo de Stratford Upon – Avon, William Shakespeare. Na verdade, é o autor de Romeu e Julieta e Rei Lear O leitmotiv da novela. Só que de uma forma bem pouco edificante.
Guilherme, o Conquistador
A história, uma ficção muito bem amarrada, se baseia em um fato real, na única anedota em que Shakespeare é citado nominalmente. Durante uma das últimas apresentações da peça Heririque V, no mítico Globe Theatre, de Londres, uma espectadora se empolgou além da conta. Mary Margarelon – este é o nome da moça empolgada – esperou o final do espetáculo e foi até os camarins visitar o ator Richard Burbage, que interpretava o papel-título. Mary, então, convidou Burbage para um encontro, digamos, “íntimo”. Só fazia questão de uma coisa: que o ator usasse a mesma roupa da peça, ou seja, fosse na pele do próprio Henrique.
Com o que Mary não contava era que Shakespeare estivesse ouvindo o convite. Esperto, o bardo se vestiu de monarca inglês aquele que liderou as tropas na vitoriosa batalha de Agincourt, durante a Guerra dos Cem Anos contra os franceses – e chegou antes à casa de Mary. Horas depois, chegou Burbage. Da porta, o ator pôde ouvir a brincadeira cáustica de Shakespeare: “Diga a ele que Guilherme, o Conquistador, chegou antes”, em um trocadilho pouco perceptível em português, brincando com seu próprio nome (William é Guilherme, em inglês) e com o de outro soberano das Ilhas, o normando William, the Conqueror – ou Guilherme, o Conquistador.
Leão e flor-de-lis
É a partir desta anedota que Rodrigo Lacerda desfia uma história divertida, contada na primeira pessoa por um tal de Valfredo Margarelon, primo e irmão de criação da ludibriada Mary. Em seu “relato”, Valfredo tenta explicar as razões pelas quais Mary teria se entregado a um fetiche coroado. Jovem, mal casada com o insosso Francisco du Barry, nobre francês menos atraente do que um crêpe susette, e ainda por cima atormentada por um sonho recorrente com um leão rampante e campos floridos que não a deixa em paz, Mary não consegue, nas palavras de seu primo-irmão, “concretizar seu matrimônio” e, por isso mesmo, não dá um herdeiro para a família, o que inauguraria a 473 geração do clã Margarelon.
Desesperada, a família de Mary tenta de tudo para curar a moça, desde intragáveis beberagens até bruxos de toda espécie. Mas nada funciona, para desespero da mãe da moça e desalento do esquecido Francisco Du Barry. A situação só começa a se desanuviar com a chegada de uma feiticeira conhecida como “Mãe de Nottinghan”. É ela, através de rezas e mandingas, quem detecta o que poderia estar atormentando a moça – um brasão com as insígnias de um leão rampante e da flor-de-lis, armas de Henrique V, escondido num quadro no quarto de Mary. A partir daí, a história é outra. Mas a diversão continua a mesma.
“Humores cachoquímicos”
É certo que O Mistério do Leão Rampante não pode – e não deve – ser considerado um livro erudito ou uma obra-prima daquelas que levam seu autor a ganhar toneladas de prêmios e a disputar uma vaga na Academia. Não é nem esse o interesse de seu autor. Rodrigo Lacerda -cujo sobrenome pode remeter diretamente ao seu avô, o jornalista e político Carlos Lacerda -, formado em História pela USP e editor-assistente da Edusp, na verdade fez uma grande brincadeira com um de seus autores preferidos, justamente Shakespeare. “O livro é a minha tese de mestrado bufa”, brinca ele, que desistiu da pós-graduação e enveredou pela literatura. O resultado foi um livro saboroso, divertido, que se lê de uma sentada só. Mas não é apenas isso.
Apesar de, como já foi dito, não se poder considerar o livro de Lacerda uma peça “erudita”, ele acaba tendo um viés de erudição mas que, ao contrário de tornar o trabalho desequilibrado, o faz ainda mais bem temperado. Explica-se. Como bom historiador, Lacerda não só procurou o seu tema no passado como, também, a forma e as palavras para conta sua história. Na forma, ele remete a romances típicos da época, em uma mistura ao mesmo tempo pretensamente séria e vivamente irônica. Tristan Shandy, de Lawrence Sterne, publicado no século XVIII é um dos maiores exemplos desse estilo.
Já com as palavras, Lacerda foi ainda mais fundo. “A pesquisa vocabular é uma das coisas que mais me dá prazer”, conta o autor. ” Não me preocupo em fazer personagens densos, gosto mesmo é do manejo da linguagem. Para mim, a forma é mais importante do que o conteúdo”, garante.
O resultado desta pesquisa pode ser atestado nas páginas de O Mistério do Leão Rampante. Utilizando palavras pouco usuais em seu texto, Lacerda quase que recria um português barroco antenado, por assim dizer, à época que retratou no livro. Em sua pesquisa histórico-vocabular, autor pinçou até uma pérola rococó: a palavra “cachoquímico’ utilizada na frase “as bebidas bizarras (…) iriam livrá-la dos humores cachoquímicos e putredinosos”. Apenas um detalhe:: não perguntem a Lacerda o que esta palavra quer dizer. Nem ele, nem João Ubaldo Ribeiro – que assina um simpático prefácio ao livro – e muito menos o Aurélio têm a menor idéia de seu significado. “Sei que ela se adequa bem à frase porque estava escrita de uma forma semelhante em um documento do século XVII, onde a encontrei”, diz. Na verdade, a exdrúxula (sic) palavra é mais uma brincadeira entre as várias que Lacerda faz em seu livro. “A História não é intocável. Temos todo o direito de fazer uma carnavalização de qualquer período histórico. Foi exatamente o que fiz com a época de Shakespeare e de Elizabeth I, sem me preocupar em ser politicamente correto”, afirma. Lacerda se preocupou, isso sim, em criar um humor fino e uma história bem elaborada. Nisso, a correção foi perfeita. O leão rampante de Rodrigo Lacerda está solto.