Jornal da USP | Fábulas para o ano 2000


JORNAL: da USP – São Paulo
DATA: 04 a 10 de maio de 1998
PÁGINA: 20

Histórias sob a magia da adolescência
Gustavo Martins, 15 anos e Rodrigo Lacerda, 29, encontram-se para resgatar a arte das fábulas entre o público infanto-juvenil.O livro está sendo lançado pela Ateliê Editorial.
|| Por Leia Kiyomura Moreno

São dois escritores. Duas histórias. Dois tempos… Gustavo Bolognani Martins tem 15 anos. Rodrigo Lacerda completa 29. Gustavo ouve Nirvana e sonha em ser um grande músico. Rodrigo embala a filha Clara entre as sonatas de Mozart. Embora tão diferentes, estes dois têm em comum a intimidade com a palavras. E é dessa intimidade que está nascendo Fábulas para ano 2000. Um livro da Atelie Editorial, onde Gustavo e Rodrigo dividem o encanto de contar contos. Tal parceria flui ainda, mais luminosa nas ilustrações de Paulo Batista. Aliando arte e magia, ele consegue dar cores e formas aos personagens.

Fábulas para o ano 2000 tem endereço certo: o público infanto-juvenil. Mas, como argumenta Gustavo, até chegar lá, o livro percorre algumas trilhas incertamente divertidas. “Fábulas são fábulas. Todo mundo gosta. A intenção destas é que elas sejam lidas pelos adolescentes.” Mas, pensando na maioria da gente da sua idade, que espera uma energia E.T. para folhear um livro, o escritor aposta: “É bem possível encontrar nossos leitores entre o pessoal mais maduro, que busca entre os infanto-juvenis a capacidade de sonhar, de fantasiar”.

No fôlego de um futuro famoso roqueiro, o escritor Gustavo consegue encontrar o tom certo para suas histórias. São três: “Os três porquinhos sem-terra”, “Fábula da construção civil” e “Inconsciência”. Neste ritmo, entra o talento de Rodrigo, que compôs outras três fábulas: “A rã e o metaleiro”, “Lendo os outros” e “A ampulheta triste”. É como se os dois estivessem escrevendo a mesma sinfonia na mesma pauta. Gustavo faz o solo na clave de sol e Rodrigo acompanha na clave de fá. Ou seja, apesar dos estilos tão diversos – Gustavo transborda em idéias e frases, enquanto Rodrigo reflete a harmonia das imagens e palavras – o resultado é afinado.

Entre princesas e sem-terra

… Mas o metaleiro continuou triste com o seu fracasso, sem se dar conta da transformação que havia sofrido. Ele veio até junto da rã, sentou-se no chão e começou a chorar. Foi nessa hora que a rã, obedecendo a um impulso incontrolável, deu um salto repentino e tascou-lhe um beijo afetuoso no rosto. Uma luz muito forte surgiu do nada, fazendo a rã desaparecer em pleno ar por alguns instantes. O metaleiro ficou muito surpreso com o beijo e de olhos arregalados na direção da luz. Surpresa ainda maior foi quando, de dentro daquele clarão, surgiu uma linda princesa…

Do encanto de sua filha Clara, de três anos, nasceu a vontade de escrever um livro só para crianças. Surgiram, então, o romance entre a rã e o metaleiro, a história do presidente de uma grande empresa que decide usar chipes de computador para multiplicar sua inteligência. E o drama de uma ampulheta que sentia inveja dos relógios modernos e muita saudade da época em que o tempo era medido no deslizar de suas areias rosa.

Apesar dessa disposição de mergulhar no mundo infantil, Rodrigo admite que parou no meio do caminho. “Eu não consegui voltar à infância e captar a linguagem das crianças. O máximo que eu consegui foi chegar até o registro infanto-juvenil.”

Foi aí que Rodrigo resolveu, então, convidar Gustavo para escrever um livro juntos. E aproveitar para reviver a sua adolescência. Gustavo, que está sempre disposto às novas oportunidades, gostou da idéia e mandou ver suas histórias. A primeira delas é a dos três parquinhos sem-terra.

- Vamos lá, camaradas, um, dois, três…
- (Coral) O porco unido, jamais será vencido! O porco, unido, jamais será vencido! Nada tema, camarada, caminhai pra liberdade…
A floresta estremecia e abria alas, pasmada, para a passeata e para as retumbantes palmas (?!?) dos porcos…
Não era o que se podia chamar de um grande partido (três fundadores ativistas manifestantes), mas até que fazia lá o seu barulho. Não mais alto do que as vaias e os pedidos de silêncio: “Cala a boca, que são seis da manhã!”, mas fazia lá o seu barulho.

Seguindo a onda

No decorrer do livro, surgiram as dúvidas. Rodrigo questionou: “Será que as minhas histórias não vão ficar muito sérias diante do humor e espontaneidade de Gustavo?”. Por outro lado, Gustavo imaginou: “Será que eu posso continuar escrevendo do meu jeito mesmo? Ou tenho que mudar: um pouco a linguagem?”.

Não tinha como não dar certo. O humor de um e a reflexão do outro acabaram se embaralhando. Rodrigo revisitou sua adolescência e se achou sério demais. “Eu era um garoto introvertido. Meus amigos costumavam dizer que já nasci com 40 anos. Pelo visto, acho que agora estou involuindo.” Agora, Gustavo, do alto dos seus adolescentes também passou a medir a força das palavras. Tanto assim, que a terceira fábula, “Inconsciência”, foi feita depois de ler e reler as histórias de Rodrigo. E tem um tom diferente dos Powers Rangers presentes na primeira. A moral desta última é a seguinte: “Somos controlados mais do que imaginamos. Podemos seguir a onda que quisermos, desde que ela não nos afaste da nossa vontade.”

Foi assim que o livro chegou ao fim. Mas, é claro, que teve um terceiro adolescente na história para equilibrar sonatas e rock and roll.

Terceiro e quarto personagens

Paulo Batista, 32 anos de idade e 14 de cabeça, surgiu para alinhavar as fábulas dos dois escritores com seus desenhos descontraídos e cheios de vida. Este é daqueles que, como um bom garoto rebelde, faz do mundo a sua escola. Freqüentou as aulas de arte da Faap, mas não teve paciência de fazer nenhuma faculdade. Na dúvida, saiu em busca do que sempre quis: desenhar e desenhar.

Paulo é historiador em quadrinhos, cartunista, designer gráfico e colaborador das revistas Chiclete com Banana e Animal. Divide com Júlia, sua filha de três anos, alegria do Castelo Ratimbum e a delicadeza das cantigas de roda. “Eu esqueci de crescer”, justifica o artista. “Mas acho que valeu a pena. Foi assim que aprendi a gostar tanto de Mozart como de Rolling Stones, tanto de Beethoven como de Nirvana.”

Fábulas para o ano 2000 é o sexto livro de Gustavo. Começou sua carreira de escritor aos oito anos de idade, lançando Gustavo e Marina pela editora Ars Poética. Foi citado no Guiness de 1993 como o autor mais jovem do Brasil. Publicou ainda Uma estranha pessoa, Melhoramentos; Um conto nada científico, Ars Poética; A ilha do tesouro, Brasiliense; e A arca de Noésio, Ateliê Editorial.

Rodrigo também vem se destacando no mundo literário. Seu primeiro livro, O Mistério do Leão Rampante, Ateliê Editorial, conquistou os Prêmios Jabuti e Certas Palavras como autor-revelação. E o segundo, Dinâmica das Larvas, Nova Fronteira, também tem sido elogiado pela crítica.

Escrever, inventar e reinventar histórias já faz parte do cotidiano tanto de um como do outro. Só que Rodrigo tem a intenção clara de continuar escrevendo. Enquanto Gustavo é perseguido pelos livros quase sem querer. “As idéias parece que já nascem junto com as páginas”, diz. Na reta do adolescente, tem um quarto personagem igualmente criativo e sonhador. Seu irmão Tomás, um ano mais velho e também autor de projetos gráficos e de capas de livros. Apesar da dedicação à literatura, tudo o que estes dois mais desejam é ser roqueiros. De arrepiar estádios, felizes e ricos.