Jornal da Tarde | Tripé


JORNAL: da Tarde – São Paulo
SEÇÃO: Caderno de Sábado
PÁGINA: 04 d

Ao encontro do subjetivo e do prosaico

Em Tripé, Rodrigo Lacerda pega a vereda das histórias curtas do tempo presente, explorando a pesquisa estética e as nuanças do ser humano.
|| Por Marília Librandi Rocha

Rodrigo Lacerda estreou na literatura aos 26 anos com O Mistério do Leão Rampante (Ateliê Editorial,1995), que recebeu os prêmios Certas Palavras e Jabuti de Melhor Romance, assinalando a acertada aposta de uma linha editorial voltada para novos ficcionistas e poetas. Agora, a mesma editora lança seu novo livro, Tripé, numa bela edição, com ilustrações de Noeli Pomeranz e projeto gráfico de Ricardo Assis.

O título explicita união de três gêneros em prosa: crônicas, roteiros e contos, e também indica os níveis de consciência que regem a obra: “A consciência dos homens é sustentada por um tripé. O primeiro pé traz a observação da realidade cotidiana, pura e às vezes até prosaica. O segundo é onde a subjetividade de cada um se encontra com o mundo real, distorcendo-o fatalmente. O terceiro é exclusivo dos sonhos e das fantasias, ou dos pesadelos.”

Podemos associar esses três níveis aos gêneros em questão: nas crônicas, a observação prosaica do cotidiano; nos roteiros, o desencontro entre o desejo subjetivo dos protagonistas e o mundo real; nos contos, a narração em primeira pessoa de um personagem que é vítima e algoz de suas fantasias e pesadelos. A psicanálise se encontra nos textos de forma oblíqua, presente na fala das personagens e na epígrafe que abre o livro, na qual um analisando entra e sai do consultório pronunciando uma única fala: “Mil palavras”, indicando que o que se tem a dizer deverá ser buscado na obra literária.

O livro inaugura nova fase do autor, que começou como romancista e agora se exercita nos gêneros curtos com igual domínio, confirmando a sua verve de contador de histórias. Estas se ligam ao tempo presente, e não mais ao passado histórico, fonte de suas duas novelas anteriores, e a linguagem, antes barroquizante, cede lugar ao estilo coloquial.

Na primeira crônica, “Hierarquias”, o narrador lembra um procedimento habitual de sua infância: o de hierarquizar suas preferências: “Tom e Jerry ou Pernalonga?”, assim sucessivamente, numa espécie de “isso ou aquilo”, árduo exercício de escolha. Interessante notar que na segunda crônica, “Estante Nova”, também está em jogo uma hierarquia, uma organização do caos das possibilidades, num arranjo que acaba correspondendo a um arranjo interno do narrador, que deixa de errar “por entre pilhas esquizofrênicas”, ao arrumar a estante. “Arranjar uma biblioteca, ordená-la – disse Jorge Luís Borges – é exercer, de um modo modesto, a técnica literária.” De certa forma, a escrita de Rodrigo Lacerda em Tripé parece mesmo ter nascido de um re-arranjo, de uma nova disposição do autor. Caberá ao leitor decidir qual a sua hierarquia, escolhendo onde recai sua preferência: nas crônicas, roteiros ou contos?

A terceira crônica, “Clarividências”, reúne frases espirituosas inspiradas em Clara, filha do autor. Para cada diálogo foi dado um título que cria um intercâmbio entre os questionamentos do adulto e a fala da criança que os ilumina. Os ditos infantis são reproduzidos, incluindo os “erros” valorizados como pesquisa estilística (ex: “Agoia vô bigá cum vochê. Tá?”, em “Diplomacia”). Aqui, um reparo: à parte alguns achados, a reprodução do linguajar infantil distancia o leitor, pois a linguagem colada à da criança contribui na leitura para aquela sensação de superioridade que o adulto experimenta quando olha os menores e os percebe como engraçadinhos, divertidos, mas pouco sérios. Como contraponto, lembramos Guimarães Rosa que, em “A menina de lá”, nos apresenta Nhinhinha, a criança que dizia coisas incompreensíveis para o adulto. Nesse caso, o escritor incorporou o pensamento e os procedimentos da fala infantil, radicalizando-os. Ou seja, se a criança troca as letras, o escritor acentuou esse traço para beirar a suspensão do sentido “Ele te xurogou?” A equação então se inverte: caberá ao adulto se curvar frente à sua ignorância diante de uma sabedoria infantil que ele perdeu irremediavelmente.

Nos roteiros e contos entramos em um outro patamar de consciência, com uma narração mais densa, que cria tensão e expectativa no leitor e um grau de estranheza e ambigüidade. Os dois roteiros, “Penha e Wandir” e “Comida” se centram em situações amorosas que não se concretizam, pois tem a morte como elemento perturbador. No primeiro, ambientado no Rio de Janeiro, Penha é a telefonista que impõe ao parceiro um desafio: eles só poderiam se encontrar após um ano de conversas pelo telefone. O roteiro passa de uma cena a outra, mostrando os antecedentes do encontro e o modo como ele se efetiva de forma inesperada e surpreendente.

O tema subterrâneo do segundo roteiro, “Comida”, é a difícil digestão do luto, da perda e da morte traumáticas. O personagem principal é Luciano, um viúvo de 45 anos, perdeu a mulher e a filha num acidente de automóvel. Trata-se “uma figura muito diferente”; ” neurótico?”, que agrada à dona de uma delicatessen decidida a conquistá-lo. A comida que Luciano prepara cerra um segredo, como o personagem também encerra um, de forma que o conto todo exala um odor de mistério. Ao final, o texto não fornece explicações causais, deixa o leitor hesitar entre uma explicação natural, racional, e uma sobrenatural ou inconsciente, numa hesitação própria do gênero fantástico.

A atmosfera inquietante continua nos três contos seguintes: ‘ Ladeira”, “Lúcia” e “Hospital”, que trazem em primeiro plano a violência externa filtrada por uma consciência atormentada, no tênue limite entre a sanidade e a loucura. Os contos têm o mesmo narrador e protagonista, podendo juntos compor uma quase novela. Nesses contos também a morte ronda. Em “Ladeira”, é o violento assassinato dos pais e dos irmãos, que destina o narrador, então com 12 anos, a uma trajetória de vida solitária e difícil; em ‘ Lúcia”, o vemos, aos 40 anos, às voltas com a música que tenta extrai seu violoncelo até encontrar a prostituta Lúcia, “mártir de subúrbio que depois é encontrada morta: “Hospital” , o protagonista, no fim da vida, se encontra amarrado a um cama de um hospital psiquiátrico recusando-se a falar com o Dr., e recebendo secretamente as carícias eróticas de uma enfermeira. No interstício, a suspeita de ter sido ele o assassino, e de termos lido e simpatizado com um personagem que pode um psicótico, mas é também um narrador extremamente lúcido.

|| Marilía Librandi Rocha é mestre e doutoranda em Teoria Literária (USP)