Jornal da Tarde | O mistério do leão rampante

Um sedutor na arte de narrar  || por João Antônio
Jornal da Tarde, Variedades, 24/06/95

Há livros que não enganam. Nem sobre si mesmos, nem sobre o autor. Francos, não ameaçam ser ou estar; são e estão. Livro e autor, pela força da marca dessa autenticidade, perfazem uma só personalidade. Além de seus ares, logo no início, de obra acabada. O Mistério do Leão Rampante, de Rodrigo Lacerda, carrega dentro de si um escritor de um frescor jovem e de “irremediável” vocação. Rodrigo Lacerda, estreante, não estreante, tanto faz. E sua idade não interessa. Ele chega marcado, já escritor adonado de seu instrumento.

O artista pouca importância tem; importância e significado tem o que ele cria, “… já que não existe nada de novo para ser dito. Shakespeare, Homero, Balzac, todos escreveram acerca das mesmas coisas e, se eles tivessem vivido mil ou dois mil anos, os editores não teriam, desde então, necessidade de ninguém mais” – disparou, rente, William Faulkner.

Claramente o autor é conhecedor, admirador deste santo padroeiro universal de muita gente há quinhentos anos, Shakespeare. Mas a sua arte, original, criou dentro do aparente limite de uma anedota da Inglaterra do século xvii, no final do reinado de Elizabeth i, uma senhora novela. No bojo dessa anedota “desimportante”, a única em que Shakespeare é citado nominalmente, Rodrigo Lacerda opera e acaba realizando um texto pessoal e saboroso, desenvolvido com um talento de quem é “inarredável” escritor, narrador nato, dono de um bom-humor permanente e de um traço de picardia, somado a um gosto aceso, lúdico pelo ato de escrever.

Mas um talento ajuizado, também. Entre outras coisas, um amor, um respeito pela linguagem levada pelo Alfredo Margarelon, narrador imaginário desta novela que é uma “declaração de 8 de novembro de 1602, na qual o filho adotivo do Conde de Shropshire, em nome de seu pai adotivo, de sua família e de todos os homens de bem, declara sua prima, Maria Margarelon, injustamente caluniada por três elementos nocivos à ordem e aos bons costumes do reino inglês”.

Partindo do absoluto particular ou do aparentemente sem grandeza, O Mistério do Leão Rampante nos enreda num mundo fascinante e de dilemas extremos que foi o Renascimento inglês e que marca o papel-limite, difícil e transformador de Shakespeare, consagrado como maior figura literária da língua inglesa.

O Mistério do Leão Rampante não fica, no entanto, numa “homenagem” de um jovem e caloroso admirador shakespeariano, nascido no Brasil, quinhentos anos depois… É uma peça autônoma, saborosa, guiada por um senso estético próprio, uma familiaridade espontânea (e trabalhada) com uma prosa de arte, um gosto apurado, lúdico mesmo, em que palavra, tema, personagens se movem harmoniosamente.

Não interessa a idade, repito, de Rodrigo Lacerda. A atmosfera geral do livro, sim. Tem frescor, uma juventude porejante, um encantamento pela vida e, em principal, um “humanismo” pelos personagens, sejam damas autoritárias, feiticeiros falsos, pilantras, mandriões.

Rampante, em heráldica, é o quadrúpede representado na figura que se levanta sobre as patas traseiras, com a cabeça voltada para o lado direito do escudo. Já O Mistério do Leão Rampante é – também – um apólogo sobre a liberdade de amar e sobre a fidelidade a esse ato de compromisso com a felicidade. Como na longa fala do personagem “iniciador” para a ex-menina, agora repentina, verticalmente sensual mulher, Maria, trazendo uma nova ordem – libertária – um preceito novo de cavalheirismo.

“Seja lá o que te impediu de amar, acabou, e acabou não graças a Burbage ou a mim, ou mesmo graças ao brasão e ao Rei. Acabou porque tu quiseste que acabasse, porque lutaste para reconquistar a tua felicidade. A vida é um palco, minha cara, e não adianta o autor Supremo determinar as falas, se os atores não subirem nele e as pronunciarem em alto e bom som, com convicção e verossimilhança.

Cristaliza teus objetivos em tua mente e luta por eles. Aproveita as oportunidades. Vive e sê feliz! Adeus!” Clara é a mensagem. A juventude tem o direito e mesmo a obrigação de ser feliz. Isto não é nenhuma pérola do pensamento e fica acima das ideologias correntes hoje, na Antigüidade ou em qualquer tempo. É a lei da vida. De assim, mais do que um escritor legítimo, Rodrigo Lacerda se revela um sedutor na arte de narrar. E, dentro do clima e do universo de seu livro, Deus, o Demônio e as forças auxiliares o protejam.

Porque é bem chegado.