Jornal da Tarde | A dinâmica das larvas


JORNAL: da Tarde – Caderno de Sábado
DATA: 31 de outubro de 1996

As letras e a moralidade
Em seu segundo livro, Rodrigo Lacerda enfoca literariamente a meia-idade.
|| Por Ana Maria Ciccacio

Rodrigo Lacerda é um escritor de coragem. Quem, hoje em dia, enfrenta de peito aberto a crise literária deste fim de século, seus livros incluídos, e ousa dizer que, “afora Homero, Shakespeare e Dostoievski”, 35 outros (autores) não passam de repetidores pouco aspirados do que já foi dito? Evidentemente, Lacerda não diz isso em primeira pessoa, está falando sobre o que pensa um de seus personagens no recém-lançado A Dinâmica das Larvas, seu segundo livro. Mas não deixa .e se auto-revelar.

Segundo o editor José Fonseca — o tal personagem de A Dinâmica das Larvas — a literatura, de um ano passado pra cá, parece um repositório de velhos assuntos e personagens, velhos enredos e metáforas, que ora descambam num humor já gasto, ora escorregam numa dramaticidade patética.

Correr em raia diferenciada, oferecendo algo criativo ao leitor, não é tarefa das mais confortáveis. Requer inspiração, ousadia para resgatar a tradicional e pacificadora moral da história”. Sem ela, diga-se de passagem, muitos the end, de hoje em dia, soam como pura frustração, porque, esvaziados de sentido ou significado, denotam covardia.

Em seu primeiro livro, O Mistério do Leão Rampante, que valeu ao escritor o Prêmio Jabuti de 1995, a história rocambolesca e meio surrealista, ao estilo das fantásticas e humoradas narrativas criadas pelo saudoso ítalo Calvino, terminava numa deliciosa apologia do próprio Shakespeare a essa prodigiosa qualidade humana, que é a do livre-arbítrio, combinado com determinação.

Se bem que o segundo livro não demonstre a mesma inventividade do primeiro, o uso da “moral da história” persiste. Aliás, persiste de uma forma ainda mais criativa. Rodrigo se vale de um posfácio, em primeira pessoa, para expressá-la. Interessante, também, é que, no romance em si – uma farsa, como ele o define —, todos os personagens beiram a meia-idade, a da reflexão, quando habitualmente se faz um balanço dos feitos e não feitos, caindo-se invariavelmente em crise, tendo ou não havido sucesso material e espiritual.

A história se passa em seara intimamente conhecida do escritor. Forjando dois editores, urna executiva, um escritor e um prêmio literário, Rodrigo Lacerda conta sobre um prosaico adultério no meio editorial. Um recurso para comentar como anda o mercado editorial no Brasil de hoje e, também, emitir opiniões acerca da literatura ultimamente produzida.

Neto de Carlos Lacerda, filho do editor Sebastião Lacerda, um dos donos da editora Nova Fronteira, e atual editor da Nova Aguilar, Rodrigo se move com naturalidade num meio que lhe é familiar. Mas afirma, com todas as letras, que A Dinâmica das Larvas não é um romance à clef, no qual veladamente utiliza pessoas reais como personagens.

O comodismo de ambientar a história no mercado editorial — ele admite que poderia ser no musical ou no das artes plásticas — não seria um ponto de chegada, mas de partida. “O sentido desta expressão (A Dinâmica das Larvas) é literal, estou falando é das larvas mesmo , escreve o autor, “É a moral da fábula que ele expressa… A dinâmica à qual me refiro é a destes seres que conseguem mudar de vida sem sofrer, destes que, ao contrário do> humanos, caricaturas desajustadas num pano de fundo realista, são animais capazes de se adaptar perfeitamente ao habitat e aos comandos da natureza, por mais exigente que seja esta adaptação.”

Texto impecável, narrativa bem articulada, o mais curioso só desse livro é ele ter sido escrito por um jovem de apenas 27 anos. Em geral nessa época da vida não está preocupado com a crise da meia-idade, que, aliás, parece estar anos-luz do presente em que se vive. Solidário, é como se Rodrigo sé preocupasse não somente com o futuro de si próprio, mas com o presente de companheiros que, em plena crise, convivem com ele. Questionam desde os ideais que ficaram para trás até as opções feitas ao longo do caminho. Moral da história: o estilo da maturidade, como escreveu certa vez Oito Maria Carpeaux, e o encontramos no livro de Rodrigo, independe da idade cronológica, do número de anos vividos, mas se acha diretamente ligado a uma aguda sensibilidade para com os problemas que afetam o outro — no caso, uma geração. Tal abstração, convém enfatizar, é típica dos grandes romancistas. Tudo indica que João Ubaldo Ribeiro estava certo, quando aceitou fazer a apresentação do livro de estréia de Rodrigo Lacerda: estamos diante de um escritor de talento, incluindo aí capacidade crítica. humor, solidariedade e coragem de expressar o que pensa.