Jorge Amado em quatro lições
Eu não conheci Jorge Amado. Para a inteligência vigente, hegemônica entre escritores da minha geração, isso não deveria ser uma grande perda. Segundo os arautos da ficção contemporânea, a prosa de Jorge Amado é excessivamente simplória, sentimentalista, com personagens unifacetados, para não dizer caricatos. Seus romances têm uma construção linear, pouco afeita para jogos estruturais mais sofisticados que hoje são um critério fundamental para um livro ser bem visto e considerado esteticamente. Além das reservas artísticas com que se vê seus romances, a inteligência não lhe perdoou as manifestações públicas de admiração e amizade ao então presidente José Sarney. Logo ele, um homem historicamente de esquerda, ao final da vida se ligar a um conservador e a um literato de “segundo time”. Apesar de tudo isso, por uma série de episódios da minha vida profissional, e por uma série de histórias que ouvi, sempre tive por ele a maior admiração.
De início, meu único contato com sua obra tinha sido por meio das novelas de televisão e do filme Dona Flor e seus Dois Maridos. Mas eu era criança, e não vi nem umas nem outras com muita atenção. Então, na adolescência, assisti a uma montagem de uma peça baseada em seu romance “Capitães de Areia”. Fiquei impressionadíssimo com a quantidade de sexo contida no espetáculo, que me agradou, e muito, naquela fase de libido desenfreada. Fui ler o romance esperando uma repetição da eletricidade sexual que vira no palco, mas não cheguei ao final. Ainda não estava na hora de eu entender Jorge Amado por ele mesmo.
A primeira vez que tive contato mais direto com sua obra foi justamente em meu primeiro trabalho dentro de uma editora. Eu tinha dezoito anos, e comecei a trabalhar como revisor na Editora Nova Aguilar. Na época, estávamos preparando uma edição com alguns de seus livros mais famosos, que se chamava “Quatro mulheres, Quatro Romances”. Gabriela, Tieta, Tereza Batista e Dona Flor. As técnicas da editoração eletrônica ainda não estavam muito difundidas no Brasil, ou pelo menos não haviam sido adotadas na Nova Aguilar, que continuava trabalhando no sistema de fotocomposição, arte-final, etc. Quem já trabalhou nisso sabe a dificuldade. Quando você pegava um erro numa linha, essa linha precisava ser recomposta inteira, não bastava ir na tela do computador e corrigir aquele tropeço, aquela gralha, aquela viúva. Precisava mandar compor de novo. O que acontecia, no entanto, era que o foto-compositor, ao corrigir o erro em determinado palavra, muitas vezes errava em outra que na versão anterior estava corretamente transcrita. Era, a rigor, um processo interminável, que só chegava ao fim por arbritrariedades de fluxo de produção e por necessidades comerciais. Mas o fato é que, na minúncia, eu lia, relia e trelia esses quatro romances.
A primeira impressão que seus romances me deram foi a de que eram muito melhores que as versões televisivas e muito melhor do que diziam. Eles tinha de tudo um pouco: sexo, violência, amor, intrigas políticas, dramas existenciais, aventura, conteúdos mundanos e mitológicos, etc. Mais ou menos nessa época, lembro-me de ter visto uma entrevista de Jorge Amado na qual ele dizia que, a partir de certo momento de seu processo criativo, os personagens passavam a ter ida própria, tirando dele parte do controle sobre seus destinos. A princípio, admito, achei que era uma frase de efeito, daquelas que são ditas mais para agradar ao leitor e para sacralizar o ofício literário como se fosse uma inspiração divina. Porém, à medida que eu mergulhava no universo ficcional daqueles quatro romances, fui sentindo aqueles personagens ganharem vida. Difícil explicar o que acontece num leitor quando ele tem essa sensação. Mas afinal, é para sentí-la que devoramos livros e mais livros. Comecei a enxergar nos seus personagens pessoas de carne e osso, e em pessoas de carne e osso características dos seres ficcionais. Também entendi o quanto os destinos que lhes era dados ao final de cada romance era um desfecho perfeitamente lógico e condizente com seus traços de personalidade, e entendi que não poderiam ser unilateralmente premeditados pelo escritor antes de começar a escrever, num plano de obra ou coisa assim. Só ao longo do processo de escrita o casamento entre personagens e suas trajetórias poderia se montar de forma tão homogênea. Foi a primeira lição que aprendi, à distância, com Jorge Amado.
Tempo depois, eu havia saído da editora Nova Aguilar e ido trabalhar na Nova Fronteira, onde tinha o cargo de gerente editorial. Uma das minhas funções era fazer uma primeira triagem das pilhas de originais de escritores desconhecidos que chegavam semanalmente. Certo dia caiu em minhas mãos um original composto por três novelas, vindo da Bahia. O nome do autor, Nélson de Araújo, não me dizia absolutamente nada, mas ao lê-las fiquei muito bem impressionado. Liguei para João Ubaldo Ribeiro, outro bahiano célebre, que era autor da casa e na época estava morando em Berlim. Perguntei a ele se conhecia o tal escritor. Disse-me que sim, que Nélson fora seu chefe de redação na época em que João trabalhara como jornalista em Salvador. Tratava-se de um senhor de mais ou menos setenta anos, erudito, que aprendera latim e grego sozinho, essas coisas de gênio de província como hoje, salvo engano, não existem mais. Decidimos publicar o livro e, para minha surpresa, Nélson conseguiu que o eminente Jorge Amado escrevesse a quarta-capa para nossa edição. Em data altura da produção do livro, recebo o original do texto de Jorge Amado, datilografado. Meu queixo caiu: estava repleto de erros de português! Em oito linhas, a palavra autênticos estavas sem o acento circunflexo, inesquecíveis estava com s, heróis não tinha acento, o substantivo clã estava com concordância feminina. Rascunhado à mão, Nélson de Araújo me mandava o seguinte recado: Este é o original de JA. Na pressa devo ter-lhe enviado a cópia. Guarde nos seus arquivos como exemplo de brilhante analfabetismo. Assim são os bacharéis de Direito da geração de JA. Pois você sabe que ele é bacharel ” Eu não soube como interpretar aquilo. Como escritor mais bem sucedido de toda a história da literatura brasileira podia cometer erros tão primários? Comentei o fato com um e outro até que ouvi uma história que circulava na editora Record – uma segunda casa de Jorge Amado, onde publicou todos seus livros a partir de um certo momento de sua vida, e onde, por cláusula contratual, o que quer que acontecesse, ele não poderia brigar com o dono da editora, na época o velho Alfredo Machado. A história dizia que Jorge Amado, fazia muito, não dava a mínima para a correção ortográfica ou gramatical de seus livros. Segundo ele, depois de tantas reformas ortográficas, ele desistira de se preocupar com bobagem. Seu negócio era contar uma história, inventar personagens atraentes, pôr no papel as emoções de seu povo, o resto era tarefa dos revisores. Demorei a concordar com ele. Mas hoje vejo o quanto tinha razão. O escritor tem mais é que se preocupar com outras coisas. O mesmo vale para o editor. Esta foi a segunda lição que aprendi com ele, novamente a distância.
Passaram-se mais alguns anos, e veio a candidatura de João Ubaldo Ribeiro à Academia Brasileira de Letras. Contrariando todos aqueles que identificavam a Academia como um lugar de figurões endinheirados sem maiores méritos literários, bem como todos aqueles que passaram a identificá-lo com José Sarney, que por sua vez seja o protótipo do membro da pífia Academia, Jorge Amado não apenas arrancou de João Ubaldo a autorização para lançar sua candidatura, como foi também seu maior cabo eleitoral, para não dizer que foi um fator definitivo na eleição. Aos olhos de um leigo, João Ubaldo, com sua fama de boêmio, de largado, de pessoa simples e despretensiosa, nada tinha a ver com o perfil de um membro da Academia. Mas, digam o que disserem, sua eleição ajudou a relativizar a imagem que se tinha da instituição. Mais do que isso, ela mostrou uma atitude generosa do grande escritor bahiano em relação a seu colega mais jovem. Muitos, na situação dele, teriam visto João Ubaldo, por todas as caracteristícas eminentemente bahianas de sua literatura, um concorrente, e não um aliado, Por fim, mostrou que, como pessoa, era amigo de quem ele quisesse. De Sarney aqui, de João Ubaldo ali, sem ligar para as patrulhas de parte à parte. Terceira lição.
Finalmente chegou a meus ouvidos uma história muito curiosa, que aconteceu numa mesa-redonda de escritores brasileiros no exterior. Jorge Amado e outros, alguns deles representantes daquilo que eu venho chamando de inteligência. Numa data altura do debate, chegou ao tema da relação do escritor com as traduções de seus livros. Um membro da inteligência , autor de duas pequenas novelas, que por melhor que sejam não justificariam o incensamento que recebe há décadas, divagou horas sobre a sua dificuldade em aceitar certas liberdades do tradutor, em imaginar seus personagens falando outras línguas, enfim, um blá, blá, blá, pretensioso e interminável. Após sua longa digressão, chegou a vez de Jorge Amado se pronunciar sobre o assunto, e ele, ao mesmo tempo com malícia e simplicidade, respondeu: “Depois que você tem seus livros traduzidos para mais de cinqüenta línguas, sendo que na maioria delas você não sabe dizer nem “oi”, a gente deixa de se preocupar com essas coisas” Como entender essa frase, eu pensei ao ouvir a história. Preguiça intelectual? Timidez? Novamente a minha ficha demorou a cair. Com o tempo, depreendi do episódio um ensinamento importante. Assim como os personagens têm vida própria, o mesmo acontece com os livros. Um escritor não controla quem irá ou não gostar de seu livro, e também não deve pretender controlar excessivamente a trajetória de um livro. Se na Malásia querem ler Dona Flor, deixa eles! Essa foi a última impressão marcante que Jorge Amado deixou em mim.
Então, quando hoje meus colegas de ofício e de geração, seja privadamente seja em público, me dizem que Jorge Amado tem um valor literário discutível, que é uma espécie de Sidney Sheldon brasileiro, eu acho uma graça… Em primeiro lugar, acho que estão impondo ao ofício do escritor uma ambição que não é, necessariamente, a dele. Se o escritor deseja fazer experimentações formais sofisticadérrimas, que faça, mas isso não deveria ser absolutamente indispensável para que um livro seja considerado bom. Se ele quer personagens multifacetados, cheios de psicologismos, bom para ele, mas não deveria achar que essa é a única maneira válida de retratar a espécie humana. Jorge Amado era um soberbo contador de histórias, que eu preferiria chamar de o nosso Balzac. Ao invés de ficar se fazendo perguntas teóricas, do tipo, “onde está meu narrador”?, ele pegava uma história e a desenvolvia, sem maiores elocubrações racionalizantes, atento apenas ao que mandavam sua própria veia emocional e as de seus personagens.
Não é por acaso que um escritor do porte de Gabriel Garcia Marquez apregoa aos quatro ventos que o narrador do século XXI estará escrevendo roteiros e não romances. A literatura está sitiada pelas experimentações formais e pelos subjetivismos exacerbados.Mas vários povos e civilizações nasceram e morreram sem a figura do que chamamos entre nós de artistas, que dirá do que chamamos de intelectuais. Mas sem a figura do contador de histórias não conheço nenhum caso. Uma exceção, talvez, nós mesmo, agora que Jorge Amado morreu.
[2001]