Individualidade contra religião | Entrelivros
Em seu romance autobiográfico O retrato do artista quando jovem, Joyce recria seu trajeto de criança dominada pelos dogmas católicos até o artista de intelecto livre e independente
|| Por Rodrigo Lacerda
Em 1904, aos 22 anos, James Joyce escreveu o ensaio autobiográfico intitulado O retrato do artista, uma primeira versão daquele que seria seu primeiro grande romance. Redigido em um único dia, o ensaio tinha um caráter eminentemente político-social, cujo objetivo era reconstruir aquilo que o autor chamou de “a consciência incriada” de sua raça. A idéia lhe veio quando soube que um novo periódico, chamado Dana, começaria a ser publicado em Dublin. Mas o ensaio acabaria recusado por um dos editores, sob o argumento de que “Não posso imprimir aquilo que não entendo”.
Ainda em fevereiro daquele ano, Joyce decidiu transformar o ensaio num romance e rebatizou-o, temporariamente, a partir do nome de seu protagonista, intitulando-o Stephen Hero. Outra mudança importante foi fundir seus 26 capítulos em apenas 5. Mas foi, sobretudo, ao minimizar o peso da abordagem político-social e enfatizar o caráter psicológico do protagonista que Joyce atingiu a excelência que até hoje rende ao romance, finalmente publicado em 1916, um papel de destaque no conjunto de sua obra.
O projeto foi fundamental para que o escritor se realizasse por meio de um livro que recontava justamente seu processo de amadurecimento como artista. Neste livro, o passado ganha vida própria, ultrapassando a mera recomposição memorialística e tornando-se uma “sucessão fluida de presentes, o desenvolvimento de uma entidade na qual o nosso verdadeiro presente é apenas uma fase”.
Cada um dos capítulos marca a evolução do personagem, da meninice até o início da vida adulta, passando pelos tormentos da adolescência, num intervalo de tempo durante o qual ele enfrenta os conflitos com a família, com os colegas de colégio, com as mulheres, com a Igreja e a sociedade em geral.
Da mesma forma, essa evolução psicológica é marcada pela mudança da linguagem ao longo dos capítulos, como assinala a tradutora Bernardina Pinheiro, responsável pela mais recente versão do romance em português. De início, a sintaxe é elementar, composta por orações coordenadas e uma quase total ausência de frases subordinadas, o que cria um efeito infantil de justaposição. Quando se chega ao último, encontramos uma prosa muito mais sofisticada, que praticamente em forma de diálogo filosófico permite ao protagonista expor, por exemplo, suas belíssimas teorias estéticas. Vale ainda citar o fato de que Um retrato do artista quando jovem introduz na literatura contemporânea o uso sistemático do monólogo interior, recurso que se torna ainda mais radical quando aplicado em um personagem infantil e sem maiores recursos expressivos.
Ao final dessa evolução, o personagem está então pronto para fazer jus ao seu sobrenome de grande conteúdo simbólico, Dedalus, ou Dédalo, uma recuperação o mito grego do personagem que fabrica suas próprias asas para se lançar na imensidão e alçar vôo próprio.
Covardia e revolta
Quando o romance tem início, ficamos sabendo que Stephen Dedalus mora em Blackrock e vem de uma tradicional família irlandesa, atualmente composta pelo pai, Simon Dedalus, um defensor intransigente da independência irlandesa em relação ao império britânico; a mãe, uma dona de casa; o tio do pai Charles Riordan, outro homem de idéias políticas fortes, e sua esposa, a ultra-religiosa Dante Riordan.
Matriculado num colégio interno jesuíta, Dedalus tem consciência de que é mais pobre que seus colegas, a quem ele chama de “filhos de magistrados”. Fica-se com a impressão de que o gradual empobrecimento de sua família decorre não apenas de insucessos financeiros, mas da perda de projeção social do pai, possivelmente causada por seu posicionamento inflamado no jogo político da época, pró-nacionalismo irlandês.
Uma das cenas iniciais nos mostra Stephen Dedalus jogando futebol com os colegas, e logo vemos que ele é o tipo de menino que joga futebol com as mãos no bolso, ou seja, está deslocado, amedrontado, incapaz de se movimentar livremente. Pior ainda, é tiranizado pelos amigos. Na véspera, havia sido atirado por eles na lama e tivera seus óculos quebrados. Enquanto os colegas mais velhos já promoviam verdadeiras, e secretas, competições de masturbação no banheiro, Dedalus é inocentemente devoto, obedecendo espontaneamente às restrições morais e intelectuais impostas pela religião que aprende na escola e em casa.
Há dois episódios de conflito nesse capítulo de abertura que merecem destaque. Num deles, durante a ceia de Natal, sua família discute política, e logo fica claro que há posições diferentes entre os adultos. A tensão poderia ser resumida assim: como defender o nacionalismo político e ser um católico fiel se a Igreja irlandesa é, muitas vezes, cúmplice da dominação inglesa? Diz o tio, durante a refeição: “Nós vamos à casa de Deus, com toda a humildade, para rezar ao nosso Criador e não para ouvir discursos eleitorais”. Mas a tia logo rebate: “Um padre não seria um padre se ele não dissesse ao seu rebanho o que é certo e o que é errado”.
Resta ao menino, simplesmente, se debater diante dos argumentos dos adultos: “Mas por que então ele [o sr. Casey] era contra os padres? Porque Dante devia estar certa então. Mas ouvira seu pai dizer que ela era uma freira que deixara o hábito e que tinha saído do convento…”.
O outro conflito importante leva o pequeno Stephen a se confrontar com vários impedimentos morais conflitantes ao mesmo tempo. Durante a aula, ele é interpelado por um dos padres superiores do colégio, que o vê sem fazer os exercícios. Stephen fora dispensando pelo professor de fazê-los por ter quebrado os óculos, e já escrevera à família para que lhe enviasse um novo, mas o padre superior injustamente o castiga com o “golpe escaldante” da palmatória. Stephen, por um código de honra entre os meninos, é impedido de acusar os colegas que lhe quebraram os óculos; por outro lado, tem medo de protestar junto ao reitor do colégio contra a injustiça cometida; mas vê a autoridade dos padres em conflito, pois o professor que de fato o eximira de fazer os exercícios não o defendeu no momento crucial.
Os amigos, inclusive os que o haviam maltratado, atiçam-no para que registre seu protesto junto ao reitor, e Stephen sente-se muito tentado a isso, mas sabe do perigo de, ao fazê-lo, atrair novos castigos e injustiças. Ele decide arriscar. Entra na sala do reitor, com o coração aos pulos, começa a contar sua história e, finalmente, chega no ponto, acusando o padre que o castigara. O reitor hesita em acatar a denúncia: “Ora, vamos, foi um engano; estou certo de que o Padre Dolan não sabia”. Mas Stephen fora longe demais para recuar: “Mas eu lhe disse que os tinha quebrado senhor, e ele me bateu com a palmatória”. Ao final da cena, o reitor se compromete a falar com o famigerado Padre Dolan, e, ao sair de seu gabinete, Stephen é aclamado pelos colegas.
Mesmo assim, logo vemos que o episódio não foi suficiente para que as imposições religiosas e de comportamento se quebrassem inteiramente dentro dele: “Os vivas se dissiparam no ar suave e cinza. Ele estava só. Estava feliz e livre: mas de qualquer maneira não ia se comportar de maneira orgulhosa em relação ao Padre Dolan. Ia ser muito quieto e obediente; e desejava poder fazer alguma coisa boa para lhe mostrar que não era orgulhoso”.
Liberdade literária e sexual
Um dos temas recorrentes do capítulo que trata do início da adolescência de Stephen é o empobrecimento de sua família. O pai passava mesmo por sérias dificuldades financeiras, que o obrigam a voltar para Cork e vender as últimas propriedades da família por lá. A família, então, perde a casa em Blackrock, e muda-se para Dublin. Stephen chega a ficar sem estudar, pois o pai não tem condições de mandá-lo de volta para o chique colégio jesuíta.
Tudo isso cria no jovem uma relação ambígüa com o pai. De um lado o sr. Dedalus é um bom sujeito, capaz de ter conversas perfeitamente amigáveis com o filho durante a viagem para Cork, de contar boas histórias do passado, de estimulá-lo nos esportes e, mais do que isso, de reconhecer as virtudes do filho, como quando o julga “um menino inteligente e equilibrado”. Mas esse juízo do pai gera no filho um sentimento de frustração, de derrota. Há uma competição latente entre o pai e o filho: a afirmação da masculinidade. Quando reencontram velhos amigos do pai, Stephen fica sabendo que Simon havia sido o “namorador mais atrevido da cidade de Cork”, e diante disso ser equilibrado é algo vivido como uma frustração. Por outro lado, Stephen tem vergonha do pai quando ele bebe demais, ou simplesmente quando o pai se intromete no seu mundo escolar: “Qualquer alusão feita a seu pai por um colega ou por um mestre fazia num instante sua calma debandar”.
Simultaneamente, outros mudanças ocorriam no interior do protagonista. A sensação de isolamento que o separava dos colegas, antes vivida como humilhação, passa a ser uma forma de afirmação. Ele conhece um certo sentimento de superioridade em relação aos rapazes, também do ponto de vista moral, pois continua sendo mais obediente aos bons costumes que os outros, mas que se manifesta sobretudo no plano intelectual. A literatura, já tão cedo, torna-se um espaço no qual não só Stephen ganha força, ele chega mesmo a ser herético. Seus escritos desafiam a tolerância do professor de inglês e dos próprios amigos, que, despeitados pela coragem de seus gostos literários, chegam a surrá-lo fisicamente.
Além disso, Stephen começa a sentir necessidade de viver uma experiência amorosa. Leitor do clássico O conde de Monte Cristo, ele sonha com a heroína romântica, a sua Mercedes, e apaixona-se platonicamente por uma menina, mas, tímido e reprimido, não consegue tomar nenhuma atitude concreta, a não ser escrever-lhe um poema. Numa das cenas deste segundo capítulo, ele toma parte numa peça de teatro e tenta impressioná-la. Quando o espetáculo termina, procura alcançá-la na saída, mas sem sucesso.
O misto de força interior e total impossibilidade de canalizá-la para fora, seja por meio de uma afirmação mais sólida dentro da família seja por meio da realização de seus desejos amorosos, atormentam-no. Sua vida escolar é então retomada, quando o pai, novamente graças aos resíduos de suas conexões sociais, consegue que o filho volte a estudar entre os jesuítas. Este retorno a princípio lhe causa engulhos, mas ele, por méritos próprios, consegue uma bolsa de estudos e ganha um prêmio literário, o que reforça sua posição na família, com quem gasta todo o dinheiro. Mas isso ainda não é o suficiente para aplacar sua mente constantemente aflita, o grito que ele sufocara por tanto tempo precisava ecoar. Num labirinto de ruas estreitas e sujas, entre explosões de tumulto rouco e de luta e de vozes arrastadas de cantores bêbados, ele tem sua primeira experiência sexual. “Uma jovem mulher com um longo vestido rosa pôs a mão em seu braço para o deter e fitou seu rosto. (…) O quarto dela era claro e quente. Com um movimento súbito ela abaixou a cabeça dele e juntou seus lábios aos dele e ele leu o sentido de seus movimentos em seus olhos francos que se tinham erguido”. Os lábios da prostituta “pressionaram sua cabeça e seus lábios como se fossem o instrumento de uma linguagem indefinida; e entre eles sentiu uma pressão desconhecida e tímida, mais obscura do que o desfalecimento do pecado, mais suave do que som ou odor”.
A Igreja contra-ataca
Stephen Dedalus vira um freguês recorrente das prostitutas e a experiência carnal lhe transmite “uma onda de vitalidade” e, por incrível que a mente daquele jovem embebido na moral cristã pudesse achar, “nenhuma parte do corpo ou da alma havia sido mutilada”, “mas uma paz sombria se estabelecera entre eles”. Tudo parece indicar que ele libertou sua consciência dos dogmas religiosos. Além disso, vivida a experiência mais transformadora do jovem em direção ao homem, seu sentimento de superioridade em relação aos colegas de colégio se exacerba: “Para com os outros não sentia nem vergonha nem medo”.
Mas então o reitor anuncia aos alunos que, durante três dias, haverá um retiro espiritual no colégio, do qual todos devem fazer parte. O retiro é narrado sob a forma de longas pregações, pronunciadas por um dos padres do colégio. Diz o pregador, ao longo de sua peroração: “Se houver neste momento nesses bancos alguma pobre alma que tenha tido o infortúnio indizível de perder a graça sagrada de Deus e de cair em pecado grave, confio e rogo que este retiro possa ser o momento decisivo para a vida desta alma”.
O arrependimento e a moritifcação adormecidos em Stephen Dedalus, despertam pouco a pouco. “Agora era a vez de Deus; Ele não estava ali para ser ludibriado ou enganado. Todo pecado sairia de seu esconderijo”, pensa ele, diante das palavras que vinham do púlpito.
O jovem sai das primeiras pregações corroído de culpa e disposto a se confessar, mas ainda dividido entre a fé e seus desejos carnais e amorosos, entre o bom-comportamento e suas fotografias de mulheres nuas ou suas fantasias relativas a uma menina chamada Emma. Dedalus acredita que Deus e a Virgem eram objetivos elevados demais para ele, mas que o amor não o seria.
Mas outra saraivada de pregações termina a derrocada de sua firmeza. Ameaçado pelos castigos infernais, pelo Juízo Final, pela dor eterna dos pecadores, pelo fogo e pela companhia maldita daqueles que vão contra os ensinamentos divinos, Stephen sente que “Todas as palavras eram para ele! Era verdade. Deus era Todo-poderoso. Deus podia chamá-lo agora”. Ele decide então confessar seus pecados e arrepender-se. Prefere, no entanto, não fazê-lo no colégio, junto com os outros rapazes. Mas as pregações continuam e reforçam nele a necessidade de se purificar. Ele se sente sujo, tem convulsões de culpa, reza fervorosamente no quarto, e acaba indo procurar pela cidade uma capela onde outro confessionário, mais anônimo, possa ajudá-lo.
Quando finalmente a encontra, é o momento decisivo: “Ainda lhe era possível sair da capela. Podia se levantar, pôr um pé adiante do outro e caminhar suavemente para fora e então correr, correr, correr velozmente através das ruas escuras”. Mas ele vai, aterrorizado, ajoelhar-se no confessionário, e despeja lá todas as suas culpas: “missas perdidas, orações não feitas, mentiras (…) pecados de raiva, de inveja dos outros, de gula, de vaidade, de desobediência” e, sobretudo, os de impureza. Ao final do terceiro capítulo do romance, o jovem Dedalus tem portanto uma forte “recaída” em seu antigo comportamento pio. Ele sai aliviado da confissão e, de volta ao colégio, termina comungando.
O duelo final
O reencontro de Stephen Dedalus com o bom-comportamento cristão avança e chega mesmo ao limite. Desta confissão em diante, ele decide salvar sua alma e para isso não hesita em se tornar um aluno exemplar do colégio jesuíta, o que lhe dá uma grande sensação de bem-estar. “O triunfo espiritual que sentia ao levar a cabo com facilidade tantas eras fabulosas de penitências canônicas não recompensava totalmente o zelo de suas preces porque nunca podia saber quanto castigo temporal havia comutado (…) e, temeroso de que no meio do fogo do purgatório, que diferia daquele do inferno apenas por não ser eterno, sua penitência não pudesse valer mais do que uma gota de orvalho, ele fazia sua alma perfazer diariamente um círculo crescente de atos praticados além do que o dever impunha”.
Mas o custo disso é a mortificação de seus sentidos. Ele se obriga a andar na rua de olhos baixos, para não ver as mulheres e, assim, se precaver contra o desejo carnal. Mortifica também a audição, sem cantar ou assobiar; o olfato, submetendo-se aos odores que lhe pareciam mais desagradáveis; o paladar, obedecendo todos os jejuns da Igreja; o tato, submetendo-se às posições mais desconfortáveis, suportando as coceiras que eventualmente sentia etc. Graças a tudo isso, ele sente mesmo desaparecer o desejo de “pecar mortalmente”. A contrapartida, contudo, é o acirramento de sua condição de ser à parte: “Fundir sua vida com a maré comum de outras vidas lhe era mais difícil do que qualquer jejum ou oração e era seu constante fracasso em fazer isso para sua própria satisfação o que causava finalmente em sua alma uma sensação de aridez espiritual junto com uma proliferação de dúvidas e escrúpulos. (…) – Eu regenrei minha vida, não regenerei? – ele se perguntava”.
É nessa altura de seu processo psicológico que a ordem jesuíta, imaginando tê-lo dominado, tenta se apossar de vez de não apenas de seus padrões de comportamento, mas de sua inclinação vocacional. Ele é chamado a uma reunião com o diretor do colégio, que o convida a abraçar a carreira religiosa, “a maior honra que Deus Todo-poderoso pode conferir a um homem”. O diretor do colégio lhe dá um dia para decidir.
Stephen encontra-se diante de um dilema profundo: de um lado, tornar-se jesuíta é a garantia de uma vida limpa de impurezas, pois “Nenhum contato de pecado subsistiria nas mãos com as quais ele partiria a hóstia”, e é também a promessa de uma estabilidade financeira importante para ele e sua família, que a essa altura está sendo despejada da casa em que mora, por falta de pagamento do aluguel; de outro, ele pressentia que “Seu destino era ser hostil às ordens sociais e religiosas. (…) Estava destinado a aprender sua própria sabedoria independentemente dos outros ou a aprender ele próprio a sabedoria dos outros vagando entre as ciladas do mundo”.
Mas não só Stephen fica dividido pelo convite do diretor, sua família também. O pai, logo em seguida, ajuda-o a procurar uma universidade, enquanto a mãe insiste para que ele siga a carreira religiosa. Apesar de tudo, Stephen toma a decisão: ele prefere se entregar às ciladas do mundo. Embora marcado pela teologia católica, e mesmo sendo um jovem repleto de impedimentos morais impregnados em sua mente, ele se sente como um boi de sacrifício, que precisa enfrentar o destino de viver, intensamente, seu papel. Num passeio pela praia (é uma característica do personagem, sempre que se vê angustiado, sair andando a esmo), ele vê uma jovem desconhecida, que lhe devolve o olhar. É o suficiente para ele ser transportado para um novo estágio de sua decisão: “Viver, errar, sucumbir, triunfar, recriar vida da vida! Um anjo selvagem lhe aparecera, o anjo da juventude e da beleza mortal, um mensageiro das belas cortes da vida, para abrir diante dele num momento de êxtase os portões de todos os caminhos do erro e da glória. Mais e mais e mais e mais!”.
O artista livre
O último capítulo do romance tem início com Stephen já numa universidade que, embora religiosa, está longe de ser um seminário. Aluno destacado, ele escreve um ensaio sobre estética, em nome do qual especula a todo o momento sobre o conceito de belo e os procedimentos artísticos mais adequados para atingi-lo. Seu universo mental é uma fusão oscilante de mundo religioso e profano, o que lhe confere uma independência intelectual ímpar. Seu sentimento de superioridade em relação aos colegas está cada vez mais agudo, e chega mesmo a atingir os padres, como fica evidente durante uma conversa que tem com o decano do colégio, que lhe parece uma pessoa que foi usada pela ideologia religiosa, “um bastão na mão de um velho, para ser deixado num canto, para servir de apoio ao cair da noite na estrada ou na intempérie, para ficar sobre um banco de jardim com um ramo de flores, para ser erguido como ameaça”.
Sua consciência política está também completamente livre de dogmas. Ele discute com um amigo nacionalista irlandês, a quem choca com seu descaso, com sua visão cética dos heróis da pátria e de seus gestos de arroubo, e também se recusa a endossar um abaixo-assinado de teor político promovido pelos colegas. Segundo ele: “A Irlanda é a velha porca que come sua ninhada”. Ele deixa no ar inclusive a possibilidade de partir, após a formatura.
Reconhecido entre os professores e os colegas como uma inteligência superior, seu senso de observação torna-se um tanto corrosivo, quase cínico, que não poupa nem ao pai nem à mãe. E também não poupa sua nova paixão, uma menina que, ele percebe, flerta com um dos padres-professores.
Numa conversa com um amigo, ele enuncia as palavras que melhor definem sua nova condição, após tantos percalços e tormentos interiores, e que melhor resumem o sentimento final do livro: “Você me perguntou o que eu faria e o que eu não faria. Eu lhe direi o que farei e o que não farei. Não servirei àquilo em que não acredito mais, quer isso se chame minha família, minha terra natal ou minha Igreja; e procurarei me expressar por meio de uma certa forma de vida ou de arte tão livremente quanto eu possa e tão totalmente quanto eu possa, usando em minha defesa as únicas armas que me permito usar: o silêncio, o exílio e a astúcia”.
RODRIGO LACERDA é editor, tradutor e escritor, tendo pulicado, entre outros, Vista do Rio e O fazedor de Velhos.