Identidades difusas: Bernardo Carvalho e Rubens Figueiredo
Estes dois recentes lançamentos respondem àqueles que, mais por comodismo que por conhecimento de causa, insistem em dizer que a literatura contemporânea está passando por um momento de crise de qualidade. Os escritores não são nem tão iniciantes assim; Bernardo está em seu quarto livro, Rubens no quinto. Continuam, porém, abertos à exploração de formas narrativas poucos usuais, quando não inéditas, desenvolvendo seus engenhosos projetos literários de forma consciente.
Os dois livros se aproximam em muitos pontos e se distanciam em outros. A grande semelhança está no eixo de seus projetos, que deter a por sua vez a maneira como constituem suas vozes narrativas e à maneira como desdobram os enredos que criam. Este eixo é a crise de identidades, seja das personagens, seja do próprio narrador. Teatro”, por exemplo, está dividido em duas partes, cada uma delas contada por um narrador diferente. Na primeira, um policial aposentado que se diz autor de vários atentados terroristas.
Na segunda, um repórter que investiga a vida de um travesti idolatrado no mundo da pornografia, uma paixão antiga do policial da primeira parte. Sempre na primeira pessoa, as duas vozes narrativas se contradizem frontalmente, de tal modo que o livro quase pode ser lido como duas novelas autônomas.
Embora isso se manifeste de diferentes maneiras em “As Palavras Secretas” – afinal, trata-se de uma reunião de contos-, também surgem aí como traço constante as personagens em plena crise de identidade ou mesmo os narradores de identidade difusa. Seja o aprendiz de artista plástico que se debate com a “angústia da influência” que recebe de seu mestre, seja o menino que aprende a ser eremita sem nunca ter encontrado um modelo no qual se espelhar, seja a vampira das. personalidades alheias etc. A estrutura sobre a qual se desenrolam os enredos dos vários contos, embora menos radicalmente embaralhada e contraditória que a de “Teatro”, também se caracteriza pela alternância entre uma vaga linearidade e uma proposital desordem narrativa.
Outra semelhança: neles, a identidade das vozes narrativas está ligada à referência espacial, variando com ela. O lugar de onde falam determina aquilo que vão dizer e como o farão. Em “Teatro”, o mundo é dividido em dois, sendo que “na metrópole”, onde vivem aqueles que o policial aposentado chama de “os sãos”, a sua narrativa seria impossível, pois este seria o lugar do primado da imagem sobre a verdade, a imagem fabricada sendo, no mundo contemporâneo, a única forma possível de uma leitura coerente da realidade. Em “Teatro”, só na “periferia” a natureza múltipla da verdade pode aparecer. Uns mais, outros menos os contos e As Palavras Secretas” também trabalham com essa estreita vinculação entre lugar e identidade.
Dois rápidos exemplos: Joana,”a vampira das identidades alheias, protagonista de “Sem os Outros”, encontra sua liberdade quando é equivocadamente dada como morta, o que, sintomaticamente, acontece num aeroporto, local neutro e de passagem; Eunice, a recepcionista do hotel de “Enquanto a Flecha Voa”, vê os turistas como zumbis sem identidade e só se julga psicologicamente coesa enquanto está fixa a seu emprego, a sua casa e ao trajeto que percorre todos os dias entre um e outro.
Se, na crise de identidade generalizada entre personagens e vozes narrativas, ambos se debruçam sobre uma temática contemporânea por excelência, ‘teatro” propõe um sobrevôo crítico mais amplo da nossa realidade, enquanto “As Palavras Secretas” poucas vezes se afasta dos dilemas individuais de suas personagens. São comuns, no primeiro livro, outros temas típicos do fim de século, como a oposição entre homens e máquinas, o terrorismo como “a ameaça da morte ao alcance de todos”, “o executivo como marionete das grandes corporações” etc.
Na segunda parte do romance, contudo, não há tantas referências desse gênero, o que lhe diminui a amplitude temática. Isto, aliado a sua estreita vinculação à primeira parte, mesmo que esta se dê na base da negação de tudo o que foi dito, quase ponto por ponto, são características que acentuam aqui o caráter de thriller policial, ainda que seja um ,”thriller” ao contrário, no qual as suspeitas, em vez de se confirmarem, se multiplicam.
Mas, por trás das crises de identidade em cada um dos livros, há uma diferença fundamental. “Teatro”, como o próprio nome já diz, propõe uma representação da verdade na qual uma voz narrativa tenta se impor às demais. Seus narradores são mais afirmativos, apesar de contraditórios entre si. Já”As Palavras Secretas” constrói um universo iniciático, no qual as personagens em crise de identidade buscam uma ascese solitária. As personagens de Rubens Figueiredo não se exibem para se afirmar, elas se escondem e se isolam para entender quem são.
Mesmo assim, é curioso como, nos dois livros, essa diluição das vozes narrativas se dá se maneira oposta à praticada no romance tradicional, mais preocupado com a dramatização dos fatos e sentimentos narrados. O esforço anterior dos ficcionistas em dar consistência a suas vozes narrativas e a suas personagens, conferindo-lhes mesmo a autonomia possível, está fora de cogitação. O sinal mais patente disso é que tanto Bernardo quanto Rubens praticamente não usam diálogos. Estes são, quando muito, reproduzidos pelos narradores e sujeitos a todas as deformações inerentes a identidades em crise. O outro nunca fala.
Desse ponto de vista, por paradoxal que possa parecer, há um traço egocêntrico nessas vozes narrativas tão dilaceradas. Uma frase no livro de Rubens Figueiredo, entendida por este ângulo, resume a nova atitude dos romancistas: “Teríamos feito de nossas palavras e de nós mesmos fantasmas de nossas convicções “mortas”.
Do ponto de vista formal, há diferenças estilísticas gritantes. A escrita de Bernardo Carvalho, tanto na primeira quanto na segunda parte, possui em ritmo marcado por arranques, com duas ou três frases curtas, seguidas de na frase bem mais longa, e assim por diante. A narrativa em primeira pessoa, aqui, também lhe permite em estilo mais “sujo”, com vocabulário mais direto cotidiano e frases cheias de repetições, que acabam por criar um certo registro de oralidade. Por exemplo, no trecho: “Por isso eu estava lá, não tomaram nenhuma precaução. Nem devem ter se lembrado de mim… Devem ter ficado boquiabertos, espantados demais para se lembrar de mim…”. Já Rubens Figueiredo, ao longo dos oito contos, constrói um estilo de ritmo menos quebrado, sem os arranques das frases longas, e também com um fraseado mais elegante, tanto na construção quanto no vocabulário utilizado. Ele resgata um estilo lírico, destoando da maioria dos escritores contemporâneos. Como na seguinte passagem: “Quando percebeu que se avizinhava da fonte do ruído, as folhas das árvores começaram a se dispersar, imitando o movimento de um cardume de peixes que foge para os lados quando avançamos em sua direção”.
Como já foi dito, são dois lançamentos que rebatem qualquer desqualificação da literatura brasileira contemporânea. Para quem a radicalidade de Bernardo parecer exageradamente cerebral, ou evidente demais, pesando ao longo da leitura, o livro de Rubens Figueiredo soará mais poético, ainda acenando com a possibilidade de harmonização entre objetividade e subjetividade, nem que seja num mundo paralelo, de absoluta introspecção.
[década de 1990, publicado no Jornal de Resenhas da Folha de S. Paulo]