Homero e a Guerra do Paraguai em Viva o povo brasileiro
Além do delírio patriótico.
A Guerra do Paraguai – um dos episódios mais sangrentos da história brasileira – encontrou em A retirada da Laguna, do Visconde de Taunay, e Viva o povo brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro, sua melhor expressão literária.
Em 1864 começou a Guerra do Paraguai. Em 1865, Brasil, Argentina e Uruguai formaram a Tríplice Aliança contra o plenipotenciário paraguaio marechal Francisco Solano López, El Supremo. Os três aliados haviam sido invadidos, e o exército inimigo acabaria pagando caro por isso, num dos poucos momentos da história em que o Brasil pôde bancar a superpotência.
Nas letras pátrias, aqueles seis anos de combate no Paraguai serviram de material para algumas páginas notáveis. A retirada da Laguna (Cia. das Letras), clássico do Visconde de Taunay, escrito em 1871, e Viva o povo brasileiro (Nova Fronteira), de João Ubaldo Ribeiro, livro que também já nasceu clássico, são dois belos exemplos dessa fértil promiscuidade bélico-literária.
A retirada da Laguna
Alfredo d’Escragnolle Taunay escreveu A retirada da Laguna quando tinha apenas 25 anos. O livro conta a trágica aventura da brigada brasileira que, atravessando Minas Gerais e Goiás, invadiu o Paraguai pelo .Mato Grosso e abriu uma frente de batalha secundária ao norte, enquanto o caldeirão fervia mesmo era no sul, nas regiões fronteiriças entre o Paraguai, a Argentina, o Brasil e o Uruguai.
De todas as calamidades enfrentadas pela brigada, até que as escaramuças militares foram as menores. Muito mais graves foram os incêndios que os paraguaios provocaram nos campos, os lamaçais intransponíveis, a fome e a epidemia de cólera. 1.680 soldados partiram em abril de 1867. Quando voltou, em junho, a força brasileira sofrera 980 baixas.
Taunay nunca foi um soldado brasileiro como outro qualquer. O sangue europeu de sua família ainda falava alto, tanto que seu relato da retirada foi escrito originalmente em francês. Seu pai era um conde e amigo pessoal do imperador D. Pedra II. Vale ainda dizer que, se o jovem aristocrata incorporara-se à brigada, isso se devia ao fato de ninguém prever tantos horrores para aquela expedição. Era quase consenso, em todos os escalões, que o deslocamento até o Paraguai não era factível e que a movimentação da brigada tinha grandes chances de se transformar num longo passeio pelos sertões do Brasil, nulo do ponto de vista estratégico e militar. Taunay, em suas Memórias, admite inclusive que integrou a expedição atraído pela viagem em si, e com a curiosidade de um botânico, sonhando em “descobrir um gênero novo de planta, pelo menos uma espécie ainda não estudada e classificá-la”.
Ao longo da expedição, Taunay fez um diário. Dois anos depois, por insistência do pai, passou para o papel sua terrível experiência, mais para servir de crônica militar e menos como obra literária. Porém seu livro transcendeu em muito o mero relato oficialesco.
Sua formação cultural fora de série e sua nobreza protetora permitiram que ele construísse, também no interior da narrativa de A retirada da Laguna, uma posição de superioridade em relação a seus colegas e se colocasse em condição de julgar livremente seus superiores. Escrito em estilo elegante e sóbrio, o livro só poderia ter saído da pena de um jovem aristocrata. O narrador tem uma perspectiva crítica em relação a tudo que acontece na prática, conflitos de comando, equívocos estratégicos, indisciplinas da tropa, etc., bem como na teoria, menosprezando o patriotismo inconseqüente que os havia metido naquela encrenca colossal.
Esse distanciamento crítico está em todo o livro. Mas, assim como a forma de crônica militar não implicou uma versão institucionalmente orientada dos fatos, a atitude aristocrática do autor, ao contrário do que se pode imaginar, também não resultou numa narrativa fria ou pedante. A retirada da Laguna conta uma história dramática por si só. Para conta-la não era preciso rebuscar nem uma linha ou falsear uma avaliação psicológica. A economia do estilo de Taunay e equilíbrio de seus julgamentos deixam os dramas individuais e a tragédia coletiva crescerem sozinhos, sem “fermentos” literários ou institucionais. Não há adjetivações retumbantes, floreios desnecessários ou mascaramentos de qualquer espécie. Taunay menciona abertamente certas coisas que um texto mais comprometido ou não iria enxergar ou censuraria rapidamente.
O perfil psicológico que Taunay compõe do líder das tropas, o coronel Camisão, é extremamente humano, sem heroísmos artificiais. Segundo ele, o coronel era um homem perseguido pela maledicência, sobre o qual pairava a fama de covarde. Segundo Taunay, essa foi a razão que obrigou o coronel a submeter suas tropas a desafios muito acima de suas reais possibilidades. Além disso, não escapa a Taunay o duelo de autoridade que se estabelece entre o coronel e o guia da expedição, único conhecedor da região em toda a brigada. De nome José Francisco Lopes, era ele um ex fazendeiro que se juntara à tropas por ter tido sua família seqüestrada pelos paraguaios. Quando a retirada se torna inevitável, resta definir por onde se dará, e o coronel e seu guia divergem sobre a melhor opção. É um conflito surdo, que em cada um dos homens evoca reminiscências dolorosas, e que o estilo narrativo de Taunay deixa crescer naturalmente, à medida em que as trágicas conseqüências da escolha feita vão se acumulando.
Taunay está longe de ser um narrador anestesiado pelos delírios patrióticos que as guerras costumam despertar. Mas também não é um iconoclasta completo. Em dois pontos sua narrativa cai nos lugares-comuns típicos da época. O culpado pela guerra é, única e exclusivamente, o Paraguai. Não se vê, em nenhum momento, qualquer esforço do jovem escritor em enxergar uma eventual co-responsabilidade na irrupção do conflito. As raízes históricas da rivalidade portuguesa e hispânica na bacia do Prata, as pretensões de hegemonia do império brasileiro na região, a necessidade paraguaia de construir um acesso ao mar, fator importante de desenvolvimento nacional ontem, hoje e sempre, enfim, nada disso justificava as invasões paraguaias ao território brasileiro e argentino. Some-se a isso a caracterização estereotipada que faz dos soldados paraguaios vilões cruéis além da necessidade, fuzilando gratuitamente doentes de cólera abandonados pelo caminho, abrindo covas para saquear os cadáveres, incendiando os matos para queimar viva toda a brigada brasileira, e mais um rol de atrocidades. Não que em alguns momentos Taunay não descreva gestos igualmente violentos por parte dos brasileiros, mas nesse caso são sempre motivados pelo desespero, pela doença, pelo instinto de sobrevivência. Os paraguaios, perseguidores e não perseguidos, não têm essa desculpa.
Nos dias de hoje, quando algumas vozes revisionistas acusam o exército brasileiro de ter exagerado na repressão ao expansionismo paraguaio essa característica do livro de Taunay é um tanto datada. No entanto, seu estilo despojado e direto, seu senso crítico, sua capacidade de ecoar sutilmente os dramas de seus companheiros de marcha fizeram com que A retirada da Laguna ganhasse uma posição de destaque na literatura brasileira.
Viva o povo brasileiro
O romance de João Ubaldo Ribeiro atravessa a história do Brasil do século XVII ao XX, período ao longo do qual tramas inteiramente fictícias se alternam com outras ligadas a acontecimentos históricos. Nessa última categoria está a ida dos personagens Patrício Macário e de Zé Popó à Guerra do Paraguai, mais especificamente, sua participação na primeira batalha do Tuiuti, ocorrida em 24 de maio de 1866.
Patrício Macário já era capitão do exército quando a guerra teve início.Havia abraçado a carreira militar por ordem do pai comendador, que desejava puni-la por mau comportamento e por considerar que a farda era a única opção para quem, como o filho Patrícia, havia puxado o “lado brasileiro” da família sua “aparência acaboclada, aquela pele tisnada e quem sabe aqueles modos rudes e praticamente indomáveis”.
Zé Popá era o filho de um patriota fanático, João Popá. Quando da convocação da Companhia de Zuavos dos Voluntários da Pátria, levava uma vida forada-lei, ao lado de Maria Dafé, bandoleira esclarecida e politizada. Essa mesma Maria Dafé ainda iria despertar a paixão de Patrícia Macário mais para frente, no romance. Zé Popá decidiu alistar-se como soldado, em primeiro lugar, para não matar o pai de desgosto, em segundo por sentir um estranho palpite em relação àquela guerra.
Zé Popó e Patrício Macário, este último a partir de seu contato com a bandoleira, encaram o exército como um instrumento de opressão usado contra o povo. Numa de suas investidas à vila de Itaparica, o bando de Maria Dafé havia distribuído panfletos à população, perguntando “…se iam ao Paraguai lutar para defender um país que não era dos que iam lutar, mas dos que os enviavam à luta e permaneciam em casa, escrevendo poemas, fazendo discursos e ficando cada vez mais ricos. Perguntaram ainda se havia escravos no Paraguai. Se havia, de pouca glória seria a luta, pois um dono de escravo era igual a outro dono de escravo, não importava que língua falasse ou que cor tivesse…”
Ambos, porém, acreditavam que a Guerra do Paraguai poderia ajudar a transformar o exército num defensor do povo, ao invés de seu algoz. É por isso que Patrício Macário vive às turras com seus colegas de oficialato e Zé Popá decide abandonar sua vida de proscrito e ingressar no batalhão de voluntários. Ao se despedir de Maria Dafé, constrangido por estar indo lutar ao lado dos opressores do povo, Zé Popá ouve dela o que ele mesmo gostaria de dizer: “Eu sei que é verdade tudo o que pensamos sobre essa guerra e tudo o que pensamos sobre a situação de nossa terra, mas também essa é a nossa terra. (…) Talvez agora o exército compreenda que o lado dele é o nosso lado, não o lado daqueles a quem serve…”.
Os personagens, antes de saberem se vão lutar ou não, perguntam-se por quem e por que estão lutando. Insatisfeitos com as respostas vão divididos para o campo de batalha. Não embarcam no patriotismo cego e inconseqüente, e nesse ponto se parecem um pouco com o narrador de Taunay. Mas o que sugerem como substituto não é a razão individualista e sim um idealismo baseado numa profunda reforma mental e social.
Durante a batalha de Tuiuti, o que vem à tona é ainda mais do que isso. Os orixás se levantam para lutar ao lado de seus filhos. Oxóssi, “orixá bem brasileiro”, convoca para a batalha, um a um, todos os demais orixás. Com uma retórica explicitamente homérica, João Ubaldo moderniza e abrasileira o estilo da Ilíada, usando todos os elementos formais do épico, os epítetos, as repetições, a sonoridade da toada quase hipnótica. Como no trecho: “Ca-uô-ôca-biê-si, salve meu grande irmão, Rei de Oió, senhor do raio, senhor da igiará, Jacutá, atirador de Pedras! Acolá, nos campos de um lugar distante chamado Tuiuti, há uma grande batalha, a maior batalha já vista deste lado do mundo e, nessa batalha, estão morrendo muitos dos nossos filhos mais valorosos (…) E é por essa razão que chamo o meu irmão Xangô, mestre do fogo e do machado, de orgulho e valentia jamais igualados, para que me acompanhe a essa grande batalha em que morrem nossos filhos mais valorosos, para que, pela força do nosso braço e do nosso engenho, lhe mudemos a feição.”
A solução literária de João Ubaldo é absolutamente adequada para sugerir uma espécie de conciliação temporária entre o Brasil oficial e o Brasil real, entre o erudito e o popular, entre o patriotismo linear do exército e o patriotismo enviesado dos excluídos, que amam a pátria que os faz sofrer, entre o filho de comendador Patrício Macário e o fora-da-lei Zé Popó. N aqueles momentos eles não questionam o sentimento nacional, apenas se deixam levar pelo impulso de defender a Pátria para terem tempo e condições de transformá-la.
Por isso é que vemos Ogum, literalmente, salvando a pátria: “Uma mão paraguaia apoderou-se do hostil, uma lançada no peito derrubou o Cabo Benevides e já o inimigo se preparava para amarfanhar o pavilhão intocável, quando Ogum, senhor das batalhas, mestre das armas, cujo nome é a própria guerra, disparou do alto e arrebatou a bandeira num puxavão que por um momento fez com que ela tremulasse entre as nuvens”.
Maior conflito da história da América do Sul, teve como objeto de disputa o controle da região do rio da Prata. O estopim da guerra foi a captura, em 1864, do navio brasileiro Marquês de Olinda pelo exército paraguaio – forma encontrada pelo presidente Solano López para reivindicar os mesmos direitos que Argentina, Uruguai e Brasil na navegação e comércio do rio da Prata.
Dentro dessa política expansionista, que se choca com desejos imperialistas dos países vizinhos, López declara guerra ao Brasil e invade territórios do Mato Grosso e Rio Grande do Sul. Em maio de 1865, Argentina e Uruguai saem da neutralidade e formam com o Brasil o Tratado da Tríplice Aliança.
A partir daí, a balança da guerra, até então favorável aos paraguaios, começa a pender para o lado brasileiro. Em 11 de julho, o Brasil vence a batalha naval do Riachuelo e, em setembro, reconquista a cidade de Uruguaiana.
O exército de. Sola no López se mantém na defensiva. Entre 1867 e 1868, os aliados vencem várias batalhas [Itororó, Curupaiti, Humaitá]. Os exércitos da Tríplice Aliança entram em Assunção, a capital paraguaia, em 1869. López foge para os Andes, sendo morto no Cerro Corá em 1870. Até 1876, o Paraguai permanece ocupado por tropas, brasileiras.
A brutalidade inaudita da guerra fez com que dois terços da população do país fossem dizimados. Segundo o historiador Julio José Chiavenato, autor do livro Genocídio americano: a guerra do Paraguai 99,5% da população masculina do Paraguai foi exterminada. Isso, somado à perda de territórios, determinaria um processo de decadência econômica que dura até os dias de hoje.
REVISTA: CULT nº. 4
DATA: novembro de 1997
PÁGINA: 46-51