História Vivida | José Bonifácio
Bonifácio. Esboço para uma nova biografia
Para além do prosaico personagem ensinado nas escolas, existe um José Bonifácio de múltiplos talentos e vivências, com uma vida plena de acontecimentos notáveis que o jogaram alternadamente no centro e na periferia do poder nos tempos do Império.
A fase mais conhecida da vida José Bonifácio de Andrada e silva (1763-1838), na qual se baseia o consagrado epíteto de “ Patriarca da Independência”, começa quando ele já completou 56 anos, e dura apenas de 1819 a 1823. É bem verdade que estes quatro anos foram repletos de acontecimentos cruciais. Também é verdade que suas fontes são mais conhecidas e, em sua maioria, estão disponíveis no Brasil. Mas, ainda assim, o intervalo é excessivamente breve para resumir uma vida tão longa, intensa e multifacetada quanto a dele.
A ligação direta que se estabeleceu entre a biografia de José Bonifácio e a história brasileira vai muito além da sua participação no processo de Independência, e abrange um espaço de tempo muito maior. Agora pela primeira vez, documentos inéditos, alguns inteiramente desconhecidos, vêm iluminar um dos momentos mais sombrios da sua trajetória: o exílio em Bordeaux, na França. Durante seis anos, o ex- superministro de D. Pedro I foi investigado e controlado, passo a passo, pelas autoridades francesas.
Caído em desgraça no império que ajudara a fundar, tornou-se um incômodo internacional, sobretudo enquanto a independência brasileira não era reconhecida pelas potências européias. Atacado pela imprensa estrangeira, viveu na condição de revolucionário perigoso, impedido de freqüentar cidades portuárias e proibido de visitar Paris.
Esses novos documentos foram descobertos pela equipe responsável pelo projeto “José Bonifácio: Obra Completa”. Iniciado em 2005, o projeto reúne historiadores, paleógrafos, consultores em catalogação e informática, editores, revisores, além de contar como apoio de museus e arquivos nacionais e internacionais. A meta é levantar e catalogar toda a obra de Bonifácio, e a documentação a seu respeito, para futura disponibilização pública em um site. Isso permitirá que o público, especializado ou não, tenha livre acesso à iconografia da época, à imagem digital dos documentos, e ainda a transcrições paleográficas dos textos, versões atualizadas, cronologias, genealogias, mapas etc.
A reunião permitirá saber mais sobre o jovem, natural de. Santos, província de São Paulo, que nasceu em 1763, numa família de poderosos comerciantes de escravos (entre outras “mercadorias”) e chegou à condição de autoridade científica internacionalmente respeitada. Ou entender melhor os laços que uniram, por décadas, esse grande mineralogista à burocracia monárquica portuguesa. Ou compreender as expressões literárias de seu poderoso temperamento. Ou, ainda, descobrir de onde vieram as imprevistas habilidades militares do cientista e funcionário público que, entre 1807 e 1811, durante a invasão francesa a Portugal, tornou-se um líder vitorioso das tropas da resistência (feito capaz de colocá-lo na posição de representante máximo da coroa em solo português).
Uma vida que parasse por aí já justificaria anos de pesquisa. Porém, uma vez aposentado, José Bonifácio retomou ao Brasil e deu início a sua vida pública entre nós. Nesse momento, surgiu um homem de Estado não apenas no sentido de alguém apto a trabalhar pelo progresso científico do império, ou a aplicar seus conhecimentos em políticas governamentais, ou mesmo a empreender ações militares. A partir de então, José Bonifácio apresentou-se como alguém capaz de formular propostas para o Brasil. Primeiro na condição de vice-presidente de província, instruindo os deputados de São Paulo que iriam a Lisboa tomar parte nas Cortes, o órgão legislativo de então. Em seguida, como um dos pilares do processo de Independência, e decodificador do “DNA político” da nação.
Sua trajetória, contudo, quando analisada em detalhe, revela que o famoso epíteto a ele aplicado não passa de uma idealização, por um lado, e de uma redução, por outro. Bonifácio se encaixaria em vários papéis: ministro autoritário, anti-republicano, anti-nobreza, reacionário, reformista ao mesmo tempo ousado e sensato das estruturas sócio-econômicas em vigor, entre elas o regime escravocrata. A dificuldade em isolar uma imagem do José Bonifácio político decorre, sobretudo, da independência com que ele se posicionava no cenário a seu redor. Mais do que um representante deste ou daquele segmento social, ele pensava como alguém que transcendia alianças pessoais ou circunstanciais. Tamanha autonomia, não obstante, terminaria por corroer seus apoios de todos os lados do espectro político. Renunciando ao mandato em julho de 1823, sofreu, em setembro, a humilhação do exílio.
Uma trajetória biográfica como essa não poderia terminar sem um epílogo digno de sua complexidade. O filho da elite comercial de uma província da colônia ocupou, como último suspiro na vida pública, a função de tutor de um membro da família real, ninguém menos que Dom Pedro II, aos seis anos de idade. Para o posto, José Bonifácio foi nomeado pelo mesmo homem que o exilara anos antes, e que o mandara espionar durante todo o exílio: o pai da criança, Dom Pedro I. O ex-inimigo do Estado educa – e protege – o futuro imperador.
Ele duraria pouco no cargo, entretanto. Destituído por seus adversários, preferiu retirar-se para a ilha de Paquetá, no litoral carioca, onde morreu em 1838 , aos 75 anos.
REVISTA: História Viva – Ano III – n° 31.
DATA: maio de 2006
PÁGINA: 43-45