Gazeta Mercantil | Vista do Rio
JORNAL: Gazeta Mercantil – São Paulo
DATA: 02 a 04 de abril de 2004.
SEÇÃO: Fim de semana/livros
PÁGINA: 03
Afinal, o Rio real
No romance “Vista do Rio” pulsa uma estranha agonia.
|| Por Marcius Cortez de São Paulo
É interessante: O “Vista do Rio”, de Rodrigo Lacerda, recentemente lançado pela Cosaic & Naify, um romance sem tensão, no entanto, ele pulsa uma estranha agonia. Trata-se de um relato da amizade entre dois cariocas, Marco e Virgilio, tendo como pano de fundo, a sua cidade natal. Como enredo em si, ele praticamente inexiste. Contudo, à medida que avançamos na sua leitura, vamos percebendo que sua ficção se alimenta de outros ingredientes que não aqueles tradicionais. Intencionalmente, o autor recusa privilegiar certos chavões que recheiam a construção do drama, recusa criar o clima para dali tirar um desfecho surpreendente, recusa pasteurizar o suspense só porque se convencionou uma unanimidade em torno da necessidade de ter que haver suspense. Sem esses componentes, que, normalmente, esquentam a fluência de um romance, você pode pensar que “Vista do Rio” descamba pelo experimentalismo e se torna um livro sem pé nem cabeça. Ledo engano, “Vista do Rio”, apesar de misturar os tempos – uma hora, o narrador tem sete, outra hora, tem vinte e três anos -, apesar de tomar certas liberdades – de repente um dos seus trechos aparece narrado na primeira pessoa por um personagem que não é o personagem-narrador – apesar de tudo isso, o livro tem começo/meio/fim, escritos numa linguagem que preza a clareza, mas, que, por outro lado, mostra personalidade na seleção dos temas e no tom que escolheu para dizer as coisas. Julgo esta obra de Rodrigo Lacerda um trabalho singular, cujo valor é o seu equilíbrio em dosar a elegância da narrativa, sem cair no academicismo, com o desprendimento de um coloquial que não se perde na vulgaridade que abunda em muitos textos da contracultura.
Os seus personagens são modernos. Marco e Virgilio são sujeitos que não têm medo de usar a si mesmos e, por isso, não temem se experimentar, para aprender alguma coisa com o risco, com a incerteza. Atiram-se no labirinto da vida, desconfiados do saber dos intelectuais, das ortodoxias religiosas, das embromações dos arautos da auto ajuda, das verdades partidárias ou grupais, das pregações dos gurus de araque. Jovens remediados, moram na zona sul do Rio, numa metáfora denominada Edifício “Estrela de Ipanema”. Marco e Virgilio são, portanto, meninos de berço, gente de bem, cariocas da gema. Estudam, crescem, trabalham, um se diz poeta, o outro é diretor e autor teatral. Casam-se, descasam-se, praticam o amor livre, tomam seus porres. fumam seus baseados, enquanto moem o beija-flor no liquidificador, jogam futebol no subsolo do prédio, voam de asa-delta e se perdem em provocações recíprocas.
Os seus catorze capítulos, na maioria dos casos, se desenvolvem em “pílulas” (ou seriam “tijolos”?). intercalados por asterisco. Composto em fragmentos, “Vista do Rio” não se presta a maniqueísmos, a julgar ou a defender ou a exaltar valores. Aprecio seu anti-moralismo, me identifico com o movimento dos seus personagens, também almejo me mostrar como sou, também almejo me manter fiel ao olhar desconfiado para o bom mocismo de plantão e para o hipócrita jogo de se preservar as aparências.
Rodrigo Lacerda, a meu ver, calcula bem os limites da sua linguagem fragmentada. Ele a sabe fazer literária – insiste por diversas vezes a descrever os cantos e os ambientes do prédio “Estrela de Ipanema” não cedendo ao clipe, consciente de que os seus fragmentos servem ao fim concebido pelo autor.
Há pouco, li um romance de um talentoso construtor de ficção, o português Antonio Lobo Antunes. Porém de tanto esmerilhar a confecção da obra, “O Manual dos Inquisidores” patina no vazio e tomba num sonífero abismo. Muita tinta já correu das penas dos críticos literários na tentativa de desvendar a carpintaria da arte ficcional. Ler os seus textos é embarcar com destino a uma viagem por um oceano de especulações, onde se malha o brilho das abstrações, as quais têm como função montar esta matéria tão apreciada por uns e tão desprezada por outros, que é a Teoria da Literatura. É impossível, numa resenha de jornal, discutir o assunto na amplitude que ele merece, mas, tenho cá comigo, o palpite de que o romance, exatamente por orbitar em tomo de um cosmo infinito, porta uma caixa cheia de poderes enigmáticos, capazes de fazer os mandrakes das nossas universidades, donos de racionais maletas de mágicas, se sentirem uns paspalhões.
Um romance pode ser muito bem construído, mas pode ser como “O Belo Antônio”. Por outro lado, um romance que tenha uma construção desprovida de qualquer pretensão, pode calar fundo pela força de sua história, dos seus personagens, do seu conteúdo. No primeiro caso, já citei “O Manual dos Inquisidores” do Lobo Antunes. No segundo, me ocorre “O Grande Gatsby”, de Scott Fitzgerald, que é fogo puro, envolto numa taça de champanhe envenenado.
Quanto ao “Vista do Rio”, suponho que ele contempla estas duas facetas. A mim, sua leitura fluiu e ao encerrar a sua última página, vi que estava diante de um exemplo de ficção que coroa o nada do nosso mundo em frangalhos.
Seus derradeiros capítulos me fazem lembrar o gigantesco Zepellin de um dos quadros da série “Duas Cidades” (Recife-Olinda) do pintor João Câmara. Uma metáfora bem radical, pairando no alto, enquanto lá embaixo, corre a paisagem que o homem poluiu e estragou. No caso do quarto romance de Rodrigo Lacerda é até mais dramático. A paisagem de dentro, o interior dos seus personagens se coloriu de cinza: “A barriga se contorceu, a boca se abriu, um jato quente e azedo pulou pra fora, me fazendo tremer com força. Minha alma saiu vomitada, junto com a minha infância, com a rejeição da minha mãe e a distancia do meu pai, junto com a bebida, com a perna do mendigo, a maconha e a porra da poesia, alma esguichada pra todo lado, junto com a inveja do Virgilio, e o medo, junto com a História, a vergonha, a carne moída do beija-flor, a curra do filho da empregada e o veneno daquela rampa(…) Suando frio, esgotado, fiquei olhando o meu vomito, o abismo.”
Ruínas de fora. ruínas de dentro. Ipanema em Tupi quer dizer água podre. Aids, frustrações, desespero em plena “cidade maravilhosa”. O tempo apodrecendo. Tudo é motivo para se perguntar, em letras garrafais: onde está escrito que o papel do homem na Terra é ser feliz?.
Romancista, autor de “O Depurado e as Seriguelas.