Gazeta do Povo | A dinâmica das larvas
JORNAL: Gazeta do Povo – Caderno G – Curitiba
DATA: 23 de setembro de 1996
Retrato do escritor quando jovem
Rodrigo Lacerda lança dois romances e firma-se como uma das promessas da literatura brasileira
|| Por José Carlos Fernandes
O carioca Rodrigo Lacerda por certo vai se lembrar dos dois últimos anos de forma muitos especial. Aos 27 anos de idade, historiador, ex mestrando, natural de uma família ligada às editoras Nova Aguilar (onde trabalha) e Nova Fronteira, este neto de Carlos Lacerda colocou um volume embaixo do braço e saiu atrás de uma editora pequena, disposta publicar seu primeiro livro. Tinha nas mãos um trabalho de que gostava, resultado de um exercício acadêmico transformado e ao longo de 1995, Era O Mistério do Leão Rampante (Ateliê Editorial, 90 páginas), uma novela ambientada no século 17 e com Shakespeare entre seus personagens. A intuição do moço estava certa. Bem recebido pela crítica especializada, acabou sendo indicado para o Prêmio Jabuti de Literatura Brasileira 96 e ficou entre os três primeiros colocados, ao lado de ninguém menos do que Carlos Heitor Cony e Ivan Ângelo. Mal havia se acostumado com a faixa e coroa de escritor, já tinha em mãos uma segunda obra, A Dinâmica das Larvas (Editora Nova Fronteira, 180 páginas, R$ 17), livro em que exorciza os fantasmas do mercado editorial, meio em que vive, usando do consagrado gênero da farsa. Novamente, com humor refinado e escrita generosa, o jovem autor chama atenção do público e dos críticos. Sabe-se que Rodrigo Lacerda é nome para se guardar. Em entrevista ao Caderno G, o escritor falou destes dias de virada e do que espera do futuro.
Você balizou O Mistério do Leão Rompante de “uma tese de mestrado bufa”…
Eu estava na época fazendo uma tese de mestrado sobre literatura renascentista inglesa e Shakespeare. Minha orientadora encomendou um texto no qual aparecesse tudo o que eu queria que estivesse contido na minha monografia, mas em forma de ficção. Foi desta tarefa que nasceu O Mistério do Leão Rompante, um livro sobre a nova concepção de indivíduo expressa na literatura da Renascença Inglesa. Eu sempre digo que esta professora foi a única responsável por eu ter largado o mestrado (risos). Depois que escrevi o livro de ficção acabei abandonando o mestrado.
A Dinâmica das Larvas e O Mistério… são livros que surpreendem pela maturidade do texto, principalmente em se tratando de um autor bastante novo e estreante. Fale sobre suas tentativas e erros.
Eu já havia tentado escrever ficção antes, mas nunca ficava satisfeito com os resultados. Com o Leão Rampante pela primeira vez aproveito o trabalho final. Frente a minhas outras produções, nunca tive esta certeza. Há também o detalhe de que escrevi o livro em 20 dias. Era este o prazo que eu tinha para entregar o trabalho a minha orientadora. Depois fiquei mexendo na história ao longo de um ano.
Rodrigo Lacerda se orgulha ser um autor de frases longas e bem construídas…
Eu me vejo ligado a uma tradição de escrita mais barroca. Isto se revela sobretudo em O Mistério do Leão Rompante, trabalho em que me propus construir uma linguagem e um ambiente do século 17. Era um terreno perfeito para eu deixar fluir o meu estilo natural de escrever. Quando falo em estilo barroco, isto não significa que seja complicado ou intrincado. Uso sim frases longas, com palavras um pouco alheias ao vocabulário usual, parágrafos mais compridos, blocos maiores de pensamento. Não se trata de uma opção de escrita propriamente dita. Eu escrevo assim porque escrevo. Ponto final.
O curioso é que muitos autores da nova geração seguem a linguagem enxuta do José Rubem Fonseca. Você fugiu à regra?
Tenho este estilo mais rebuscado de escrever, sobretudo se comparado a uma prosa de influência americana, de frases curtas, linguagem mais seca, em que se caracteriza os personagens de forma ágil. Em todos os sentidos esta corrente é bastante contida e precisa. Em contrapartida eu alcanço a precisão não por intermédio da concisão, mas pela abundância. Eles optam por um caminho e eu opto por outro.
E você enxerga aí uma nova tendência?
Acredito ser esta uma vertente que existe não só entre os autores iniciantes, mas na literatura brasileira em geral e mesmo na literatura universal. Ao mesmo tempo que temos no Brasil um autor como o Rubem Fonseca, mentor de um romance urbano, policial enxuto, seco, de ação rápida, termos um João Ubaldo Ribeiro, de prosa mais gorda, abundante, que não poupa adjetivos e é menos contido paradigmas aos quais a gente se afilia.
Logo em seguida ao lançamento de O Mistério do Leão Rompante você surgiu com A Dinâmica das Larvas. O segundo romance lhe foi mais ou menos custoso?
Foi mais difícil. A grande questão que eu me colocava era como conseguiria não empobrecer minha linguagem, não mudar meu jeito de escrever e ao mesmo produzir uma obra contemporânea. Eu me perguntava como é que seria rebuscado e ágil ao mesmo tempo, rico do ponto de vista de linguagem e verossímil do prisma da fala da gente dos dias de hoje. Foi um grande desafio.
A Dinâmica das Larvas trata de um mundo que você conhece bastante bem, o mercado editorial. Foi este o motivo da escolha?
Quando se tem 19 anos de idade. faz-se vestibular e em caso de erro vai haver ainda tempo para voltar atrás. Estou com 27 anos de idade, tenho uma filha e fiz uma escolha para longo prazo. Se eu estiver enganado vai ser mais difícil consertar. Decidi ser escritor e também editor. Trabalho na Editora Nova Aguilar. Volta e meia ficava me imaginando aos 50 anos de idade, descobrindo que fiz escolhas equivocados. Em resposta a estas angústias, A Dinâmica das Larvas surgiu como um exorcismo de todos os fantasmas da profissão de editor.
Este editor cinquentão e desiludido, inclusive, é um dos personagem do livro…
Sim, há um editor universitário e outro da iniciativa privada, assim como uma agente literária e um escritor. Foi o modo que encontrei para dar os mais diversos ângulos deste mundo que eu escolhi para minha vida profissional. Eu sou todos estes personagens. As pessoas me dizem : – Pó, é um romam à clef, estes personagens representam indivíduos que existem e que estão no mercado. Quem são eles? Mas minha resposta é não. O que eu quis foi construir personagens arquetípicos e não personagens reais. Minha intenção foi a de mapear os dilemas que eu vejo existir num mercado que é muito sui generis.
E que certamente lhe fascina por algum aspecto em particular…
O mercado editorial convive rigorosamente na fronteira entre a arte e a indústria. Em geral é uma coisa ou outra, mas é possível tangenciar estes dois universos. Para mim é ai que reside a riqueza dele, ainda que tal situação implique numa série de dilemas.O personagem do editor universitário por exemplo, não agüenta mais ler teses. Ele gostaria de abandonar a editora da universidade e só publicar livros de faroeste. O editor literário só publica boa literatura, mas não agüenta mais correr atrás de dinheiro, pois não tem respaldo de nenhuma instituição. Ele está no salve-se quem puder do mercado. Nós, editores, estamos sempre nesta fronteira.
A Dinâmica das Larvas tem como subtítulo “comédia trágico – farsesca”. O humor, ainda que sutil é a tônica da obra. Por que se pautou pela estrutura mesma da farsa?
Minha maneira de escrever puxa para o humor. E deixo registrado que não se tratar de um texto mais fácil de ler ou propriamente uma literatura menor. Se eu produzo algo que planta uma lágrima nos olhos do leitor ou se meu texto bota um sorriso no rosto dele, não hierarquizo a lágrima ou o riso como um o mais nobre e o outro mais elevado. O que é mais válido, um escritor torturado ou um escritor solar? Molière é pior do que Sófocles? As tragédias de Shakespeare são melhores dos que as comédias que deixou? Não sei, acho que se equivalem. Optei pela comédia farsesca, com todos os seus recursos e elementos, ainda que os enxugando. A farsa clássica tem cenas de pastelão de acrobacia, mímica, piruetas corporais e por aí afora. A comédia farsesca não. Assemelha-se à farsa, mas é um tanto contida, dona de um humor mais sofisticado. No que se refere ao quoeficiente trágico, ele fica por conta dos meus fantasmas e à idéia de que uma vida não pode ser desperdiçada.
Uma comédia trágico – farsesca
A inesperada premiação de um novato ao Prêmio Jabuti de Melhor Romance se tornou um motivo para conferir O Mistério do Leão Rampante, de Rodrigo Lacerda. No ano em que Carlos Heitor Cony lançou Quase Memória (e parecia não ter mais para ninguém), um jovem autor conseguiu chamar atenção sobre seu trabalho. Palmas para ele.
Agora há ainda mais um motivo para ficar de olho no estreante. A Dinâmica das Larvas, seu novo trabalho, em nada se parece à novela do século 17 apresentada em O Mistério…, trama bem-armada que descreve uma confusão envolvendo Shakespeare, um ator, uma jovem e sua família desastrada. No segundo título, Lacerda aparece com uma história passada s nós dias atuais. E recorre a um gênero do passado para contá-la, a comédia farsesca.
Tem-se, em alguns momentos, a impressão -de estar acompanhando um espetáculo teatral. Tudo se passa numa única noite. O solo dos quatro personagens se intercalam e ao final de cada “ato” aparece uma surpresa reservada aos leitor. Surpresa mesmo Lacerda, que em nenhum momento descamba para o escracho, demonstra que sabe temperar as emoções, o que denuncia sua mão de escritor. Resultado: uma vez iniciado, impossível deixar Dinâmica para depois.
Ao recurso da farsa some-se uma história em que o mercado editorial é o assunto.Caricatos, aparecem pouco a pouco quatro personagens, heróis sem nenhum caráter. De nenhum deles se terá pena. Nem ódio. Talvez simpatia secreta. Vai-se mesmo é rir dos métodos que empregam. O editor universitário! o editor Comercial, a organizadora de concursos literários e o novo escritor (que não é tão “novo” assim) desfilam pela trama conduzidos pelo estilo contido e perspicaz de Rodrigo Lacerda. Sim, o que se percebe logo nas primeiras linhas é que o criador destas figuras impagáveis é um observador nato. Se assim não o fosse, como explicar as distorções é os exageros que faz, aqui nunca usados de forma banal, mas com a perícia de quem conhece o semelhante a ponto de ver nele o monstro e o anjo! Na mesma cabeça tronco e membros, lembre-se.
À capacidade de bem construir personagens, A Dinâmica das Larvas revela maestria também na criação de situações concretas. O inverossímil não é absurdo, a rigor. Chama atenção, por exemplo, que toda a aparente insanidade do personagem escritor venha recoberta por situações tão surrealistas como coerentes. Nada mal, já que é função do tal homem convencer de que as larvas estão mais próximas da perfeição do que os seres humanos. Se por motivos óbvios não consegue seu intento, por outro, não desvia olhar de quem o observa e consegue, com jeito, angariar alguma complacência para com seu estapafúrdio ideário.Uma farsa enfim, com todas as letras.