Folha de S. Paulo | Vista do Rio
JORNAL: Folha de São Paulo
DATA: 29 de fevereiro de 2004.
SEÇÃO: Caderno Mais
PÁGINA: 17
A Simetria perfeita
Oscilando entre realismo e caricatura, “Vista do Rio”, de Rodrigo Lacerda, afirma o autor como um dos mais instigantes talentos da jovem literatura brasileira.
|| Por Wander Melo Miranda
“Água podre” A natureza da visão submete-se ao que o Estrela de Ipanema representa para Marco Aurélio e Virgílio, o amigo que vem a adoecer -”todo o bairro de Ipanema nasceu à luz do prédio onde morávamos. (…) A cidade e o mundo vieram depois”.
A história de ambos os jovens, matéria do narrado, não se diferencia da história da alta burguesia carioca de que fazem parte seus vizinhos – “Ipanema, em tupi, quer dizer água podre”, diz Virgílio na cama do hospital. O mesmo Virgílio que se distraía antes torturando pequenos animais e, no primeiro capítulo do livro, junto com Marco Aurélio, diverte-se ao triturar um beija-flor vivo num liquidificador, cena que é narrada com um prazer sádico incomum.
Ou então que se espanta ao ver o motorista da casa tendo relações sexuais com o próprio filho, Miguel, e depois se torna amante do adolescente violentado.
A violência perpassa as relações pessoais e sociais, com uma carga de indiferença e cinismo que a linguagem narrativa expressa à sua maneira, apesar de o narrador tentar juízos e argumentações dos quais ele mesmo não se sente muito seguro. Para quem contar ou como contar, já que a “modernidade viabilizava o fim da comunhão de sentimentos” como sua tarefa primordial para tomar o homem “livre”? O narrador debate-se entre ser “caricaturista” ou “realista suave”, segundo suas palavras. Num caso, a deformação hiperbólica, que o episódio do beija-flor sugere; no outro, um certo distanciamento, como exprime a cena do vôo de asa-delta.
O fim de Virgílio coincide, no texto, com a decadência do Estrela de Ipanema -”‘apodreceu tudo lá dentro’, explicou o porteiro, com a maior naturalidade”. A narrativa reabre-se com uma nova imagem visual, que deixa ver a natureza exuberante de praias e morros, estes últimos comparados ambiguamente pela epígrafe a um “farto seio de pedra”. Narra-se, então, o primeiro vôo de asa-delta feito por Virgílio, no verão de 1987. O acesso difícil ao lugar do salto proporciona, em virtude da beleza de cartão-postal da cidade vista de cima, uma compreensão mais próxima do que ela representa.
A doença e a cidade. Nas palavras de Virgílio, em conversa com Marco Aurélio: “Toda a cidade tem buracos negros, onde a violência e a criminalidade barram a entrada da lei. O Rio tem isso, claro mas é uma das poucas cidades on-de também revolta – pacífica é capaz de criar áreas e códigos alternativos. A beleza natural cria nuanças inesperadas na divisão do espaço social”. Virgílio, enfim, salta e desliza tranqüilo no ar, como a arrematar de outra maneira a história de sua vida. Marco Aurélio permanece na plataforma de decolagem, acometido pela náusea e pela angústia de se saber à beira de um outro abismo, onde a arte, a vida e a felicidade se confundem, sem um ponto em comum, como as pequenas figuras vistas do alto.
Terminado o livro, o realista suave se encontra com o caricaturista, “fura túneis insuspeitados” e “pula sobre montanhas”, como adianta a epígrafe inicial do romance. Novos ângulos, outras superfícies: doença e cidade se abrem como linguagem, como fala de um saber até então insuspeitado.
Dessa forma, após a estréia auspiciosa de “O Mistério do Leão Rampante” (1995) e da experiência bem-sucedida de “A Dinâmica das Larvas” (1996), Rodrigo Lacerda alcança o nível dos realizadores que efetivamente contam e se afirma como um dos mais instigantes talentos da jovem literatura feita no Brasil.