Folha de S. Paulo | Aquela Canção
SITE: www.folha.uol.com.br/fsp/ilustrada
DATA: 23 de dezembro de 2005
Livro “Aquela Canção” apresenta, com a ajuda de um CD, 12 histórias inspiradas em 12 clássicos da música brasileira.
Compilação exibe os vínculos tênues entre os sons e as palavras. Por Carlos Rennó
De variados graus e nuances de sutileza ou evidência se revestem as formas de relação entre conto e canção em “Aquela Canção”, original livro com CD encartado trazendo 12 contos e as 12 músicas -clássicas, na maioria- em que foram inspirados.
Um conto-poema do poeta Eucanaã Ferraz, dividido em tercetos, soa como o desenvolvimento de um decassílabo de “Carinhoso” (de Pixinguinha e João de Barro; com Marisa Monte, no CD), o “Vem sentir o calor dos lábios meus”. Clamor que ecoa no fundo da atmosfera de espera e desejo erguida em “Vem”.
Em “Menina dos Olhos”, todos os versos e todo o clima de “Pela Luz dos Olhos Teus” (de Vinicius de Moraes; com Miúcha e Daniel Jobim) se aplicam à história de amor infantil envolvendo um garoto buftálmico criada por outro poeta, o autonomeado Glauco Mattoso, hoje cego. Texto e música-tema em casamento perfeito.
Mesma correspondência não se observa entre “É Doce. Morrer no Mar” (de Dorival Caymmi e Jorge Amado, com alivia Hime) e a história homônima do angolano José Eduardo Agualusa. Na sua culminância, um duplo assassinato passional, seguido de suicídio, nem um pouco caymmlanos.
Ao contrário, tudo é propriedade e pertinência entre “Bárbara no Inverno”, de Milton Hatoum, e “Atrás da Porta” (de Francis Hime e Chico Buarque, com Zélia Duncan). A oblíqua relação de ambos participa da profundidade e complexidade do conto, sobre a vida amorosa de um casal exilado em Paris durante a ditadura.
Vinculações tênues, implícitas, não óbvias, entre uma forma artística e outra caracterizam também outros textos, nos quais a canção fica como que sugerida como trilha poética musical a ilustrar sutilmente o narrado.
Exemplos: o caso de (fim de) amor elegantemente contado por Rodrigo Lacerda em “Entre Nós”, inspirado em “Corcovado” (de Tom Jobim; com o próprio); a cena do casamento decadente de “A Última Cartada”, de Livia Garcia-Roza, partindo de “Anoiteceu” (de Francis Hime e Vinicius de Moraes, na voz comovente de Milton Nascimento); o tórrido romance com um morador de rua em “A Exata Distância da Vulva ao Coração”, de Marçal Aquino, relacionado com “Último Desejo” (de Noel Rosa, com alivia Byington); a memória de um namoro remoto em “Ciranda”, de Paulo Rodrigues, sobre “Juazeiro” (de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, com Gilberto Gil).
Por outro lado, há enredos e quadros criativamente construídos dos cenários das canções. Caso de “Zezé Sussuarana”, de Beatriz Bracher, baseado em “Sussuarana” (de Heckel Tavares e Luiz Peixoto, com Maria Bethânia e Nana Caymmi). E de “Duas Canções”, de Moacyr Sc1iar, em “No Rancho Fundo” (de Ary Barroso e Lamartine Babo, com Elizeth Cardoso) e em “Maringá” (de Joubert de Carvalho), incorporando a famosa musa homônima.
Como nestes, em “Circo Rubião”, de Adriana Lisboa, a canção “Menina, Amanhã de Manhã” (de Tom Zé e Perna, com Mônica Salmaso) marca presença forte na trama. Nesse sentido, “Se Meu Mundo Cair”, de Luis Fernando Veríssimo, excede. Aqui o narrador se dirige ao compositor Zé Miguel Wisnik, da música de mesmo título (com Eveline Hecker), para contar a transformação que esta causou na sua mulher e no seu casamento.
Carlos Rennó é letrista e jornalista, organizador de “Gilberto Gil Todas as Letras” (Companhia das Letras) e autor de “Cole Porter Canções, Versões” (Paulicéia)
Aquela Canção – 12 Contos para 12 Músicas
Autores: Lívia Garcia – Roza, Eucanaã Ferraz, Beatriz Bracher, Paulo Rodrigues, Moacyr Scliar, Marçal Aquino, José Eduardo Agualusa, Rodrigo Lacerda, Glauco Mattoso, Milton Hatoum, Luis FernandoVerissimo, Adriana Lisboa.
Editora: Publifolha
Quanto: 39,90 (176 págs.)