Folha de Londrina | Vista do Rio

JORNAL: Folha de Londrina – Londrina
DATA: 07 de março de 2004.
SEÇÃO: Folha 2
PÁGINA: 02

Sangue de beija-flor

“Vista do Rio”, novo livro do escritor carioca Rodrigo Lacerda, entra no túnel da angústia que a amizade pode iluminar
|| Por Marcos Losnak

O início de um livro – suas primeiras páginas – pode ser decisivo aos olhos do leitor. Pode produzir um efeito sedutor impulsionando a leitura como vento forte. Pode também dar origem a um enfado, como se jogasse areia na engrenagem da leitura.

Em seu novo livro, “Vista do o Rio”, o escritor carioca Rodrigo Lacerda optou por criar um verdadeiro vendaval nas primeiras páginas. Descrevendo uma imagem carregada de significados e de forte impacto, abre as portas do romance para que o leitor siga em frente. Traça, de certa forma uma espécie de síntese inconsciente da história a ser narrada.

A cena descreve dois garotos exercitando o característica sadismo da infância. Um beija-flor, pássaro símbolo da leveza e da delicadeza, é colocado dentro de um liquidificador. A experiência consiste em ligar o motor e ver quanto tempo o bichinho consegue ficar voando no interior do copo fugindo das afiadas lâminas. No desespero dos olhos da pequena ave reside o sentido do gesto. O final da experiência reside, fatalmente, na vulnerabilidade da vida, no fim do corpo.

Lançado pela Cosac & Naify Edições, “Vista do Rio” narra a história de dois amigos de infância, Virgílio e Marco. Após muito tempo sem se verem, reencontram-se no leito de um hospital. Virgilio está internado devido ao agravamento da debilidade de seu corpo causado pelo vírus HIV. Marco está como único acompanhante capaz de ofertar alguma afetividade sem hipocrisia.

O romance, narrado por Marco, alterna a existência dos amigos como seres independentes bem como a intersecção, de suas vidas. Diferentes um do outro, funcionam tanto como antagonistas como amigos íntimos, unidos por uma relação em busca do esclarecimento. Frustrações e angústias tornam-se os elementos constantes no decorrer da narrativa.

Um dos detalhes presentes em “Vista do Rio” está em Rodrigo Lacerda inserir no romance outros dois personagens não convencionais: a cidade do Rio de Janeiro e um edifício chamado Estrela de Ipanema. O edifício personifica a década de 60 e suas alterações ao longos dos anos representam a transformação do próprio Rio de Janeiro. O lugar onde Virgílio e Marco passaram a infância e
a adolescência permanece gravado em suas memórias como tatuagem de dramas e descobertas.

Rodrigo Lacerda, nascido em 1969, integra uma nova geração de autores brasileiros que vem renovando a prosa. Não com experimentações carregadas de radical idade, mas procurando dentro do milenar ato de narrar histórias de maneira original e sedutora mesmo que pontuadas pela fragmentação. Autor de obras como “O Mistério do Leão Rampante (Ateliê Editorial, 1995), “A Dinâmica das Larvas” (Editora Nova Fronteira, 1996) e “Tripé” (Ateliê Editorial, 1999), demonstra estar bem próximo da maturidade narrativa.

Ler “Vista do Rio” é penetrar por um ensolarado túnel de frustrações, o recorte das últimas décadas a partir do ponto de vista de um homem desencaixado do senso comum, do imediato e das consideradas normalidades. Sozinho em seu canto, percebe que seu lugar nunca será aquele que se apresenta à sua frente, mas um outro extensivamente oculto. A amizade como fonte de verdade. Onde a vida torna-se um beija-flor, preso num liquidificador ligado. E a possível essência se abriga no olho da pequena ave diante de um eterno vôo sustentado pela imagem da morte.
A pasta de sangue ou a putrefação da carne é mais que conhecida., mas a ditadura da felicidade pode ser pior que o próprio fim. Afinal, “onde está escrito que o papel do homem na terra é ser feliz?”

TEXTO NO RODAPÉ DA FOTO: Integrante de uma nova geração de autores, Rodrigo Lacerda narra histórias de maneira original e sedutora mesmo que pontuadas pela fragmentação.

FRAGMENTO DE “VISTA DO RIO” de Rodrigo Lacerda.
“Há quem diga que a vida vale não pelo que se vive, mas pela forma como é vivida. Sendo assim, uma biografia minimalista como aquele eu vinha construindo poderia ser de grande profundidade. O sedentário poderia ter uma trajetória existencial tão rica quanto o aventureiro, o casto e o devasso idem, o pintor e o cego idem idem, e por aí vai. Embora achasse esta uma bela idéia e quisesse muito aplicá-la na vida, não conseguia sentir que fosse verdadeira. Para mim, era uma racionalização atraente, mas um tanto falsa. Mesmo usando, constrangido por circunstâncias externas e internas, a máscara de pessoa equilibrada eminentemente contemplativa sentia latente uma ambição desmedida que me humilhava, uma inquietação, uma ânsia de agir, de fazer, de construir um futuro cheio, de vida, de experiências, de permanente e simultânea excelência artístico – ético – sexual ou sexo – ético – artístico, ou, se tudo desse errado, pelo menos ético – alguma coisa. Diante de tanta cobrança, diante de tantas limitações, qualquer possibilidade de pacificação, é claro, ficava completamente afastada Era a minha angústia. ”