Época | Vista do Rio

Revista Época – São Paulo
DATA: 08 de março de 2004.
SEÇÃO: Livros
PÁGINA: 90 a 92



O Rio em meios – tons

Num romance sutil, Rodrigo Lacerda aborda a amizade com um pano de fundo carioca.
|| Luís Antonio Giron.

O escritor carioca Rodrigo Lacerda, de 34 anos, atinge a maioridade artística em seu primeiro romance, Vista do Rio, quarto volume de ficção. O autor não concedeu a efeitos previsíveis ou a sugestões de editores devotados aos best-sellers. Seu novo livro conta uma história sólida e poética em tomo da amizade de dois rapazes, tendo como cenário o Rio de Janeiro dos anos 80 e 90. Está certo que Lacerda leva a vantagem de ser ele próprio um editor de exceção, à frente de uma das melhores coleções de nova literatura brasileira. E não se fez de rogado ao lançar seu livro pela casa em que trabalha em São Paulo, até porque não encontraria melhor embalagem.

O design da edição de Vista do Rio é excelente, e a matéria narrativa está páginas à frente do que se faz hoje no Brasil. Ainda que precoce, a atividade literária de Lacerda tem sido bem tramada, apesar de alguns tropeços juvenis e desvios de rota. Em 1995, surpreendeu na estréia, com O Mistério do Leão Rampante, novela histórica povoada de alusões em. ditas e seqüências cômicas. O segundo livro, A Dinâmica das Larvas, de 1996, refletia dilemas intelectuais autobiográficas. O problema residia na ausência de entrecho e no abuso da polêmica, tudo organizado em sentenças tão rápidas quanto os insetos do título.

Em Vista do Rio, porém, ele corrige a rota trilhada desde Leão Rampante e promove uma auto crítica. O romance consegue tanto atrair o leitor como não abdicar da densidade. “Sempre quis ser um realista suave” , afirma Marco Aurélio, o narra dor da história. A frase pode servir como definição da obra, que se enquadra na série atual do ultra-realismo urbano.

O fato é que Lacerda busca se distinguir da nova geração de ficcionistas brasileiros, que está entre os 25 e os 40 anos. Ele persegue os meios tons psicológicos em vez de entrar na onda de seus coetâneos, preocupados mais em destilar violência urbana em frases truncadas que em fazer boa literatura. Em geral, apesar do olhar agudo que oferece sobre o caos cotidiano das grandes cidades, essa geração é auto complacente e mimada e não parece ligar para as lições do passado, nem mesmo para as ruins. A aceitação da realidade correspondeu . ao desprezo pelo que até pouco tempo atrás era considerado literariamente correto. O rompimento com a linhagem precedente empobrece os textos: literários de moda.

Embora faça parte dessa turma e compartilhe de alguns de seus traços – como a frase seca e a escatologia -, Lacerda explora-os para converter o período seco em elipse eloqüente; a escatologia em recurso trágico. Ele solda, assim, as pontas geracionais rompidas.

Vista do Rio descortina uma fusão de fantasia e memória elaborada em vários níveis de tempo: o do narrador no presente, o passado simples e remoto. Eles se justapõem com sutileza, sem subtrair a fluência à leitura. Os desencontros e destemperos do mauricinho hétero Marco Aurélio e do gay e impulsivo Virgílio, da adolescência à maturidade, são pontuados por um cenário comum: o Estrela de Ipanema, prédio modernista onde os dois moram – coadjuvante patético do enredo -, a natureza e a violência em volta. Livro adentro, as belezas cariocas e a pretensão da arquitetura funcional se dissolvem na tintura suja do destino. Faltam à trama viradas súbitas surpreendentes e efeitos especiais. Tais ausências são bem-vindas. O resultado é uma pequena alegoria destes tempos embotados.