Entrevista sobre a tradução de O Conde de Monte Cristo
Por que os cânones rotulam O Conde de Monte Cristo como um livro menor?
Gostaria de entender. Uma coisa é certa: o romantismo como um todo, junto aos críticos, está em baixa. Mas, junto ao público, continua fazendo o maior sucesso. Fiz anos atrás uma edição de Os miseráveis, do Victor Hugo, um livro igualmente imenso, como O Conde de monte Cristo, e a edição foi muito bem-recebida; esgotou e foi reeditada. Acho que, pairando sobre as questões de técnica e ideologia literárias, livros como esses conservam um grande poder de atração. Afinal, a boa literatura não se caracteriza apenas pela excelência formal, ou pelo vanguardismo da vertente ideológica a que pertence. Às vezes ela se manifesta pelo “simples” poder de emocionar o leitor.
Como ele pode, conforme você diz na apresentação, servir de abertura para a arte da escrita?
Alexandre Dumas foi um autor que, no início da minha adolescência, me ensinou o prazer de ficar horas lendo, me tirou o medo dos livros grandes, me deu uma incrível aula de senso dramático e de magnetismo narrativo. Para culminar, sua imensa capacidade de inventar personagens é, em si mesma, uma aula de vida e de observação do mundo. Como disse o Baudelaire a respeito dele, sua imaginação, de tão poderosa, continha em si mesma o senso crítico (e é por não perceberem isso que seus detratores o consideram ingênuo, ou simplesmente melodramático). Obviamente, eu não fui o único leitor a perceber tudo isso.
Quando começou a traduzir o romance sentiu algum tipo de patrulha ideológica?
Aqui e ali, mas nada grave. Também não posso obrigar ninguém a gostar do que eu gosto. Mas o projeto era, por alguns amigos, visto como uma idiossincrasia pessoal.
Por que decidiu traduzir o livro do Dumas?
Porque conheci o André Telles, que, além de ser um tradutor de grande talento, é um apaixonado por Alexandre Dumas tanto quanto eu.
E como classificar a importância do romance ao lado das grandes sagas históricas e de vingança?
Bem, mesmo os críticos que torcem o nariz para O conde de Monte Cristo reconhecem que ele nos fornece um formidável painel da sociedade francesa do início da república tal qual a conhecemos. Então, do ponto de vista histórico, o livro está plenamente aprovado. Como saga de vingança, creio ser ele um dos casos mais bem-sucedidos do gênero. A força do personagem-vingador, as situações de tensão criadas, as ambigüidades que sua vingança vai adquirindo (quando foge ao seu controle, por exemplo vitimando inocentes), tudo isso contribui para que extraia do gênero o máximo de emoção e suspense.
Podemos dizer que o romance é, também sobre vingança e redenção? De que forma?
Sobre vingança, claro que sim, pois Edmund Dantès, que foi injustamente preso, volta muitos anos depois para cobrar daqueles que arruinaram sua juventude. Quanto à redenção, temos, de um lado, a redenção individual, pois ao final de tudo ele se liberta do ressentimento e do rancor que o amarguravam e que o impediam de viver sentimentos mais nobres, como por exemplo o amor por uma mulher. Mas temos ainda um plano de redenção coletiva, pois ele de certa forma contribui para a regeneração da sociedade, eliminando os canalhas que haviam enriquecido às custas de crimes e traições, e simbolizando uma nova ética, na qual a fidelidade aos amigos, o senso de justiça e a generosidade para com os semelhantes têm lugar.
Na sua opinião, quais são as maiores contradições do romance? E como o fato de ter sido publicado em forma de folhetim explica tais contradições?
Nenhuma das contradições é importante ou prejudica a leitura. A maioria das edições francesas sequer registram as contradições. Mas como estávamos dispostos a produzir uma edição definitiva, achamos que estava na hora de alguém fazer pequenos retoques quando eles fossem possíveis (uniformizando por exemplo a idade de um personagem, quando dentro do próprio romance se encontrassem pistas para resolver a contradição), ou simplesmente registrando a existência das contradições para o leitor. É óbvio que a publicação em folhetim contribuía para esse tipo de problema, pois quando, no cap. 33, você resolve fazer o seu personagem ser ruivo, você já escreveu outros 32 em que ele é moreno! E o Alexandre Dumas não era o tipo de fazer uma revisão cuidadosa antes da publicação em livro; ele em geral estava ocupado demais escrevendo outros vários romances ao mesmo tempo.
Qual era realmente o papel dos colaboradores na obra de Dumas?
Que se saiba, eles davam o primeiro tratamento para um argumento, uma cena, um personagem, e ele chegava depois para dar a redação final. Acontece que nessa redação final o que antes tinha 10 páginas passava a ter 30. Ou seja, os colaboradores basicamente davam as idéias, e ele, com seu poder de fabulação descomunal, desenvolvia-as. Mas não devia haver método de trabalho fixo. O importante é que negar o caráter autoral de sua obra é como negar o caráter autoral dos quadros de Rembrandt, por exemplo, outro artista que trabalhava com inúmeros colaboradores contratados.
Quanto tempo para traduzir O conde de Monte Cristo e quais os maiores desafios?
Ao todo, acho que algo em torno de um ano e nove meses. Do ponto de vista da tradução, o André enfrentou desafios muito maiores que os meus, pois cabia a ele fazer a primeira versão em português; portanto, toda a pesquisa vocabular, de termos náuticos, por exemplo, foi um esforço heróico.
E como esse romance se encaixa na trajetória literária de Dumas? Qual o papel dele na bibliografia do autor?
Acho que, juntamente com a trilogia dos três mosqueteiros (Os três mosqueteiros, Vinte anos depois e Visconde de Bragelonne) e da saga sobre a revolução francesa (Memórias de um médico), O conde de Monte Cristo é o livro mais importante dele.
Pode falar um pouco sobre a relação entre mobilidade social dos personagens e retrato de uma sociedade no caso de O conde de Monte Cristo?
Edmund Dantès, na medida em que vai ao fundo do poço da sociedade francesa da época, e depois que sai da cadeia e enriquece sobe aos píncaros da elite francesa, é por si só um personagem capaz de iluminar todas as faixas sociais então existentes. Ele circula com desenvoltura entre criminosos e aristocratas, para não falar da classe média. Daí o fato de o livro nos dar um retrato tão compreensivo daquela sociedade.
Você chegou a consultar edições brasileiras do romance?
Sim. Mas não foi um cotejo detalhado, que eu fiz mesmo foi entre as várias edições francesas. Quisemos dar uma dicção inteiramente nova para a nossa tradução.
Quais defeitos encontrou nas antigas traduções?
O André Telles deu grande fluência ao texto original, e eu tratei de homogeneizá-la. Nesse sentido, acho que nenhuma outra versão para o português tem um texto tão moderno e ao mesmo tempo tão fiel quanto a nossa.
E o livro já foi muito traduzido par ao português? Em que condições?
O livro circulou pela primeira vez no Brasil enquanto ainda estava sendo publicado em fascículos na França. Certa vez, quando o navio atrasou, foi um quiprocó. Até os anos 1950 e 1960 várias traduções foram continuamente publicadas. Depois é que o Alexandre Dumas saiu um pouco de moda; estava na hora de voltar
Como foi a parceria com o André Telles? Como vocês dividiram o trabalho?
Ele fez a primeira versão da tradução. Eu cotejei linha a linha com os textos em francês, traduzindo os saltos, tirando dúvidas, homogeneizando o texto, refazendo a pontuação (que no século XIX era usada de forma completamente diferente). Depois ele aprovava ou não as minhas sugestões. Finalmente entramos na fase dos ajustes finais de padronização. Enfim, enquanto eu escrevia a apresentação, o André selecionava as ilustrações.