Entrevista | Sergio Miguez
A Junior é uma revista nacional editada pelo André Fischer, do Mix Brasil, tiragem de 30 mil.
Entrevista com Sergio Miguez.
Como surgiu a idéia para a capa de Vista do Rio?
A capa do Vista do Rio surgiu porque eu adoro essas fotos científicas, ampliando 450 mil vezes os ácaros, os vírus, enfim, esses monstros microscópicos. Tenho um certo arrepio mórbido de me imaginar encostando a cabeça num travesseiro que é uma colônia de microorganismos. E eu queria que a capa falasse da AIDS, mas sem ser explícita demais. Então ali, a imagem é a do vírus, mas também parece uma foto de um litoral tirada por satélite (que é quando nós viramos microorganismos), o que combinava bem o título.
E o livro mesmo, como te ocorreu a história?
Eu perdi muuuuiiiitos amigos durante os anos 90, entre eles meu cunhado, que seria padrinho da minha filha, na época recém-nascida. E sempre admirei a liberdade interior desses meus amigos, a capacidade que eles tinham de brincar consigo mesmos, de não se levarem tanto a sério. Acho o senso de humor dos gays uma coisa admirável. Então queria escrever sobre tudo isso. Se você reparar, os personagens femininos não têm muito espaço no livro. É sobre a relação entre homens hererossexuais e gays, esse é o tema.
Para escrever teus livros como é o processo criativo, o que vem primeiro, personagem, trama…?
No caso do Vista do Rio, primeiro vieram os personagens. A história decorre muito da oposição bem marcada de temperamento entre os dois amigos. No casdo do Fazedor de Velhos, eu tinha o título, mas a história é que moldou o personagem. Basta dizer que ele era para ser uma figura negativa, um personagem mau, e acabou sendo uma grande alma, ou pelo menos assim eu o vejo.
Quem são alguns dos teus autores e livros que te “formaram”?
Bem, se eu tivesse que fazer uma escalação, ela seria: Monteiro Lobato, Alexandre Dumas, Eça de Queiroz, João Ubaldo Ribeiro, Shakespeare, William Faulkner e Raymond Carver. Esses são os que tiveram influência direta sobre mim e sobre os meus livros. Mas claro que Guimarães, Machado, e tantos outros, são escritores que eu admiro muitíssimo.
Pode sugerir uma trilha sonora para acompanhar a leitura de “O fazedor de velhos” ou os sons que te inspiram?
Bom, no começo do livro, imagino um rock mais pesado, pois o personagem é muito angustiado. Depois acho que a trilha sonora daquele filme Juno combinaria bem, por ter um sabor bem adolescente e poético ao mesmo tempo. Mas, do meio do livro para o fim, eu cito no livro e imagino mesmo a Madame Butterfly, ópera do Puccini, cujo dueto de amor no final do primeiro ato é uma das coisas mais lindas que alguém já compôs.
E para quem quiser ler Shakespeare, especialmente o Rei Lear, poderia indicar uma boa edição em português?
A boa edição para ler o rei Lear em português é a da editora Lacerda ou Nova Aguilar, pois considero que tem a tradução mais confiável: a da Bárbara Heliodora Carneiro de Mendonça, minha grande mestra em Shakespeare e uma especialista de nível internacional que se esconde no Beco do Boticário, no Rio de Janeiro.
Já está escrevendo um novo livro, pode adiantar algo sobre ele?
Tenho um romance pronto, chamado Outra Vida, que sairá no primeiro semestre do ano que vem. Fala da história de um casal que está numa rodoviária, prestes a deixar a cidade grande e voltar para a cidade pequena de onde vieram. Ela, uma mulher muito determinada, de temperamento forte, está frustradíssima. Ele, um sujeito meio acomodado, está sentindo um imenso alívio. em flashbacks, enquanto o ônibus não chega, vou recuperando o passado dessa relação complicada, do parto da filha até o dia da viagem.
Por favor, se quiser comentar mais alguma coisa fique à vontade…
Extras: queria só dizer que o Fazedor de Velhos é um livro que escrevi com o intuito de: 1) relativizar a idéia de que envelhecer é necessariamente ruim, pois acho que pode trazer muita paz e muita felicidade, por exemplo quando descobrimos a nossa vocação; 2) relativizar a idéia de que o amor romântico está ultrapassado, pois acho que ainda é em função dos grandes amores que estruturamos as nossas vidas, mesmo quando não os temos; 3) sensibilizar os leitores para tudo que está a nossa volta, cada pequena coisa e cada pequena experiência que vemos e temos, pois só assim, com a sensibilidade alerta, podemos realmente dizer que aproveitamos a vida.