Entrevista para o jornalista Sérgio Miguez
Como e quando você soube que se tornaria um escritor?
Meu pai era editor, e quando eu era criança eu achava que os escritores eram pessoas iluminadas, que viviam num muito além do meu alcance. Um belo dia, já com 20 e poucos anos, escrevi meu primeiro livro por acaso, como exercício de um curso de pós-graduação, no qual eu deveria transformar a minha futura tese em uma obra de ficção. Depois disso, larguei a tese e decidi que queria ser escritor.
O ambiente familiar ou escolar influenciou seu gosto pela leitura, é possível explicar esse caminho das letras?
Como eu disse, a influência familiar influenciou sim. Meus dois avós eram escritores, de um jeito ou de outro. Meu pai era editor. Minha mãe lia poesias para mim. Mas tenho primos que viveram no mesmo ambiente e viraram, coisa muito mais lucrativas, como advogados, empresários, economistas. Então acho que o ambiente não explica tudo. No meu caso, acho que o medo de morrer foi determinante, pois eu sempre admirei os artistas que sobrevivem através de suas obras.
Comente algo sobre os livros e autores que você mais admira e fizeram parte da sua formação.
Monteiro Lobato, Eça de Queiroz, Shakespeare, William Faulkner, Thomas Mann e Raymond Carver. Eu sou muito grato a eles, pois fundaram, ou ampliaram, a minha capacidade de sentir a vida e, portanto, de aproveitá-la.
O mistério do leão rampante foi teu primeiro livro?
Sim, foi o tal escrito como exercício de curso. Com ele começou a maldição/bênção.
De onde surgiu a idéia, quanto tempo para escrever e para publicar?
O tema da minha tese seria uma comparação entre o teatro renascentista inglês e o lusitano. Ou seja, entre o teatro moderno e o teatro ainda de fundo religioso, no qual as personagens eram vítimas de influências externas a ela, e não agentes de seu próprio destino. Então o Leão Rampante conta a história de uma jovem que se liberta das superstições e toma nas mãos as rédeas da própria vida.
Foi um trabalho premiado, isso fez diferença para você, ou, em que medida o reconhecimento da crítica é importante?
Claro que faz diferença, até hoje algumas portas se abrem quando o prêmio Jabuti é mencionado. Mas também teve um lado ruim, pois eu gastei toda a minha sorte com prêmios na primeira tacada. Depois nunca mais ganhei nada. Com meu último livro, fui finalista do Jabuti, do Portugal Telecom e do Zaffari e Bourdon. Perdi os três.
E sobre a solidão de escrever, como lida com isso? Troca figurinhas com alguém durante o processo?
A solidão é boa, o difícil é conseguir tempo, com a vida que levamos. Mas a solidão, ou melhor, a companhia dos meus personagens, é um prazer. Quanto a leitores a quem dou acesso antes de considerar terminado, é muito raro. Quase nunca. Mas antes de lançar a edição final/comercial, faço sempre uma tiragem da obra completa e dou a algumas pessoas. Aí ouço as respostas, mexo, e só então entrego para a editora. Mas o livro já tem começo, meio, fim e muuuiito trabalho feito.
Pode contar um pouco da trajetória para conseguir ser publicado?
No meu caso, foi relativamente fácil, pois eu trabalhava na editora da universidade de São Paulo, com um grande editor chamado Plínio Martins Filho. Quando ele leu essa prova do livro, ele me disse que sempre havia sonhado em abrir uma editora, e que gostaria de estrear com o meu livro. Então começamos juntos, ele como empresário, eu como escritor.
Depois de publicado tem retorno de leitores, como é a relação com o público, em que medida isso é importante?
Tenho muito menos retorno do que eu gostaria. Eu deveria ter um blog, um site, para facilitar o contato. Mas trabalho muito e nunca tenho tempo de cuidar disso. Mas é uma delícia ouvir o que os outros acharam do livro. Mesmo quando não gostaram, é bom saber que fui lido com atenção.
Segue uma rotina para escrever, qual é?
Nenhum. Escrevo quando dá tempo.
Tem algum esquema de criação ou método para desenvolver seu trabalho, cria protagonistas ou a tese da história antes, personagens aparecem no decorrer da trama?
Antigamente eu começava a escrever sabendo tudo o que iria acontecer. Mas sempre que eu deixo a coisa correr mais solta o livro fica melhor; jea aprendi isso. Então agora só quero escrever com liberdade interior, deixando os personagens decidir para que lado querem ir.
É possível sobreviver no Brasil escrevendo livros, como um jovem autor faz para sobreviver de seu trabalho?
Acho que só de direitos autorais é difícil, mas os livros costumam abrir portas. Não sou mais tão jovem, tenho 39, então já não tenho tantas esperanças de um dia conseguir. Mas ninguém faz literatura por dinheiro, só se for idiota, porque ainda que você consiga ganhar algum, ganhará muito menos do que se fosse corretor da Bovespa. Exceção feita aos sorteados pelo destino.
Como anda a cena literária brasileira, eventos como a FLIP ou as Bienais do livro ajudam? É importante a troca de experiências literárias, conhecer seus pares (e ímpares)?
A Flip acho um evento ótimo, embora cheíssimo. A Bienal acho importante para quem não tem o hábito de ir a livrarias no dia a dia. A troca de experiências literárias é boa, mas não necessariamente entre escritores. Qualquer bom leitor pode ser melhor interlocutor do que um escritor.
E “A dinãmica das larvas”, pode falar um pouco da obra?
É meu segundo livro. Conta a história de uma intriga no mercado editorial, que envolve dois editores, uma agente literária, um autor de livros científicos e um escritor premiado de ficção. Do ponto de vista formal, ele pretende pegar o estilo meio barroco e engraçado do Leão Rampante e trazer para os dias de hoje.
Conte um pouco de seu último livro, O fazedor de velhos?
Escrevi no intervalo de um outro romance, Outra Vida, que sairá ano que vem pela editora Alfaguara. Então sentei para escrevê-lo quase como um recreio, pensando em fazer um livro juvenil, para a minha filha de 13 anos. Acabou saindo um livro que não tem público definido, que emocionou muito marmanjo por aí. Fala de como precisamos nos manter atentos à grandeza emocional escondida por trás do cotidiano.
É linda a maneira como o personagem Pedro encontra e “descobre” a profundidade de Shakespeare, a passagem é autobiográfica?
Sim. Shakespeare foi fundamental para eu sentir que a vida poderia ser definida por mim mesmo, e que eu precisava domar meus sentimentos contraditórios, bons e maus, generosos e egoístas, maliciosos e ingênuos, se quisesse agir no mundo como um homem de bem e ser feliz.
Suassuna disse que para ele livros são como filhos e ele só batiza e escolhe o nome depois de ver o rosto e não tem um preferido, como funciona pra você, tem um deles que gostou mais do resultado?
Para mim, depende. O Fazedor de Velhos é um título que surgiu antes de tudo mais. Em outros livros foi diferente; não tem regra.
Pode adiantar algo sobre o próximo trabalho, já tem previsão de lançamento?
Como eu disse, chama-se Outra Vida e sai entre abril/maio do ano que vem. Conta a história de um homem que, premido por necessidades financeiras e pelo medo de decepcionar a mulher, se envolve num esquema de corrupção. Mas ele não é um vilão, é um herói de personalidade fraca. Então a graça é fazer o leitor se identificar com o corrupto.
Qual o papel da literatura, você acredita que é capaz de mover, mudar as pessoas, o mundo?
Mudou a mim, com certeza. E muda muita gente. Mas é pouco. O dinheiro, infezlimente, muda mais. O mundo só vai melhorar quando o modus operandi atual deixar de ser financeiramente interssante.
Só fiquei curioso em saber algo mais sobre sua família, li em algum lugar que você é neto do governador Carlos Lacerda, chegou a conhecer, tem lembranças dele? E teu pai era o editor da nova fronteira, é isso? Qual o nome dele?
Sou neto do Carlos Lacerda sim, um homem polêmico, sem dúvida, mas que via muito longe, e que por isso mesmo era excessivamente impaciente com as contramarchas da evolução política e social brasileira. Foi neto de político, filho de político. Na família temos desde ex-ministros do STF (meu trisavô) até líderes operários (meu bisavô), passando por liberais, comunistas de carteirinha, enfim, uma salada. Mas embora tenha uma relação muito forte com a memória desses políticos de outros tempos (me formei em história, afinal), nunca escrevi sobre nada disso. Como diz o ditado, “Quem cultiva a glória dos antepassados é que nem as batatas: o que tem de melhor está embaixo da terra”.
E meu pai se chama Sebastião Lacerda. Foi fundador da Nova Fronteira e atualmente é dono da Editora Nova Aguilar. Acabo de trabalhar com ele, e uma equipe de editores, na nova edição, depois de 50 anos, da Obra Completa de Machado de Assis. Ele é um editor muito sensível, capaz de emitir uma opinião sobre qualquer livro lendo só uns parágrafos (que é a maior virtude/deformação da nossa profissão).