Entrevista para O Estado de S. Paulo
Que livro você mais relê? Qual a sua impressão das releituras?
Hamlet, do Shakespeare. É daquelas obras que tem de tudo, além da mais pura poesia dramática.
Não consigo imaginar a vida de leitor sem releituras. Sou muito grato aos meus escritores preferidos.
- Diga um livro muito bom injustiçado, pelo público ou pela crítica.
Certamente O poderoso chefão, do Mario Puzo. Soa muito intelectual dizer que o filme é uma obra de arte e o romance, um best seller menor. Mas acho preconceito.
- Cite um livro que frustrou suas expectativas.
A Eneida, de Virgílio, me decepcionou. Em matéria de épico, acho a Ilíada e a Odisséia muito mais poderosas, e tinha elas em mente quando li a Eneida, durante a pesquisa para o meu romance Vista do Rio, no qual um dos personagens era um professor de cultura latina.
- E um livro surpreendente, pelo qual você não dava nada.
O escritor americano Raymond Carver me pegou desprevenido. O primeiro livro que li dele era uma antologia de contos. Não esperava que as histórias me surpreendessem tanto.
- A literatura está cheia de cenas marcantes. Cite uma.
Só para não parecer que eu esnobei a Eneida, uma cena impressionante é aquela na qual os troianos estão decidindo se abrem ou não os portões da cidade para o Cavalo de Tróia. Cassandra avisa que abrir não é uma boa idéia, mas todo mundo quer. Laocoonte é o único que concorda com Cassandra, mas antes que possa mudar a decisão da maioria, uma serpente marinha surge das águas e devora a ele e aos filhos. Que tal?
- Que personagens ganham vida própria na sua imaginação de leitor?
Para citar dois: Carlos Eduardo da Maia e João da Ega. A amizade deles, no romance Os Maias, do Eça de Queiroz, é dos sentimentos mais palpáveis que já tive a oportunidade de experimentar por meio da literatura.
- Que livro bom lhe fez mal, de tão perturbador?
As duas histórias do Palmeiras Selvagens, de William Faulkner, entrelaçadas embora sem relação direta entre si, conseguiram me transmitir a “poesia bruta” do autor, que tem uma solenidade impressionante, trágica e meio bíblica, sendo ao mesmo tempo aplicável à nossa vida cotidiana. O resultado dessa combinação é deliciosamente perturbador.
- Que livro mais o fez pensar?
Acho que o livro que mais me fez pensar na vida foi Malagueta, Perus e Bacanaço, do João Antônio. Escrevi uma tese de quinhentas páginas praticamente só sobre ele.
- De qual autor você leu tudo, ou quase? Que interesse que ele desperta em você?
Eça de Queiroz e Shakespeare. O Eça pelo humor, pela generosidade que tem em relação aos personagens e aos leitores, e pelo amor à música da literatura. Shakespeare pelo talento poético e pelo gênio dramático, isto é, a capacidade de construir a cena na medida para que os personagens, psicologicamente falando, saiam de um ponto e cheguem aonde ele quer.
- Existe algum autor com o qual você jamais perderia tempo?
Aquele que não leva a sério o próprio trabalho.
- Você considera a literatura policial um gênero menor? Se a resposta for negativa cite um livro maior do gênero. Se positiva, explique.
Não acredito que haja uma hierarquia rígida entre os gêneros. Por outro lado não posso dizer que seja um aficcionado por literatura policial. Da minha preferência eu citaria As oito pancadas do relógio, do Maurice Leblanc, criador do “Ladrão de Casaca”.
- Os livros de auto-ajuda são mesmo ruins, ou isso é puro preconceito? Caso goste de algum, justifique.
Um dos livros mais lindos que já li é, de certa forma, de auto-ajuda: as Meditações de Marco Aurélio. Se você ler aquilo sem reverência excessiva, verá que não está tão distante. E quem sabe as Confissões de Santo Agostinho também não sejam?
- Cite:
a) Um livro meio chato, mas bom
Don Juan, do Byron. Excessivamente longo, perde a graça. Por outro lado, a poesia é boa e certas passagens são divertidas. Totalmente chato não dá pra dizer que seja.
b) Um livro bom mas jamais lido.
Os volumes 3, 4, 5 e 6 do Proust. Li os dois primeiros e adorei, mas aí voltei para a rotina corrida e tive de parar. Não são livros que se leia com pressa.
c) Um livro difícil, mas indispensável.
Grande sertão: veredas.
d) Um livro que começa muito bem e se perde.
O Evangelho segundo Jesus Cristo, do Saramago. Adoro o livro, mas fiquei com a impressão de que a história se acelera demais nas últimas páginas.
e) Um livro ruim, por ser pretensioso.
O animal agonizante, um dos últimos do Philip Roth. Achei o protagonista um tipinho bem cafajeste. Pode ser mérito do escritor, mas é difícil não deixar isso contaminar o livro todo.
g) Um livro pior do que o filme baseado nele.
Coração nas trevas, do Joseph Conrad, que é excelente, claro, mas o Apocalipse Now é coisa de outro mundo.
- De que livro você mudaria o final? Por quê?
De Os três mosqueteiros. Eu nunca mataria a namorada do Dartagnan. Com toda a certeza eu mudaria para pior, mas o coração falaria mais alto que a excelência literária.
- Que livros contrariam suas convicções mas ainda assim você julga imprescindíveis?
O Novo Testamento e uma antologia de textos marxistas que tenho aqui em casa.
- Cite exemplos de livros assassinados pela tradução e um exemplo de boa tradução.
Algumas traduções fazem do Shakespeare um autor empolado, o que ele não era. Um modelo de tradutor é o Paulo Henriques Brito, que traduziu O som e a fúria, do Faulkner, um trabalho quase milagroso.
- A literatura contemporânea é muito criticada. Que livro publicado nos últimos dez anos mereceria a honraria de clássico?
Prefiro citar autores perfeitamente dignos de muito clássico por aí: Cristóvão Tezza, Milton Hatoum, Rubens Figueiredo, Bernardo Ajzemberg, Ronaldo Correia de Brito e, por À margem da linha, que já nasceu clássico, Paulo Rodrigues.
- Para que clássico brasileiro, de qualquer tempo, você escreveria um prefácio incitando a leitura?
O tempo e o vento, do Érico Veríssimo. Acho que se fala pouco dessa catedral literária maravilhosa.
- Que livros (brasileiros ou estrangeiros) sempre presentes nos cânones que não mereceriam seu voto? E um sempre ausente no qual você votaria?
Não que eu defenda sua eliminação dos cânones, mas eu estaria moralmente impedido de votar neles: Finnegans Wake, do Joyce, e A Paixão segundo G.H., da Clarice. Nesses a minha leitura empacou, acho que para sempre, pois já tentei mais de uma vez.
O sempre ausente que eu admiro é o Afrânio Peixoto, escritor muito interessante.
- Sobre a crítica:
a) Que livro festejado pela crítica você detestou?
Cem anos de solidão, do Gabriel Garcia Marquez.
b) E de que livro demolido por críticos você gostou?
Um retrato do artista quando velho, do Joseph Heller. Acho que só eu gostei desse livro no Brasil. Mas eu gostei muito.
c) Quais bons autores você só descobriu alertado pela crítica?
Julian Barnes, Paul Auster e Michel Houellebecq.
- Cite um vício literário que você considera abominável.
Citar num livro obras de arte de modo a que o leitor se sinta um ignorante por não conhecê-las.
- Que virtude mais preza na boa literatura?
A generosidade em relação aos personagens, aceitando-os como são e deixando-os seguir o seu curso.