Entrevista para o escritor Ronaldo Bressane

\EM BUSCA DO “REALISMO SUAVE”

|| por Ronaldo Bressane


O carioca Rodrigo Lacerda, 34 anos, um dos editores da Cosac & Naify, lança em janeiro seu terceiro romance: Vista do Rio. Sempre bem-humorado, Rodrigo conversa sobre o livro, o tratamento da violência em voga na literatura brasileira, o novo realismo, a combinação entre História e ficção, a lembrança do avô Carlos Lacerda, e sua eterna paixão: o Rio de Janeiro.

“Tudo era muito mais fácil.” Assim Rodrigo Lacerda se refere a seus primeiros livros, os mordazes O mistério do leão rampante (1995) e A dinâmica das larvas (1996). Já Tripé (2000), que comporta crônicas, roteiros e contos, reorientou seu estilo para o caminho da experimentação: a voz do escritor escapava da farsa e da sátira para um texto que amplificava sua sofisticada tessitura literária com um equilibrado recurso à oralidade. O resultado deste processo de mudança é o lançamento do romance Vista do Rio.

Narrativamente, Vista do Rio é um livro mais fragmentado que seus predecessores. A trama psicológica, que desvenda a relação entre dois amigos da infância à maturidade, está dividida em duas partes. Na primeira – articulada com grande originalidade em paralelo com a descrição do Estrela de Ipanema, edifício carioca de arquitetura modernista em que vivem Marco Aurélio e seu amigo Virgílio –, as memórias do narrador são recortadas por cenas com ambos já homens feitos. Na segunda seção, há uma longa e poética passagem, em que Marco Aurélio observa Virgílio sobrevoar o Rio de asa-delta.

Neste ponto, a presumida visão do paraíso dá lugar à intuição da morte, e este é um dos temas do livro: em que momento do confronto entre natureza e cultura, visto pela ótica de homens totalmente diferentes – Marco Aurélio, o narrador, é um plácido escritor de livros institucionais e pai zeloso, enquanto Virgílio é um delirante dramaturgo – se dá a perda da inocência?

Nascido em 1969, no Rio de Janeiro, onde cresceu e viveu até os 22 anos, Rodrigo deixou o trabalho na editora de sua família, a Nova Fronteira, e mudou-se para São Paulo, para concluir o curso de História na USP. Foi de sua atividade como pesquisador que nasceu O mistério do leão rampante, premiado com o Jabuti de 1995 como melhor romance. Rodrigo hoje organiza a linha de literatura brasileira contemporânea na Cosac & Naify, enquanto conclui sua tese de doutorado na USP sobre o gênio da malandragem literária, o paulistano João Antônio.

Sua dicção mudou muito, do picaresco de Leão rampante ao atual adensamento psicológico de Vista do Rio. A que se deve esse trajeto?
A dicção do Leão rampante veio fácil, espontânea, e por dois motivos: um é que eu estava ligado em escritores cujo estilo é tudo menos seco, nos quais a excelência é atingida pela fartura, pela grande habilidade na adjetivação, na montagem de frases sonoras. Eu lia mais o Eça que o Machado; o João Ubaldo que o Rubem Fonseca; o João Antônio que o Dalton Trevisan. Além disso, eu tinha uma inclinação natural para o tom humorístico.

O segundo é que eu era estudante de história, e tinha por isso contato com documentos de época (era leitor assíduo do Padre António Vieira), o que me dava uma familiaridade grande com a sintaxe barroca e um vocabulário menos coloquial. Mas, ao terminar o primeiro livro, não queria repetir a chave dos romances históricos; no segundo, portanto, busquei, usando quase os mesmos recursos estilísticos, uma história contemporânea. Mas logo quis tentar outros caminhos. No Tripé, então, fiz um laboratório de linguagens…


Tripé pagou certo preço de misturar tantas coisas, sobretudo junto à crítica…
Sim, mas foi fundamental para que eu escrevesse uma crônica que me deu o tom do que seria o Vista do Rio; um texto enxuto, que buscasse uma simplicidade profunda. Naturalmente, minha dicção se simplificou e se aproximou da fala, se tornou mais econômica. Continuei gostando de todos os escritores que eu lia, mas nos meus textos precisei mudar. O narrador do Vista do Rio uma hora fala: “eu sempre quis ser um realista suave”.

Recentemente, o jornalista José Castello escreveu um artigo no Valor Econômico a respeito do ressurgimento do realismo na literatura brasileira. O que seria essa adesão ao realismo, ainda que “suave”?
Eu nãon diria que há um ressurgimento do realismo na literatura, pois ele nunca deixou de estar presente. Nos anos 70, por exemplo, a combinação entre literatura e jornalismo não teria sido possível sem esse elemento realista. Mas não li o artigo do José Castello, então não posso ter certeza de que estou respondendo bem à pergunta. O que eu sinto hoje é que, por força das circunstâncias sócioeconômicas, a visão que boa parte da nossa literatura transmite da realidade se tornou tão chocante que muito do que foi feito nesse caminho talvez esteja mais próximo é de um neo-naturalismo. Ou seja, de um modelo literário capaz de expressar a exacerbação da nossa crise social.

O perigo é que, quando mal elaborada, esta linha de trabalho dá margem a certa facilitação. Como se bastasse situar a história na favela, elencar um marginal como protagonista e cenas de extrema violência para se atingir a um padrão literário satisfatório. Receio, nesses casos, que se forme um recorte ideologicamente preconceituoso da realidade brasileira, que transmite uma visão chapada das outras camadas sociais, negando-lhes complexidade e, com isso, força dramática. Quando meu narrador diz que gostaria de ser um “realista suave”, acho que ele na verdade está querendo dizer um realismo “sutil”, com nuances, não maniqueísta, por mais politicamente correto que seja esse maniqueísmo. Para uma visão compreensiva das estruturas que perpetuam a desigualdade social, nós escritores não deveríamos também nos debruçar sobre as elites?

Também quero falar do Brasil e dos seus dramas, e nesse livro eu falo, mas de um ponto de vista, no meu caso, penso que autêntico. Um exemplo a ser seguido é a Clarice Lispector, que ao falar das suas empregadas domésticas consegue ser bem mais profunda no trato das questões sociais do que alguns livros que forjam um ponto de vista “marginal”.

O livro inicia com uma cena de violência explícita, chocante não só por seu conteúdo como também pela meticulosidade na descrição. Como escrever sobre a violência sem legitimá-la eticamente – ainda que esteticamente?
Na cena a que você se refere, os dois pré-adolescentes torturam um passarinho até a morte. Ao escrevê-la, não quis fazer, no plano ideológico, nem condenação nem apologia da violência; simplesmente me lembrei de histórias que vivi e ouvi, e trabalhei com o sadismo que toda criança tem. Aceitei a violência intrínseca a todos, sem maiores juízos. Do ponto de vista estético, queria que a cena tivesse impacto, e para isso usei os recursos de composição de que me julguei capaz.

A despeito da descrição realista da morte do passarinho, pensei muito na música do Cartola que diz que “o mundo é um moinho”, que vai “triturar teus sonhos tão mesquinhos”. Mostrei os dois garotos aplicando sobre o pobre animal aquilo que o mundo iria aplicar sobre eles próprios.

Vista do Rio tem uma construção “arquitetônica”, baseada no edifício Estrela de Ipanema. Como surgiu essa idéia?
O livro começou com um texto sobre o edifício. Era para ser um conto, sem personagens e sem enredo; pura descrição. Fiz, de cabeça, uma planta do edifício e comecei a bordar sobre o tema. Depois, constatando a disparidade entre o projeto modernista e o destino real da cidade, vieram os personagens, igualmente opostos e díspares. O livro ficou dividido em duas partes: a primeira, com seus espaços fechados, construídos pelo homem, e a segunda passada quase toda ao ar livre, na qual prevalece a natureza carioca.

Seu livro, de certo modo, contrapõe natureza [a tal vista do Rio] e cultura [a arquitetura do Estrela]. Ao mesmo tempo, observa a decadência não só do Rio como eixo da cultura brasileira, como da elite intelectual brasileira, exposta na doença terminal de Virgílio – e, como não poderia deixar de ser, na impossibilidade de permanência de um projeto iluminista nitidamente brasileiro, como é demonstrado nas rachaduras do edifício Estrela, ao ser revisitado pelo narrador, anos depois. Você considera o narrador um pessimista?
O livro tem sua visão sobre a história da cidade nas últimas décadas. Sobre como, enquanto se modernizava, perdia espaço e poder. Os anos 50, ícones da modernização nacional, marcaram sobretudo a transferência da capital para Brasília e o início da decadência carioca. Então, para o Rio, esse surto de modernidade já nasceu discutível. Além disso, novamente segundo o narrador, o projeto de modernização, em si, era ambicioso demais. Não só as metas estavam distantes, como a pressa também teria levado a excessos. Ele endossa o desejo de mudar a realidade para melhor, mas desde que a conhecendo e agindo de acordo com as possibilidades concretas. Para ele, a “política é a arte do possível”. Ele sente o encanto da utopia, mas faz questão de frisar que se trata de um sonho cujo despertar é doloroso.

Uma pessoa 100% pessimista não acreditaria nisso. O que ele tenta é fazer um balanço do que avançou. Ele nota que o país tem movimentos contraditórios, e que as transformações ocorridas durante seu tempo de vida se deram aos saltos, e não por meio de uma evolução consistente “auto-sustentada”, para se usar uma expressão na moda.

O narrador tem um apego visceral ao Brasil. Sente em nosso povo uma abertura para o contato com as diferenças que o encantam e o consolam das tristezas. É o único povo com o qual realmente consegue se entender. Ele não está em casa em nenhum outro lugar.

Tem muito de autobiográfico no Vista, não?
Sou carioca, vim morar em São Paulo, e morei no Estrela de Ipanema. Também a classe social dos personagens é parecida com a minha. Afora esse aspecto autobiográfico dos cenários, do ponto de vista, o resto é mais inventado do que lembrado.

Sua família tem histórico envolvimento com política. Como fica Rodrigo, no meio desse tiroteio?
Meu avô Carlos Lacerda foi um homem de biografia vertiginosa e temperamento impulsivo. O avô foi Ministro do Supremo Tribunal Federal, o pai era um político de esquerda, perseguido e torturado algumas vezes, ele próprio foi de esquerda e de direita. Ele era também jornalista, tradutor, editor, escritor, compositor e dramaturgo. Como dizia: “A única coerência que me preocupa é a de mudar de idéia toda a vez que eu tiver uma idéia melhor”. Aplicando isso a sua trajetória política, foi tudo que se pode imaginar. Diga um rótulo ideológico qualquer; em algum momento esse rótulo cabe no meu avô.

Busquei nos seus livros um forte sentimento em relação ao Rio de Janeiro, que ele governou entre 1960 e 1965, mas que sobretudo amava. As epígrafes de Vista do Rio saíram de um texto dele sobre a cidade, e não sobre política.

Para ele, o Rio é uma cidade que “renasce dos escombros de suas próprias esperanças”. E acho que de novo precisamos fazê-la renascer, sair do atoleiro político em que se meteu. A política fluminense parece um trem-fantasma; a cada curva surgem monstros assustadores. Não há projeto de longo prazo, não há liderança política confiável, a média dos quadros de todos os partidos é medíocre.

Tem projeto novo na manga?
Tenho uma tese de doutorado sobre o escritor João Antônio, Uma biografia literária, e um romance já escrito mas em fase de reelaboração, chamado Outra vida.