Entre nós | Aquela canção
Enfrentamos a situação com alguma elegância, enquanto durou o jantar. Eu a ouvia falando de suas novas perspectivas profissionais (o tema oficial do encontro), e me esforçava para prestar atenção, para fazer comentários eu não diria inteligentes, mas pelo menos pertinentes. E ela própria lutava para soar espontânea, sofrendo a artificialidade do assunto, por mais importante que fosse, comparado ao que não estava sendo dito. Era difícil, para os dois, conter os gestos, os olhares… não esticar o braço e sentir, tocar, nas mãos, no rosto, nos cabelos. Não lembrar de tudo que aconteceu, num tempo tão curto. E assim, mal contidos, os gestos, olhares e lembranças ganhavam uma presença subterrânea, desafiadora. Foi muito difícil iludir o carinho, fugir da tristeza e da raiva; não nos perder em nostalgia, não entregarmos nossos corpos, agora já ocos, a uma existência paralela nos momentos felizes que havíamos decidido transformar em passado.
A primeira vez que a vi, na abertura de uma exposição, atravessando um corredor com quadros de ambos os lados, sua cabeça movia-se em câmera lenta, deslizando pra lá e pra cá sobre o eixo do pescoço, em transições perfeitas; ela olhava as pinturas sem se desviar, evoluindo numa linha reta, firme, sem pressa. A expressão majestosa emoldurada por fios amarelos e brilhantes, numa linda coroa. Sua beleza forte, até dura, com o nariz e o queixo impositivos, mais a cabeleira potente, sempre me davam a sensação de estar aquém, ou vulnerável, pronto para ser recolhido a minha insignificância. Mas esse primeiro golpe de beleza, desta beleza distante e ameaçadora, era contrabalançado por uma pele muito branca, da cor receptiva e carinhosa do leite; por sua carne, que a distância se adivinhava macia, cremosa, fresca como água de colônia; e sobretudo por seus olhos verdes claros, cujo contraste com as sobrancelhas escuras indicava, lá no fundo, uma solidão humanizadora. Isso reduzia a impressão de hostilidade, de distanciamento. Também me desarticulava, só que de outra maneira. Minha entrega automática e espantada perdia o medo.
Jantar ambíguo aquele; rompimento amigável, fim-começo, sentimentos contraditórios. Aqui, bem aqui, de amor e culpa; nela, de amor e raiva. Fora a dose comum de sofrimento. Enquanto a tive diante de mim, do outro lado da mesa, admirei-a como a uma paisagem que desaparecia, um pôr-do-sol no horizonte, que me ultrapassava, apagando-se lentamente após um dia glorioso.
Estava decidido que não seríamos amantes.
Ela escolheu o restaurante, no Horto. O seu pedaço da cidade. Morava bem perto, na Nina Rodrigues. No começo de tudo, quando peguei seu endereço, o nome dessa rua me fez pensar numa caricatura de melindrosa dos anos 20, típica espevitada, sedutora e leviana, com vestidos de franjinhas brilhantes, casquetes espelhadas ou tiaras emplumadas na cabeça pequena, quase infantil, uma boquinha vermelha, bem desenhada, e uma pintinha preta no canto superior dos lábios, bicando cigarros sucessivos em longas piteiras. E de unhas vermelhas, claro, com dedos bem tratados segurando taças de champanhe francês. Eu lhe contei essa fantasia mais tarde, fazendo graça, ao ir buscá-la em casa naquele dia distante. Ela riu de mim, por educação. Segundo explicou, o verdadeiro Nina Rodrigues poderia ser enquadrado na categoria “buldogue intelectual do séc. XIX”. Traduzindo: um reacionário, francófilo a ponto de achar a raça brasileira inferior e duvidar que algum dia esse país pudesse dar certo…
E claro que ela não era racista, nem reacionária, na verdade sua consciência estava confortavelmente instalada à esquerda. (“Ou seja, moro na rua que homenageia um louco.”) Também não era nada coquete. Enfim, um erro contar para ela o que o nome da sua rua havia me sugerido. Corri estupidamente o risco de ofendê-la duas vezes. Para não dizer que desmascarei à toa minha cultura geral.
Uma chuva fina caindo lá fora. Um garçom mantendo nossos copos de cerveja em atividade. No restaurante, ar rarefeito. De repente, era a minha vez de falar. E lá fui eu, fingir que entendia retrospectivamente as duas ou três vezes em que vivi o mesmo dilema profissional, o de encarar ou não o mergulho completo na carreira, colocando-o acima de todos os outros. Disse que talvez fosse a pessoa errada para ela ouvir, pois sempre acabei recusando esse desafio, em nome de uma qualidade de vida, digamos, “horizontalizada”, apesar do sentimento íntimo de humilhação perante a sociedade produtiva. Ela riu quando me diminuí, encantada comigo, e eu ri junto, feliz de conseguir alegrá-la naquela situação.
Nunca imaginei abrir mão de alguém assim. Muito menos estando apaixonado. E essa paixão, por todos os motivos, fora vivida num espaço de tempo tão curto, tão expremida em poucas oportunidades, em brechas tão restritas do nosso dia-a-dia, que mesmo no fim, ainda naquele fim anti-natural, não sabíamos muito um do outro. Coisas básicas da minha biografia se transformavam em novidade, e até algumas velhas piadas ganhavam um frescor surpreendente. Sobre ela, então, eu aprendia sempre. Temperamento e beleza, juntos, é muita matéria para decorar. Apenas a intensidade do nosso caso alargava o tempo, criando a sensação de que o começo era algo distante, e de que nos entendíamos muito bem.
A descontração passageira mostrou que, naquela noite, enquanto um falasse o outro apenas fingiria escutar. Na verdade, ficaria craniando o assunto seguinte, para não deixar a conversa morrer. O propósito do jantar era esse: entre nós, estávamos decididos a manter a conversa viva.
Decididos a um monte de coisas…
“Um bando de gente que não se conhecia, numa mesa de rua de um bar sem graça do Centro, ouvindo muitas músicas ruins ao mesmo tempo, e expostos a lufadas de vento gelado” — num email, ela descreveu assim nosso programa, quando saímos do tal vernissage em que a conheci. Dias depois, eu já em São Paulo, foi um susto quando sua mensagem chegou do Rio e estilhaçou a tarde de trabalho. Ela havia sentado na outra ponta da mesa, conversado com outras pessoas, sobre outros temas, e só ao irmos embora, na mesma carona, consegui trocar três palavras. Nunca pensei que tivesse causado impressão.
Entre aquela noite e agora, sentimos tanto. Esse desperdício… Mas o fim pôs sua primeira máscara. Para ir adiante, ou para terminar, nunca tive certeza, precisei dizer “a verdade”. Admiti estar entre ela e outra, também linda e forte, embora de beleza e força tão diferentes, a quatrocentos quilômetros dali. Achei que explicando ela entenderia como, por causa dessa duplicidade, eu ficara totalmente incapaz de me enxergar no futuro, sequer dali a um mês de distância, que dirá de me ver projetado em qualquer prazo mais longo. Incapaz, portanto, de responder a horrível pergunta que sempre me faziam os amigos confidentes, ao longo de dois meses intermináveis: “No fim, qual delas você quer?”.
Eu estava sendo sincero, e daí? Como ela reagiria? O que falaria mais alto, a consciência do seu próprio valor ou um entendimento generoso de como são as coisas humanas, a despeito do valor que possamos ter? Traços agudos ou olhos tristes? Copo de chopp na cara ou… o quê?
“Não mente nunca pra mim.” Foi bom ouvir isso. Ela pareceu agradecer a minha sinceridade, sentir o meu desejo de me recompor. Entendeu de fato, acho, meu tormento com dois amores que não podiam se integrar, duas promessas biográficas inconciliáveis. Íntegro, aliás, é um adjetivo de duplo sentido. Chegamos a ter alguns encontros comigo assim, abertamente dividido, mas ela não quis ir adiante, o que também achei mais saudável. Se eu estava maluco — porque estar entre duas mulheres é a mais aguda forma de esquizofrenia —, que pelo menos ela tomasse uma decisão sensata. Claro que era melhor abafar a paixão no começo, preservar a amizade, preservar o respeito. “Alguma coisa boa.” Claro. Se ela não aceitava ser minha amante bissexta, eu também não me suportaria indefinidamente contraditório. E desleal, pois para a terceira ponta do triângulo eu jamais teria coragem de contar (a mentira era meu sinal inconsciente de preferência, minha cruel demonstração de amor).
*
Agora, olhando para trás, é até engraçado, de tão ingênuo, pensar que eu realmente acreditei ser a divisão entre as duas o motivo do impasse, da paralisia. A razão de me pegar desejando coisas em que não acreditava, especulando realidades que, se materializadas, só trariam complicação e dor. É realmente engraçado, pois em geral eu costumava subestimar minhas capacidades, e não o contrário. Por outro lado, nesse terreno eu já sobrevivera a poucas e boas. Devia ter ficado mais esperto. Devia. Mas não vi que a maior tragédia estava escondida. Até hoje é difícil me resignar.
A outra na outra cidade — no fim das contas, a que eu vivia —, por mais amada que fosse, servia apenas como pretexto para aquela contenção forçada, aquele jantar inquietante e para a falta de jeito entre nós. Ter outra mulher era um motivo triste, feio, mas jogava subliminarmente com uma esperança; afinal, o vínculo poderia se romper. Já a extensão da estrada que separava dois pontos no mapa, esta não desapareceria… O impedimento mais concreto, por si só. Insuperável, levando em conta as novas exigências profissionais a sua espera por lá, a minha vida reconstruída aqui, enfim, a fornalha escancarada, lá e cá, de nossas rotinas famintas nas duas maiores metrópoles do país. Me enganei o quanto pude, mas a razão, pura e simples, ou fria e calculista, ao final de sessenta dias com ela, e quinze anos depois da minha partida, mostrou que o melhor era mesmo conter a primeira nova ligação com a minha antiga fantasia de lar.
A velha fábula de duas cidades; novamente no melhor dos tempos, e no pior, na idade da sabedoria, e na da inconseqüência, na primavera da esperança, e no inverno do desespero; outra vez tínhamos tudo diante de nós, e não tínhamos nada. Igualzinho.
A razão distante quatrocentos quilômetros. Por mais que ela resistisse, apegando-se à existência da outra como o principal impedimento. Por mais que ela negasse, mostrando-se disposta a tentar vencer a barreira do espaço. De tão convicta, conseguiu adiar até em mim a constatação. Mas um dia… e o cotidiano?, e as noites jantando na frente da tv?, e a companhia casual que faz a diferença?. E o valor agregado na rotina?
Eu estava ficando velho. Não cínico, ou conformista: imediatista. Não agüentava mais projetar minha felicidade para longe, fosse no espaço ou no tempo; ou simplesmente naquela outra cidade.
Que bom filhadaputa era esse Nina Rodrigues!
“Para onde você quer ir agora?”
Esta pergunta, dita por ela já no carro, enquanto amarrávamos nossos corpos com os cintos-de-segurança, deixando o restaurante, embora feita com displicência (e a displicência é mesmo uma arte naquela situação), entrou pela minha cabeça como um arrepio. Pensei imediatamente numa cama metafísica. Haverá algum santo remédio para a instabilidade afetiva da minha geração? Se eu estivesse, a cada vez que fôsse para a cama com alguém, marcando minha vida para sempre…
Sorri e suspirei: a nossa leviandade original já estava cometida. Sugeri caminharmos na beira da praia. O Horto é perto do Leblon…
Enquanto o carro nos levava, o meu bom desempenho no jantar, graças ao qual não só resisti aos impulsos que certamente nos machucariam mais, como também consegui fazê-la rir da nossa situação, foi me embrulhando o estômago. Não o reneguei, longe disso, o perdi. Perdi a leveza. Fui enrijecendo, emudecendo, ficando intervalos ausente. A noite da ambigüidade, sinônimo de fim ou de última chance para recomeçar, estava terminando. Quando nos veríamos de novo? Como estaríamos então?
Ela ajudou, puxando assunto. Mas, quando chegamos na beira da praia, eu ainda sentia medo da hipnose que provocava em mim. Meus olhos se refugiaram na vista da cidade silenciosa, da noite fresca. No asfalto, os rastros da chuva. Nossa proximidade no carro me impedia de relaxar. Eu não estava seguro, mesmo preso pelo cinto anti-colisão. Bem perto, necessariamente distante. Vi suas mãos pequenas e brancas no volante. Num mergulho, vi a espuma do mar brilhando no escuro.
Do que eu estava fugindo, afinal? Da solidão de ter uma namorada em outra cidade? E o que era essa solidão? A solidão de ver minha terra natal se transformando sem me transformar junto? E o que era essa solidão? A solidão de ver meus pais envelhecendo longe de mim? De ver minha infância cada vez mais esgarçada? E o que era essa solidão? A solidão de um homem que não sabe quem é a mulher da sua vida? E o que era essa solidão? A solidão do passar do tempo? E o que era essa solidão? A solidão diante da expectativa da morte? E o que era essa solidão? A solidão da vida mal aproveitada? E o que era essa solidão? A solidão da consciência de que uma vida só é muito pouco? (tão aguda quando se tem dois amores.) E o que era essa solidão? A solidão que é precisar fazer opções, afunilando o destino cada vez mais e mais? Em que consistem todas essas formas de solidão? Na solidão que é chegar a esse ponto?
E se além da outra mulher, além da outra cidade, houvesse uma correspondência entre aquelas duas mulheres, aquelas duas cidades, e meu passado e meu presente? O terceiro rosto do drama, nesse caso, traria várias dimensões de vida enroscadas em torno de mim, feito aquelas cobras monstruosas que nos espremem e sufocam, esmigalhando nossos pobres ossinhos.
Olhei o mar, imaginei como seria viver no Rio outra vez. Andávamos lentamente, quase em completo silêncio. As ondas estouravam diante de nós, numa ressaca leve. Carros passavam úmidos. Ela, linda e mais natural do que eu.
Ao entrar no seu quarto pela primeira vez — sessenta dias, três horas e vinte e três minutos atrás, para ser mais exato —, reparei nas estranhas lembranças que costumava guardar dos lugares: ar de Paris, num vidrinho; pedaço do Muro, numa vitrininha de plástico; sal de Cabo Frio, num saquinho, detalhe, num saquinho rosa; névoa de Amsterdã, em outro vidrinho; cheiro de Portugal, num livretinho obscuro; uma pena de fragata de Búzios, por aí vai. A paixão feminina é delicadeza.
“E do Rio? Não tem nada?”
“Você precisa?”
Também sabia ser dura, mas foi quem me puxou para sentar, num banco do calçadão. Nossa maneira suave de prolongar a tristeza. A noite fresca, uma brisa, o perfume do mar, a areia branca, o desenho de luz na distância. Com tanta beleza a minha frente, ao meu lado, e sabendo que estava obrigado a não conviver com ela, a só admirá-la de vez em quando, de passagem, nas horas vagas das horas vagas, não pude evitar um suspiro dilacerante, daqueles que esvaziam o peito e fazem a cabeça cair. Ela sorriu e me perguntou, metade carinhosa metade condescendente:
“O que foi, menino?”
Enquanto eu pensava numa resposta (ela era seis anos mais moça que eu), as palavras escapuliram da minha boca:
“Estou lutando…”
Eu só não queria magoá-la mais, e não conseguiria, sozinho contra tantas solidões, contra o massacre minimalista e radical do tempo, amar alguém a distância. E depois, de que adiantava ser feliz nos fins de semana, se isso me desligaria do meu mundo tal qual eu o havia recriado, bem longe dali? Se essa felicidade, mesmo sem querer, diluiria minha biografia recente numa ilusão nostálgica de tempos remotos, no fundo não vividos, irrealmente desejados.
“Lutando, ainda?”
Fomos tomar chá em seu apartamento. O clima de despedida latejando por baixo da amizade que fingíamos começar. Eu não tinha forças para muita coisa, muito menos para resistir. Ela encompridava tudo, na falta de uma saída minimamente satisfatória; que também não imaginava qual seria, mas esperava com um pouco mais de dignidade.
Quando entramos e ela acendeu o abajur da sala, revi o ambiente para o qual talvez eu nunca mais voltasse — aquela falsa amizade nunca iria dar certo, pensei, num instante de pessimismo. Imaginava ter me despedido dali antes. Na penumbra, o lugar entreabriu os olhos, espreguiçando-se. Fiquei em pé, enquanto ela foi até a cozinha ferver a água, e eu me senti amado, acolhido, mas traidor. Magoando a quem me amava. Por que então a gentileza comigo? Ela circulou pela sala, acendendo uma vela aromática. Passou por mim e pôs música. Foi até o quarto e voltou com o corpo solto numa longa bata branca, mais nada. Parecia uma fada, a encantadora fada de uma cidade distante no meu passado, talvez no meu futuro, mas que não pertencia, com triste certeza, ao meu presente. Aquela mulher não devia existir ainda.
Eu poderia ter proposto que deixasse para trás seu bom momento profissional. Mas nestes nossos tempos não fazemos mais propostas assim. Eu poderia ter voltado a morar no Rio, mas, aí, teria conseguido ser generoso o suficiente para amá-la depois disso?
Seriam essas decisões de vida, essas estruturais, as determinantes para a felicidade? Ou, como a música sussurrava à meia-luz, em tom de carícia, as causas da paz interior eram as pequenas coisas ao alcance de todos?… o violão delicado, a voz macia, uma bossa nova no jeito de andar, falar, mexer, que muda a nossa atuação e percepção, a vista da janela, de braços abertos… as simplicidades que independem e sobrevivem às mudanças estruturais… o momento que não se repete e não se planeja, o chá quente, servido em canecas de cerâmica feitas por ela (outro de seus dons), o rosto amoroso voltado para mim, com dois pontos verdes brilhando a meu favor, a vela ainda acesa, a presença da montanha, o perfume do mar em nossas roupas, o cheiro da floresta, o fato de se ter nascido numa determinada cidade, num determinado país, vivendo uma determinada vida em outro lugar, e de não prestar contas quanto a isso, quanto a coisa nenhuma, a ninguém, porque não adianta, não resolve, não pára nunca: é tudo uma engrenagem muito maior.
Já não foi mais possível conter gestos, olhares, nada. E nossos corpos, finalmente, puderam se despedir.
Este texto originalmente apareceu na antologia de contos Aquela canção, Publifolha, SP, 2005.