Enfrento. Logo, existo | Sobre Sargento Getúlio
Enfrento. Logo, existo.
uma leitura de Sargento Getúlio
Estamos em pleno sertão. Um sertão literário. As palavras se mexem na página, pululando como pequenas formas selvagens de vida; besouros, escorpiões, lacraias. As frases se entortam, se enroscam umas nas outras; mil chocalhos serpenteando no ar. As idéias, emendadas num fluxo de monólogo sem parágrafos, são léguas de texto, léguas espinhentas, secas, que medem a determinação do leitor e tomam conta de tudo.
Tais exigências estilísticas, presentes desde a primeira linha de Sargento Getúlio, têm duplo efeito. De um lado, submetem o leitor à mesma sensação de perigo constante a que estão expostos o personagem-título, o prisioneiro que ele capturou e escolta como se fosse qualquer um, vagamente nomeado de “Vosmecê”, e o motorista Amaro.
De outro, recriam com perfeição a paisagem percorrida pelos três homens, a do sertão entre a Bahia e Sergipe, ou, mais especificamente, entre a cidade de Paulo Afonso e a capital Aracaju. A primeira descrição que Getúlio faz desta paisagem, na abertura do romance, parece de fato apontar uma equivalência entre os aspectos estilísticos gerais e o cenário onde a história se passa: “E sertão brabo: favelas e cansaçãos, tudo ardiloso, quipás por baixo, um inferno. Plantas e mulheres reimosas, possibilitando chagas, bichos de muita aleiva, potós, lacraias, piolhos de cobra, veja” (p. 9). Tudo, a princípio, é estranho e perigoso.
E o leitor, ameaçado por todos os lados, como os três homens em sua travessia, deve se medir na superação dos obstáculos que o afastam do objetivo mais elementar, no caso, chegar até o fim da leitura, arrancar, da inóspita paisagem narrativa, além da psicologia dos personagens, a história e os eixos temáticos sobre os quais ela se constrói.
Um destes eixos é de fundo moral. Em Sargento Getúlio, além de ser o território selvagem no qual o protagonista e seus dois acompanhantes lutam pela sobrevivência física, o sertão é também o espaço de sua luta pela sobrevivência moral, onde os bravos enfrentam a vida, e os covardes se entregam. A travessia dos personagens, na sua carga simbólica mais estrutural, remete ao arcabouço mítico da viagem — no espaço e no espírito — que leva o herói de um plano existencial a outro. O sertão funciona aí como a materialização geográfica de uma instância superior, que apura o valor dos homens. Tão superior que, sendo capaz de aquilatar as forças em combate, é ainda capaz de igualá-las na hora da morte. “Não tem limites”, diz Getúlio (p.10), “para a frouxidão que faz o homem dar nas canelas e botar a alma no mundo, correndo do destino. A hora de cada um é a hora de cada um”. Há, por tudo isso, um sopro de tragédia clássica em Sargento Getúlio.
Mas o romance é, também, histórico. Mostra a passagem de um tempo em que PSD e UDN colocavam-se acima da lei — distorcidos para pior longe dos grandes centros urbanos, disputando à bala a hegemonia sobre a política local e regional —, para outro momento, em que mediações sócio-políticas se sobrepõem ao conflito de interesses mais cru, e limitam por meios institucionais os rasgos voluntaristas dos antigos donos do poder.
Ao começar o romance, Getúlio está a serviço de um líder do PSD de Aracaju, Acrísio Antunes. Dele vem a ordem para que “Vosmecê”, um udenista acusado de ser o mandante de vários crimes, fugido e protegido na cidade de Paulo Afonso, seja preso e levado, se necessário à força, mas vivo, até Aracaju. Tal ordem parte do meio urbano e, na mais perfeita continuidade, deve ser executada através do sertão. Adiante, porém, a norma política dada no início da história se fragmenta, torna-se esquizofrênica. Getúlio, ainda em plena travessia, já perseguido por pistoleiros a serviço de udenistas e por tropas regulares, recebe uma contra-ordem de Acrísio Antunes: o prisioneiro deve ser libertado. Tal reviravolta, provocada pela repercussão, em Aracaju, dos excessos de violência cometidos por Getúlio durante a missão, acontece também, e sobretudo, porque um novo quadro político se instaura na capital, sobrepondo-se à vontade tradicionalmente todo-poderosa do Chefe. Um novo quadro, funcionando sob novo código, em que a imprensa e a justiça restringem os poderes antes ilimitados dos mandatários locais. No sertão, porém, o tempo das mudanças é mais lento que no meio urbano. Getúlio resiste. Apesar da contra-ordem, insiste naquela arbitrária ordem de prisão.
É freqüente, no monólogo do protagonista, a contraposição entre duas modalidades políticas. “Política de macho é aqui” (p.16), diz ele, referindo-se à praticada no sertão, que se opõe à “política de prosa” (p.103). “A política está mudando, eu disse, está ficando uma política maricona” (p.56), comenta ainda Getúlio, explicitando o processo que ocorre a sua volta.
Ao se falar desta dimensão histórica do romance, é inevitável fazer um pequeno parêntese sobre suas fontes autobiográficas. Conta João Ubaldo: “Meu pai era realmente um chefe político, era um pessedista, e como era um homem muito combativo, muito atilado, ficava exposto àquele tipo de política que lá no livro a gente chama de política-porrada. Então, no livro, toda hora você vê referência à política de homem, à política de macho. É aquele tipo de política que se fazia, ou seja, o confronto básico, direto, entre: ‘eu quero tal coisa’, ‘você não quer tal coisa’, ‘não vou lhe dar’, ‘você vai ter que vir tomar’, e acabou-se”.
E mesmo o personagem-título é inspirado em pessoas reais. Ele resulta da fusão entre um Getúlio, o sargento a serviço do pai que era o favorito de João Ubaldo quando criança; um sargento Tárcio, a figura física que o autor diz ter tido em mente quando escreveu o livro e compôs seu personagem central; e um sargento Cavalcanti, que, após tomar dezessete tiros no corpo, foi transportado exatamente pelo trecho no qual viajam os personagens, chegando a Aracaju com vida! Não é portanto coincidência que Getúlio diga ter catorze balas no corpo (p. 85).
Mas estes dois veios de interpretação do romance, o moral e o histórico, transcendem os personagens, tomados individualmente ou uns em relação aos outros. E os personagens constituem, afinal de contas, a dimensão humana de qualquer história, aquela que realmente agarra a emoção do leitor. João Ubaldo sabe disso como poucos escritores hoje em dia e, da natureza áspera do romance, faz brotar personagens fortes e psicologicamente dinâmicos.
Getúlio Santos Bezerra é um sargento da Polícia Militar na trincheira da política regional. De seu passado, menciona lembranças esparsas da infância — as idas à feira, os enterros que, em sua cidade natal, ocorriam bem cedo pela manhã, “Precisava ser cedo, porque logo se trabalhava” (p.29-30), as brincadeiras com os meninos (p.X), a lentidão do passar do tempo (p.X) —, e admite sem culpa um grande crime, o assassinato da própria esposa, grávida, em castigo por adultério — “Matei sem raiva. (…) A dor de corno, uma dor funda na caixa, uma coisa tirando a força de dentro” (p.38). Desde então, sabemos que vive sem família — “Minha mulher sou eu e meu filho sou eu e eu sou eu” (p.39), que perdeu o melhor amigo, Tárcio, num tiroteio (p.37), e que acoberta seu gênio sanguinolento, em troca da mais completa obediência e fidelidade, à sombra de um coronel poderoso em toda a região, Acrísio Antunes, o Chefe — “Em Aracaju tenho as costas quentes” (p.12). Mesmo assim, ele já tem mais de vinte mortes na folha de serviços (p.14), e diz ser esta sua última missão. Seu mundo de combate franco, aberto, entre as forças (a)políticas, está acabando. Ele não gosta do serviço de levar prisioneiros, provavelmente por não gostar de fazer prisioneiros. Terminada a travessia, pretende “largar a vida de cigano” (p.13): “Me aposento-me. Uma casa em Japaratuba, que é um lugar fresco e assossegado (…) E fico encostado, comendo caranguejo. Assino a orelha de um par de cabras de leite e fico lá encostado, jogando gamão” (p.14).
Vale registrar, no entanto, que Getúlio não se considera um simples jagunço, ou um matador de aluguel. E não é apenas a patente que o diferencia. Ele deixa isso bem claro ao discorrer sobre um feito de armas anterior, no qual seu parceiro Tonico usara uma metralhadora e ele, um revólver: “aquilo [a metralhadora] é uma espirrada que desparrama sangue por todo canto e não deixa nada inteiro. Tonico gostava, era mais pistoleiro do que político. Eu sou político, não mato à toa” (p.24). Em sua ética enviesada, os assassinatos que comete, sendo politicamente motivados, tornam-se parte do jogo político, e não atos criminosos. Além disso, posto que não são mortandades generalizadas, ou execuções covardes, tornam-se provas de sua bravura e, portanto, de seu valor moral. Claro que, nesta ética absolutamente partidária, as mesmas atenuantes não valem para os crimes supostamente comandados por seu prisioneiro (p. 32).
Getúlio não se permite tais questionamentos, ele expulsa a crise de dentro de si, falando sem parar. A solidão, a ausência de laços familiares, a impossibilidade do descanso, da estabilidade, o destino errante, a preocupação com sua honra e a eterna vigilância, uma desconfiança permanente e generalizada de tudo e de todos, dados psicológicos típicos dos pistoleiros, o perseguem, em seu sertão particular.
O “Chefe”, tal qual descrito por Getúlio, é uma figura conhecida por leitores de todo o país: “Compro Quina Petróleo Oriental, como o Chefe usa e sai todo busuntado, passeando na rua João Pessoa, de roupa branca e um lenço no bolso e dando aquelas paradas para conversar e explicar a situação e depois sentando para tomar cerveja e comer queijo com um molho preto em cima” (p.16). Somando-se a isso o exercício da política e da violência, não é preciso ir além para se ter diante dos olhos a figura do mais perfeito coronel.
Já de Amaro, o motorista que leva o protagonista e seu prisioneiro pelo sertão, dirigindo um automóvel americano da marca “Hudso”, a primeira descrição que se tem é a de um homem silencioso quando está dirigindo (p.11) e tranqüilo, o que a princípio Getúlio enxerga como fraqueza (p.11).
Quanto ao prisioneiro, a imagem dada pelo sargento está longe de ser das melhores. Como poderia ser diferente? Sabemos que tem estudos, ao contrário do próprio Getúlio e de Amaro, embora este atributo pareça ter nenhum valor — “tem ginásio, tem ginásio! Nunca vi ginásio fazer caráter” (p.27). A frieza, supostamente, é um de seus traços predominantes — “Garanto que na hora de apertar o gatilho para matar uma família toda, nem pensou” (p.28) —, ou então a covardia, se na verdade ele for apenas o mandante dos crimes — “Vosmecê não acredito que tenha visto um homem resistindo da morte, porque o que me dizem é que Vosmecê manda, não faz” (p.23). Os demais adjetivos que lhe são endereçados ao longo do romance são sempre os piores: “desgramado”, “bexiguento”, “cão da pustema apustemado”, “pirobo semvergonho, pirobão sacano xibungo, bexiguento chuparino do cão da gota do estupor do balaio, mija-na-vareta” (p.27). E seu comportamento nunca é digno: “Valente que fazia gosto, todo desfricotado, todo muito macho, todinho um cabra de Lampião, ah cafetino desterrado, pistoleiro de meia pataca” (p.28).
O prisioneiro é tratado por Getúlio menos como gente do que como uma carga inanimada, de tão desprezível, e chega a ser chamado de “trem”, “traste”, ou mesmo “coisa”. Ou, mais tarde, é tratado como um animal, agrilhoado pelo pescoço, que arrasta por onde quer e amarra quando bem entende. Em relação ao prisioneiro, além dos ódios políticos, Getúlio se ressente da fama de homem mau, enquanto Vosmecê goza de uma reputação melhor: “É uma finura. Como se nunca tivesse dado uma ordem de morte, como se nunca tivesse anulado uma urna, como se nunca tivesse um pecado nas costas, que tal? Por essa razão que o bandido sou eu aqui, eu que nunca dei tiro por trás de ninguém, nunca. Pois sou o bandido aqui” (p.45).
Mas o leitor de Sargento Getúlio não tem vida fácil. Após desentranhar do monólogo emaranhado alguns eixos interpretativos, sobre-humanos, e mesmo após extrair uma primeira caracterização dos personagens, mais desafios lhe aparecem. Se a psicologia dos personagens principais é dinâmica, como já foi dito, estas caracterizações iniciais não são suficientes, e para entender as transformações por que passam torna-se preciso refazer mentalmente a linearidade narrativa desconstruída pelo fluxo livre de Getúlio. Sem que se monte uma trajetória evolutiva linear, os diferentes momentos de cada personagem se alternarão aleatoriamente, sem lógica alguma. Mas até organizar a seqüência dos episódios que compõem a história principal exige alguma luta.
1) Quando começa a história, Getúlio e Amaro já prenderam o udenista, estão no caminho de volta para Aracaju; 2) são orientados por um mensageiro do Chefe, Elevaldo, a aguardar novo contato estacionados na fazenda de “seu” Nestor Franco, indivíduo subordinado à rede de influência do Chefe, que mora com a esposa, Osonira, e a filha; nesta fazenda, castigando o prisioneiro por supostamente haver atentado contra a “pureza” da filha de seu anfitrião, Getúlio arranca-lhe quatro dentes com um alicate, mesmo sabendo que na verdade o atentado acontecera no sentido inverso; 3) a fazenda é cercada por uma tropa regular, à qual foi legalmente atribuída a custódia do prisioneiro, mas, diante da recusa de seu Nestor e Getúlio em obedecer a ordem legal, há um combate; 4) a tropa é derrotada, e Getúlio, após ser chamado de corno, degola o tenente que o ofendeu; 5) Getúlio, Amaro e o prisioneiro fogem da fazenda e procuram abrigo junto a outro “contato” do Chefe, uma espécie de padre-pistoleiro, “o padre de aço”, que os recebe mas os aconselha a soltar “Vosmecê”, pois não acredita que o Chefe ainda consiga sobrepor a sua lei à justiça constituída; 6) com o recrudescimento da perseguição que enfrenta, com o enfraquecimento político do Chefe, e ainda escondido pelo padre, Getúlio recebe, de novos mensageiros de Acrísio Antunes, ordens agora explícitas de soltar o prisioneiro e fugir; 7) Getúlio, em parte por desconfiar da veracidade da mensagem, em parte por obediência incondicional a sua missão, constituindo uma ética própria, decide prosseguir executando a ordem inicial, ou seja, levar o prisioneiro até Aracaju; 8 ) o automóvel fica sem gasolina no meio do nada, e os três seguem a pé pelo sertão; 9) abrigam-se na casa de Luzinete, uma amante regular de Getúlio, que o ama e deseja casar-se com ele, e com quem o próprio sargento imaginava viver após sua aposentadoria do mundo das armas; 10) pela posse de uma metralhadora, Getúlio ataca o destacamento de Japaratuba, disfarçado de mulher; 11) embora consiga algum armamento na investida, Getúlio e Amaro são flagrados e perseguidos na fuga; 12) as tropas que os perseguem cercam a casa de Luzinete; 13) Luzinete e Amaro morrem, ele pelas balas dos soldados, ela por bombas que explodem acidentalmente em suas mãos; 14) Getúlio, arrastando o prisioneiro, escapa milagrosamente, e retoma a viagem em direção a Aracaju; 15) já em Barra dos Coqueiros, muito perto de seu destino, é atocaiado e…
Para se montar uma seqüência como esta, no entanto, à medida que se avança no romance, leitor precisa dominar pelo menos duas das estruturas narrativas mais usadas do monólogo de Getúlio. São duas técnicas narrativas ligadas ao encadeamento da história, e não a seus aspectos estilísticos. Uma impõe ritmo frenético à leitura, impossibilitando uma intelecção pausada e controlada da trama narrativa principal. A outra superpõe seqüências, embaçando a visão que se tem do conjunto.
A primeira manifesta-se nas alternâncias de conteúdo que ocorrem a todo instante e em alta velocidade no monólogo do protagonista. Tais alternâncias sucedem-se com mínima marcação gráfica ou diferenciação de tom, e assim dão forma à massa compacta de texto, emenda praticamente contínua e sem intervalo entre dados narrativos, elementos da subjetividade dos personagens, meros comentários paralelos, escatologias, considerações metafísicas, uns poucos diálogos, volta e meio reproduzidos unilateralmente pelo narrador, e cenas meramente descritivas.
Como um viveiro de cobras que, se o leitor olha de perto, fervilha, e, se olha de longe, ganha unidade aparente, torna-se um plano imóvel. O olhar aproximado permite ver que o discurso se movimenta ininterruptamente, a todo momento entrando e saindo do trajeto narrativo principal, sempre abrindo trilhas erráticas no sertão literário.
O livro abre, por exemplo, com o narrador dando muitas informações diretamente ligadas àquele que de fato é o vetor temporal do romance, a viagem dos três homens pelo sertão. Tais informações, portanto, estão ligadas ao seqüenciamento dos episódios que compõem a trama principal. Mas então Getúlio menciona a morte de um jagunço, e parte de estalo para digressões de outra ordem, numa divagação, a seu modo metafísica, sobre o homem diante da morte, a visão da morte, os urubus e a morte, a visão que os urubus têm do homem, e os homens do urubu, os urubus como os grandes predadores do sertão (p.10). A história principal é largada de uma hora para outra. E por mais algumas linhas ele alterna considerações filosóficas sobre a morte com a notícia da morte de outro jagunço (p.10-11). Então, ainda no embalo inicial, dirige-se a Amaro e faz considerações sobre o temperamento do companheiro de viagem, sobre o lugar onde nasceu. E isso ele emenda no relato de alguns castigos grandes e pequenos aplicados a seus desafetos, e fala com o prisioneiro, e fala do seu Chefe, e faz considerações sobre a sua aposentadoria, o que por sua vez o leva a enumerar preceitos de sobrevivência no sertão (p.12-13), etc., etc. Pode-se ficar meia hora inventariando os assuntos que se sucedem até a primeira quebra efetiva do fluxo narrativo, dezessete páginas depois. Assim a história prossegue, ocultada pelo tiroteio de assuntos.
Em Sargento Getúlio, as quebras de capítulo são os únicos momentos em que o leitor consegue tomar um fôlego digno do nome. Mas, ai!, o segundo aspecto deste desvairio narrativo, contra o qual o leitor também precisa estar prevenido, ocorre com especial freqüência justamente nas aberturas de capítulo.
São as “dobras” temporais que Getúlio cria na história que está contando. Elas embaralha fragmentos de determinada seqüência, saltando para frente e para trás na linha do tempo. Os assuntos não apenas mudam com rapidez, podem também estar reconstruídos fora de ordem. Por exemplo no trecho em que o sargento e Amaro deixam a fazenda de Nestor e são abrigados pelo padre de aço. No fim do capítulo 3, que se passa com os três abrigados na fazenda de Boa Esperança, o episódio entre Vosmecê e a filha de Nestor culmina com os dentes do prisioneiro sendo arrancados. O capítulo 4, num corte descontínuo, já começa com Getúlio e Amaro rezando, em Japoatã, ao lado de um padre (p.61).
Até aí, tudo bem. Mas o narrador, após uma rápida pincelada descritiva no perfil do tal padre, volta no tempo — embora não a ponto de iluminar a lacuna que existe entre os capítulos —, e Getúlio conta como o padre agiu quando os recebeu, e como estavam quando chegaram. Então, com novo deslocamento no tempo, menciona-se que a fazenda de Nestor foi atacada — “Nestor morreu, o padre foi perguntando, sem abrir a bendita porta. Não morre fácil, eu disse, porém eu acho que está dando um fim numa ruma de gente lá, acho que está uma mortandade na Boa Esperança, porque quiseram entrar apusso nas terras” (p.63). A ação volta para perto de onde estava no fim do cap. 3, mas não ao ponto propriamente onde ele terminou. E pior, não descreve o ataque a fazenda, apenas o menciona. Em seguida Getúlio descreve como o padre se movimentava em seu espaço, cercado de armas e cães (p.62-63), e há um pequeno diálogo entre eles no qual o padre explica as origens de sua habilidade com as armas — “Teve um tempo que se fazia eleição na igreja, disse o padre, aí, aí é que era preciso muito preparo, disse o padre (…)” (p. 64). O padre então os convoca para a reza: “Isso é uma porra — disse o padre, levantando os braços duros para o lado e descendo para bater forte nos quartos. — Desce todo mundo para rezar” (p.64). Com isso, o leitor é jogado de volta para o tempo das primeiras linhas do capítulo.
Mas as dobras temporais continuam se fazendo presentes, são estruturais da narrativa. Durante a reza, intrigado pelo estado deplorável do prisioneiro, o padre pergunta a Getúlio o que houve, e o sargento não se faz de rogado e conta a história. Ao terminá-la, o padre decide cuidar do prisioneiro, instalando-o num quarto e dando-lhe remédios para cicatrizar as feridas (p.66). Amaro dorme, Getúlio fala quase a esmo, rindo de Amaro, do padre, contando casos, refletindo sobre a situação política e de risco físico em que ele e Amaro estão metidos, inclusive anunciando seu projeto de esconder-se em Barra dos Coqueiros, defronte de Aracaju, tão perto que ali ninguém imaginaria encontrá-los, volta a falar do padre, agora admirando-lhe a arma (p.68), reclama da vida sem descanso, de Sergipe, e comenta sobre o cachorro que teve (p.69). Então, quase encoberta pela névoa criada por esta sucessão meio caótica de assuntos, pela incapacidade de Getúlio em ser direto, anuncia-se o relato da cena em que a fazenda de seu Nestor foi atacada (p.70). Será enfim coberta a lacuna temporal criada lá atrás, na passagem do capítulo 3 para o 4.
Getúlio descreve os primeiros sinais dissimulados de Nestor. Após um encontro com o mensageiro do Chefe, Elevaldo, no qual ficara sabendo que tropas regulares vinham na direção de sua fazenda em busca do prisioneiro, o fazendeiro decide enfrentá-las, dando aos perseguidos tempo de fugir para outro abrigo na rede de proteção estendida pelo Chefe, mais uma base local de seu poder regional: a igreja do padre de aço. Antes de falar sobre o início do tiroteio com as tropas, e de dar um quadro coerente de sua evolução, Getúlio abre o parágrafo seguinte pulando para frente no tempo, ao anunciar que degolou um tenente (p.71). Durante seis linhas comenta o fato, sem que saibamos como chegou a tal gesto limite. Então ele dá outro pulo no tempo, agora mais para trás, para antes do início do tiroteio, e conta da espera pelas tropas na encruzilhada, sua chegada, o reconhecimento do tenente — “Nisso, eu estou conhecendo ele, que chama-se Amâncio e é por demais perverso, todo mundo sabe, e é udenista” (p.71) —, da irritação que o tenente lhe causa, com suas finuras e voz fina, do enfrentamento verbal entre seu Nestor e o tenente (p.72 e 73) e finalmente do início do tiroteio (p.74) e da cena da degola do tenente (p.75 a 77), quando se dá nova transição temporal, de volta ao momento em que Getúlio, com Amaro dormindo a seu lado sob a proteção do padre de aço, dorme ele também, e sonha (p.77), o que por sua vez emenda com outro pulo para o passado, agora mais distante, na longa recordação de um almoço do Chefe e seus homens na casa de um amigo (p. 78 a 82).
O leitor de Sargento Getúlio, no entanto — quando aprende a lidar com os obstáculos naturais que o romance-sertão lhe coloca, alerta para não se atordoar pela vertiginosa sucessão de assuntos, para não perder, neste ir e vir cronológico, a coerência evolutiva da trama principal —, é recompensado com protagonistas nos quais psicologia individual e fundo mítico atingem uma combinação poderosa.
Dentre eles, claro que Getúlio se destaca como o mais forte. Porém, até para compreendê-lo integralmente é bom entender quem está a sua volta, começando por Amaro, o motorista Amaro. No físico, é um homem pequeno (p.139), com destes podres — “A boca é engraçada, como dentes cavados numa casca de melancia” (p.51) — que tem um calombo, ou “pitombo” na testa, onde, como num tique, num hábito involuntário, passa cuspe (p.48).
E ao contrário do que se imagina a partir do perfil inicial que dele compõe Getúlio, reproduzido páginas atrás, na verdade Amaro não é essencialmente taciturno. Embora criticando sua “fala mole de muribequense” (p.51), e sua dicção de desdentado, o próprio Getúlio admite isso: “Mas a verdade é que Amaro gosta de falar: Amaro ou fala de mulher ou de futebol” (p.51); “Amaro gosta de palavras. Fica repetindo uma porção sozinho, feito maluco, acho que só para sentir o gosto” (p.50).
Amaro é ainda um contador de histórias. O monólogo praticamente ininterrupto de Getúlio ao longo de todo o romance sugere, em certos momentos, que o narrador reproduz esse aspecto da personalidade do motorista, pois Amaro também tem um “jeito atrapalhado” de narrar: “(…) mesmo porque Amaro se esquece do começo ou do fim das histórias, às vezes esquece do meio, às vezes esquece do fim, às vezes esquece do começo e diz assim: essa eu começo do meio, essa eu começo pelo fim, conforme. Tem umas que só se lembra uns pedaços ali, outros pedaços lá” (p.104).
Nenhum catedrático em Teoria Literária descreveria com mais propriedade os cacoetes narrativos do próprio Getúlio!
E Amaro é também um cantador: “Amaro sabe diversas [músicas], mas tem costume de pegar uma e não tirar da boca, e aí fica o dia todo naquilo só” (p.50). Getúlio se diverte com as músicas e as histórias fantasiosas de Amaro, e pede-lhe que cante (p.105). Amaro parece mesmo ser um homem naturalmente afável, cheio de dotes para a comunicação e o divertimento. É inclusive, hábil jogador de damas e dominó (p.87).
Getúlio, que se julga o perfeito exemplo do homem de armas, ao longo de todo o livro aponta em Amaro qualidades e comportamentos que diferem dos seus. Na igreja do padre de aço, mais uma vez, registra um deles, agora o lado religioso praticante de Amaro: “Nem nunca pude pensar que Amaro soubesse essas rezas (…)” (p.61). Getúlio admira este traço do motorista, e liga-o à habilidade de Amaro por trás do volante, que ele também admira: “Amaro está uma novidade, entertido nas rezas. Deve ser por isso que nunca bateu no carro, se fecha-se com as rezas. Tinha vontade de saber rezas assim” (p.65).
O sargento também fica surpreso ante a facilidade com que Amaro pega no sono em tempos de guerra (p.77). Por outro lado, Amaro é atento às coisas da natureza, capaz de fixar sua atenção nos elementos mais corriqueiros e de se impressionar com eles, como no caso das jias, isto é, das pererecas (p.52). E ele é também paciente, como demonstra no episódio da caça ao teiú: “Esse teiú que nós caçamos, caçamos sem querer, porque Amaro viu a toca e se aprestou. Paciência assim nunca vi, é que nem perdigueiro” (p.106).
Como levam a crer suas características individuais e o papel que inicialmente lhe cabe na captura de Vosmecê, Amaro é, ao contrário de Getúlio, um empregado mais útil nas horas de paz que nas de guerra. Ir buscar o “traste” udenista em Paulo Afonso deveria, portanto, ser coisa fácil, para poucos homens, sendo um o motorista, e não um pistoleiro experimentado. Amaro não parece ter nascido para o movimento constante do homem de armas por vocação, para o estado de alerta sem fim, para a solidão profunda de quem trabalha na fronteira entre a vida e a morte. Amaro é capaz de descansar e se entregar ao conforto e à paz da casa de Luzinete, enquanto Getúlio irá resistir contra essa promessa de estabilidade, estragando sua única chance de uma vida tranqüila (p.111).
Contudo, se ora o sargento admira as qualidades de seu motorista, como a facilidade com as músicas, a paciência na caça, por outro lado ora ele as considera um sinal de fraqueza: “Oi, Amaro, inda mais que tu é frouxo por demasiado. Vosmecê sabe, esse apustemado é de Muribeca. Povo de Muribeca não presta, tudo tabaréu, lá não tem nada (…)” (p.11-12).
Quando o automóvel “Hudso” quebra, largando os três, perseguidos, em pleno sertão, o coração menos endurecido de Amaro se mostra de novo. Para fazer o prisioneiro andar, e não atrasá-los na fuga, os dois espetam-lhe a espora nas costas. Mas Getúlio percebe que Amaro, no fundo, tem pena: “Oras eu esporo, oras Amaro espora, mas eu prefiro esporar eu mesmo, porque Amaro não espora bem. Espora mal: quando encarca a espora nos quartos do traste, faz uma careta e agüenta a mão um pouco. Falta umas coisas em Amaro, não sei o que é, bom assim alguém acerta ele, sempre eu disse” (p.103). E até o tenente Amâncio, momentos antes de ser degolado, xinga Amaro de “pirobo” (p.73). Ao que parece, Amaro tinha fama.
Isso porque muitas das características de sua personalidade, sejam elas talentos adquiridos ou virtudes natas, estão distantes do padrão “homem-macho” professado por Getúlio, que encarna a norma geral dos sertanejos. Considerando o mundo em que viviam, isto já seria um problema. Mas o outro lado da moeda era pior ainda. A sensibilidade de Amaro estava próxima do que se poderia chamar de uma “sensibilidade feminina”, e de um treinamento social feminino. Seus “talentos”, afora a habilidade no volante, eram mais afeitos às mulheres que aos jagunços; jogos de salão, histórias, músicas e, sobretudo, rezas. Não por acaso, Getúlio, em um dado momento, lhe pergunta: “Ô Amaro, iú, ô fulô, se eu fosse Lampião tu ia ser Maria Bonita?” (p.115-116).
Não há, entretanto, nenhum traço homossexual no motorista. Logo de início Getúlio deixa isso claro: “Não tem jeito, quando está dirigindo não gosta de prosa. Não ser quando dá bigu às raparigas. Não semos raparigas, pelo menos eu não sou rapariga, desculpe. (…)” (p.11-12). E mais tarde o confirma ao repreender Amaro por seu interesse na filha do fazendeiro Nestor: “Amaro viu ontem e disse: Deus lhe crie, benza Nossa Senhora. E ficou de olho pregado no assento dela, pensando besteira. Eu disse: Amaro, ói” (p.42-43).
Getúlio e Amaro são, portanto, personagens complementares. Eles fazem, a seu modo, uma dupla literária notável. As qualidades de um estão ausentes no outro. Amaro, onde Getúlio é explosivo, é paciente; onde Getúlio é bravo e rude, é delicado e condescendente. Se Getúlio passa 24 horas por dia elaborando estratégias de sobrevivência, homem muito mais prático que é, Amaro canta canções de cor e sabe contar histórias impossíveis, permitindo-se boa dose de contato com o mundo da fantasia. É compreensível que, num dos poucos momentos em que projeta um futuro diferente para si, imaginando-se deputado, Getúlio ainda vislumbre Amaro como seu motorista (p.123).
Mas Amaro, ao longo da viagem que empreendem pelo sertão, vai se transformando aos olhos do sargento. Ao final do livro, o motorista deixa de ser um homem de alma feminina, torna-se um guerreiro. Alguns traços de sua personalidade antecipam tal destino. Amaro, por exemplo, é extremamente sério em seu trabalho e, enquanto dirige, não gosta nem de falar. E Getúlio também reconhece que Amaro tem “mão firme” (p.20), pois anda “ripado pela estrada” (p.16). E nunca, em nenhum momento, Amaro fraqueja diante das ordens de seu chefe imediato. Quando muito, pondera quanto à viabilidade dos planos do sargento, como faz, por exemplo, quando o alerta para o perigo da gasolina acabar no meio do sertão (p.92). Mesmo nesses casos, porém, quando a determinação heróica de Getúlio se sobrepõe ao bom senso, Amaro acata e desempenha.
A clássica estrutura mítica da viagem que transforma o herói, se vale para Getúlio, como se verá, vale também, numa ordem inferior de grandeza, para Amaro. Sua trajetória constitui uma sub-trama, que espelha de forma rebaixada o processo ocorrido com o personagem-título do romance.
Durante a perseguição que sofrem, o gradual isolamento de Getúlio e Amaro contribui para que a ligação dos dois se reforce, mas Getúlio demora a confiar inteiramente no tirocínio de seu motorista. É o que ele diz quando, ainda na igreja do padre de aço, recebe mais uma vez ordens para que solte o prisioneiro e tome chá-de-sumiço por uns tempos: “Mas possa ser que é verdade tudo, e então eu estou só no mundo, eu mais Amaro. Agora veja, por Amaro eu respondo não, respondo por mim” (p.99).
Mas logo a seguir, pela primeira vez, Amaro é referido pelo sargento com respeito, num indício de que as coisas estão mudando: “Esse Amaro é meu irmão, porque só tem ele no mundo essas alturas, posso crer, só tem ele no mundo que escuta o que estou dizendo, possa ser que só tem ele no mundo que não acha que eu estou bobo da idéia (…)” (p.102-103).
Quando os dois atacam o destacamento de Japaratuba, em busca da metralhadora que supostamente haveria por lá, a transformação por que passa o motorista começa a ficar evidente. Armado com uma espingarda que lhe fora dada pelo padre de aço, Amaro tem naquela noite um primeiro momento de bravura. Ele obedece à risca os planos de Getúlio, participa do tiroteio e não compromete os planos de fuga.
Mas seu desempenho ainda não é o de um guerreiro completo. A espingarda é mais potente que seu braço, e o coice do tiro faz com que ele não a controle inteiramente. “(…) E Amaro não conversou, enrolou a corda do cabresto do meu burro no peador, nem sei como rodeou na cangalha, e levantou a bichinha bem em cima do atirador que foi uma só: tun! E não pegou nele, mas pegou no telhado de cima dele e avoou foi pedaço de barro e foi uma fumaceira e Amaro quase que despenca da cangalha, aquela desgraca tem um coice quase igual ao do tiro (…)” (p.117).
Em seguida, quando o custo daquela bravata inútil se revela alto demais, e os dois, perseguidos pelos soldados do destacamento invadido, terminam cercados na casa de Luzinete, Amaro se transforma, enfim, num guerreiro completo. Ele aprende a manejar a arma, domina o seu poder de guerreiro, e durante algum tempo, orientado por Getúlio, alveja sem dificuldade os soldados que ousam se mover. “E eu que dizia que tu tinha coração mole, hem Amaro, quem te viu quem te vê, bentevi” (p.131), exclama Getúlio, admirado.
Terminado este ciclo, chega ao fim a trajetória de Amaro. De repente, atingido por um tiro que não se sabe de onde veio, Amaro morre (p.134-135). Luzinete volta a referir-se a ele como irmão de Getúlio, que concorda: “Aí ela disse ele era como seu irmão, e eu disse acho que era, era mesmo, acho que era, e acredito que no mundo eu só tinha ele e você, isso eu acredito” (p.135).
Já em seus momentos finais, com Luzinete também morta, e ele sozinho no mundo — pois o prisioneiro não conta —, Getúlio consagra definitivamente a bravura guerreira de seu ajudante. Ele conserva a poderosa espingarda, cujo simples coice era quase igual ao tiro, como uma espécie de troféu de heroísmo, de atestado de coragem, que só um “padre de aço”, ele e Amaro saberiam manejar. Um primo do arco de Ulisses:
“Luzinete é a lua, mas Amaro? Não é nada. Ele não é nada, porque morreu e ficou lá, com as vistas abertas. Era pequeno, mas era homem, mais homem do que novecentos mil da sua marca e com essa arma que era do padre e depois dele e agora minha, que eu guardo nas costas e que mão nenhuma pode tocar que não a minha senão morre, com essa arma mesma eu enfrento o que aparecer, eu tiro de eito” (p.139).
O motorista supera, ao longo da viagem, uma espécie de batismo de fogo, um ritual de passagem, do empregado urbano para o homem do sertão, do volante para a garrucha, da cantoria para a escopeta, do frouxo para “nosso Senhor Amaro” (p.140), como a ele se refere Getúlio nas páginas finais.
E se ele passa por tudo isso, o protagonista, é claro, passa por muito mais. O ex-sargento regular, depois sargento particular, homem de armas sem autoridade própria, a reboque de uma liderança política, com tudo o que isso implica, tanto social quanto psicologicamente, é um homem que só confia em três pessoas nesse mundo. E mesmo assim, com um pé atrás. Do Chefe não reclama, admira-o e reconhece a dívida que tem com ele, mas se queixa do trabalho e diz que pretende se aposentar. Embora simpatize com Amaro, com seu repertório de histórias e canções, nele há uma frouxidão inicial pela qual Getúlio não responde. E Luzinete, a quem ama e com quem, em certos momentos, de fato sente-se inclinado a morar, casar, por outro lado ameaça-o com uma vontade já explícita de prendê-lo na vida doméstica, de ter filhos com ele, conferindo-lhe responsabilidades novas, âncoras de vida, deseducando-o nas aventuras extremamente móveis da guerra, e assim amolecendo-o, fazendo-o passar o resto dos seus dias como um cavalo castrado, gordo e vagaroso. O instinto de sobrevivência do homem de guerra sobrevive, muitas vezes, a despeito do próprio homem. Seu instinto, para ser capaz de se defendê-lo com mais rapidez e com mais força, para construir e reforçar eternamente sua couraça contra o mundo — sem a qual um homem em seu ramo de trabalho pode morrer a qualquer momento —, precisa ser desenvolvido, refinado e, portanto, introjetado, precisa ficar acordado quando o ele dorme, e precisa combater internamente seu desejo de se aposentar.
Ainda que dividido nesse aspecto, a divisão de Getúlio não é em metades idênticas. Prevalece nele o homem de guerra. E o Chefe, portanto, é sua grande referência no mundo. Dele depende a segurança do Chefe. E de Acrísio Antunes depende sua segurança e sua liberdade. O Sargento, afinal, vive marcado pelo assassinato da sua esposa grávida, vive necessitado, pelos abusos de poder e pelos crimes praticados, da proteção do Chefe contra a lei, e, finalmente, vive em conflito de morte pelos capangas do outro partido político. E quando em alguém se deposita a liberdade e a segurança, fatalmente neste alguém se deposita a própria identidade. A obediência se torna cega, a fidelidade, um imperativo de honra. É, literalmente, uma questão de honrar a própria vida.
Quando procura entender o jogo político nacional, tentando visualizar o panorama mais amplo no qual o conflito diário que vive está inserido,(p.94), Getúlio deixa muito claro o quanto estava disposto a, em nome de honrar sua dívida, abrir mão do próprio livre-arbítrio: “(…) se eu for pensar, não vou entender mesmo, de maneiras que o mundo é assim: é o chefe e sou eu” (p.94).
Na cena de sua chegada à igreja do padre de aço, embora estivesse sendo esperado, Getúlio é apenas um vulto na escuridão total, cujo rosto permanece escondido pela noite e por um capuz (p.61-62). E sua identidade, presumida, precisa ser confirmada pelo padre, que, da porta do lado da igreja, assiste a chegada dele, do motorista e do prisioneiro, que vem quase arrastado. A maneira como o sargento se identifica é sintomática da associação completa entre ele e o Chefe, e de suas bandeiras: “Ô de dentro, eu disse, ô de dentro, ô de dentro. Getúlio, pois não. Getúlio de Acrísio Antunes, do pecidê, pecidê desse Sergipe, Sergipe desse mundão (…)” (p.62).
Embora o nome Acrísio Antunes não esteja sendo mencionado pela primeira vez, e embora o padre tenha sido avisado, por um contato, da identidade e da chegada iminente dos perseguidos, estando forçado a abrigá-los graças à influência política com o Chefe, nada parece eliminar a ambigüidade entre o nome do Chefe e o sobrenome do Sargento. Como se houvesse uma fusão entre um e outro. Por um “Getúlio”, puro, sem o complemento certo, o padre não abriria a porta. “Dos Santos Bezerra”, o sobrenome de batismo do Sargento, também não faria o padre abrir a porta. Sem o sobrenome de guerra, Acrísio Antunes, Getúlio ficaria desprotegido, exposto e acabaria morto. Ele só existe porque Acrísio Antunes existe, e vice-versa, logo, eles são, de certa forma, a mesma pessoa.
Mas a verdade é que Getúlio, aos poucos, vai sendo abandonado à própria sorte pelo Chefe. A arbitrariedade no ato de prisão contra Vosmecê, a cobertura do seu julgamento pela imprensa, os constrangimentos políticos impostos à mão-de-ferro de Acrísio Antunes, com a interferência de forças federais, e, da parte de Getúlio, a impulsiva, inconseqüente e desastrada degola do tenente, quebram um a um os elos da corrente que os ligava.
O primeiro sinal vem implícito no recado de Elevaldo, mensageiro do Chefe, pedindo a Getúlio que se esconda na fazenda de seu Nestor — “Os jornais estão fazendo um barulho danado, vai chegar a Força Federal em Aracaju. O Chefe disse na rádio que não prendeu ninguém” (p.46) —, deixando Getúlio com a pulga atrás da orelha (p.68).
Um novo contato de Elevaldo, agora com o fazendeiro Nestor, mostra o quanto o poder de Acrísio Antunes está balançado. Ao voltar do encontro, seu Nestor retransmite o aviso a Getúlio: “(…) informou que tinha uns vinte cabras ali e tinha mandado Carmolino arrebanhar nos pastos e tinha facãos e espingardas e um par de armas curtas, umas coisas dessas, e se eu podia esperar e sair pelo outro lado, depois que chegasse a força”, ao que Getúlio responde perplexo, incrédulo, “Vem força, que peste é essa?” (p.70). Elevaldo não explica as reviravoltas da política, provavelmente nem saberia fazê-lo, mas indica a igreja do padre do aço como refúgio (p.70). Getúlio deve fixar-se lá e não fazer nada até segunda ordem.
Pouco depois, o padre é mais explícito, mas Getúlio ainda se recusa a acreditar: “Não acredito que Antunes possa lhe sustentar. Ah, isso não, se Antunes não me sustenta, o que é que me sustenta?” (p.83).
Com o tempo, o sargento será obrigado a questionar a aliança com o Chefe. Ao receber novos mensageiros de Acrísio Antunes na igreja, Getúlio recebe-os já extremamente desconfiado. Por que não os conhecia, claro (são três homens não-identificados que se aproximam ao longe), mas também porque pressente, embora recuse-se a admiti-lo, que o poder do Chefe vai se voltando contra ele. Ao chegarem os forasteiros, Getúlio reconhece um deles, a quem vira estimulando falsos testemunhos num caso de homicídio em Aracaju. E o clima entre ele e os homens é de tiroteio iminente. O veterano pistoleiro entra em plena ação, posicionando Amaro num ponto estratégico da igreja, armado, claro, e adotando para si um comportamento dissimulado, mas a uma fagulha da explosão de seu instinto assassino. Getúlio descreve a situação: “Possa ser que possa ser para mim esse armamento, possa ser que não possa, ele que não se coce, que eu estou — e estou nessa mesa muito bem, com as pernas esticadas e os pés numa cadeira e estou como quem não quer nada, até pensando na vida, estou assim esfregando a barriga com uma mão e com a outra segurando o velho de guerra debaixo da túnica, olhando para o outro lado e estou muito como que desprecatado para quem me olha assim e nem ponho vistas no calado, que é ele que eu atiro por primeiro tendo necessidade” (p.96).
Ao que tudo indica, a essa altura Acrísio Antunes já percebeu o erro que cometera ao soltar seu cão-de-guerra na direção de um inimigo poderoso demais para ser atacado tão diretamente. Diz o mensageiro, quando censura a Getúlio pela degola do tenente —“sargento, olhe sargento, o problema é que foi um engano, sargento, um engano que foi mandar o senhor buscar o homem em Paulo Afonso, agora temos complicação” —; e quando finalmente explicita a contra-ordem e a ligação de Getúlio com o Chefe é formalmente cortada: “Foi o chefe que disse, não tem mais condição de cobertura, a coisa mudou. Foi o chefe que mandou o recado? Foi, foi. E por que não veio ele? An, responde essa. Não veio porque não quer deixar ninguém saber que foi mandado dele. Vem força federal, vem tudo. Então o senhor solta o homem e some e pronto. E o resto se ajeita em Aracaju” (p.97).
Fragmentou-se a ordem política regional, desfez-se a rede de influência de seu chefe, a morte do tenente complica ainda mais sua situação. A Getúlio, o que resta, é, literalmente, sumir. Resta agora, ao sertão, enfrentar a modernização política. Afinal, aos olhos do sargento, ela é degradante e amesquinha os homens que nela tomam parte. O que já vale em Aracaju ainda não deve se impor no território maior, mais amplo, mais severo e exigente do sertão. Getúlio recusa-se a libertar Vosmecê e entregá-lo aos três homens. Diz que o soltará depois, quando já tiverem ido embora. Assim, por orgulho.
Como em uma engrenagem clássica de tragédia, o protagonista cometera um erro imperdoável, um erro fatal que provocaria em torno dele um redemoinho de desgraças. No caso de Getúlio, este erro foi acreditar que o poder do Chefe fosse absoluto, e em sua fusão irrevogável com ele. A partir desse equívoco básico, nasce no sargento a idéia de que pode dar vazão a seu temperamento impulsivo, “destemperado”, como diz o padre, pois “tem as costas quentes”, o que o leva, por exemplo, a degolar o tenente sem medir as conseqüências de mais este crime.
Não por acaso, quando o abandono do Chefe se confirma — em sua conversa com os três homens chegados à igreja do padre de aço —, sua identidade balança e ameaça desmoronar: “Quer dizer, eu estou aqui. Sou eu. Para eu ser eu direito, tem que ser como o chefe, porque senão eu era outra coisa, mas eu sou eu e não posso ser outra coisa. (…) Não posso ser outra coisa, quer dizer que eu tenho que fazer as coisas que eu faço direito, porque senão como é que vai ser? O que é que eu vou ser? (…) Eu sou sargento da Polícia Militar do Estado de Sergipe, Não sou nada, eu sou é Getúlio. Bem que eu queria ver o chefe agora, porque sozinho me canso, tenho que pensar, não entendo as coisas direito. Sou sargento da Polícia Militar do Estado de Sergipe. O que é isso? Fico espiando aqui essa dobra de cáqui da gola da farda me espetando o queixo. Eu não sou é nada” (p.94).
Após este primeiro momento de perplexidade e de não-reconhecimento, Getúlio rapidamente decide reconstruir sua identidade no enfrentamento. Afinal, ele foi treinado pelo sertão e pela vida a agir e combater, a se movimentar sempre e constantemente alerta; seu instinto de sobrevivência o exige. Nesta altura da evolução do personagem, faz sentido ele reproduzir, em versão sertaneja, o famoso monólogo “ser ou não ser”, de Hamlet, no caso expresso pela dúvida “Levo ou não levo [o prisioneiro a Aracaju]” (p.99). No que se refere à perplexidade especulativa, à percepção de que o mundo exige-lhes uma redefinição de si mesmos, o paralelo realmente se justifica. Hamlet também procura reconstruir sua identidade, e assim sua relação com o mundo; ele também se debate numa busca ética. Contudo, embora as perguntas do príncipe dinamarquês caibam perfeitamente na boca do sargento sertanejo, suas estratégias para as reconstruções existenciais que devem empreender são, suas respostas ao vazio existencial, no fundo, opostas. Hamlet reconhece que sua concepção de vida e de si mesmo antes dos acontecimentos da peça era por demais ingênua, lidava com valores absolutos, simplificadores da realidade, e graças a essa autocrítica consegue relativizá-los, optando por reconstruir-se constantemente. Hamlet refaz sua identidade de forma que ela flutue de acordo com a necessidade (romântico, estóico, metafísico, ardiloso, louco etc.). “Nada é bom ou mau”, diz o príncipe shakespeariano, “o juízo é que avalia” (ato ).
E Getúlio, como responde à pergunta “Levo ou não levo”, que equivale ao “Ser ou não ser”, de Hamlet? Deve ele se render à mutação exterior do mundo, e a ela submeter sua identidade, ou obedecer à ordem original, contra tudo e contra todos? Sua resposta é clara: “Faço o seguinte, eu levo sim” (p.100).
O que significa exatamente essa decisão, o que significa levar o prisioneiro a Aracaju contra a determinação do Chefe e contra todos?
Tal decisão é, em parte, evidentemente, a instauração de sua individualidade, antes sufocada pela ligação umbilical com o Chefe: “O que é que eu fiz até agora? Nada. Eu não era eu, era um pedaço de outro, mas agora eu sou eu sempre e quem pode? Eu vou lhe levar, peste, até o meio de Aracaju (…)? (p.141). Portanto, não se pode dizer que suas concepções de mundo e de si mesmo não passem por uma transformação. Mas ela é, também, uma reafirmação, uma afirmação do mesmo universo de valores, uma recusa em mudar de acordo com os tempos. E desse ponto de vista é oposta à resposta de Hamlet. No paralelismo entre os dois personagens, forma-se um paradoxo curioso: enquanto Hamlet é, por fora, contido e paralizado, ele é extremamente móvel por dentro; Getúlio, extremamente móvel por fora, sempre se deslocando, é cristalizado por dentro.
A determinação de Getúlio está em resistir à mudança do mundo, em continuar aferrado a um mesmo código de conduta, mesmo após o abandono do Chefe, pois é o único que ele conhece. A identidade flutuante de Hamlet não existe para ele. Sua opção seria fugir da realidade, sumir no mundo, como sugerem que faça. Mas ele não mudou, quem mudou foram os outros: “Eu sumir, eu sumir? Como é que eu posso sumir, se primeiro eu sou eu e fico aí me vendo sempre, não posso sumir de mim e eu estando aí sempre estou, nunca que eu posso sumir. Quem some é os outros, a gente nunca” (p.84). O sargento Getúlio decide enfrentar a realidade, o caráter suicida que sua missão adquiriu, pois é assim que ele singulariza sua identidade, reafirmando valores onde todos ou morreram ou adotaram valores novos. Para Hamlet, o mundo está em constante mutação, cabendo a ele adaptar-se e aprender a desempenhar novos papéis; para o sargento, o mundo está em degradação, da qual ele se recusa a fazer parte. Apenas enfrentando-a ele pode existir.
Olhando-se o romance como metáfora da evolução histórica do país, o quadro final não é dos mais otimistas. Nos centros urbanos, há alguma esperança de superação da realidade política arcaica, mas nos sertões a antiga ordem encontra resistências profundas.
Olhando-se como parábola moral, percebe-se a grandeza da crença sincera num determinado universo de valores, seja ele qual for, no caso, o de um homem de armas sertanejo. É claro que o leitor deve reagir aos atos criminosos do sargento, mas deve também reconhecer que, à luz do sertão, Getúlio é um homem honrado. Se a obediência a este código leva à morte certa, e ele apesar disso segue em frente, ele tem honra: “(…) porque o pior que pode me acontecer é eu morrer e isso não é o pior. Pior é ser pataqueiro em qualquer engenho. Pior é não ser ninguém, mas lá no padre eu vi, quando conversei com os homens e Amaro estava com aquela ferramenta apontada dentro da igreja, eu vi o que é que eu sou, e eu sou eu, e por isso que eu vou levar esse animal e ninguém me empata, que se me empata eu destruo” (p.136).
Até aqui, Getúlio conduzira o prisioneiro no cumprimento de ordens. Daqui em diante, ele o arrastará pela coleira de ferro, e por vontade própria. Como diz a epígrafe do livro: “Nesta história, o Sargento Getúlio leva um preso de Paulo Afonso a Barra dos Coqueiros. É uma história de aretê” (p.7).
E se a história deve ser lida como uma de areté, ela deve ser lida como a de uma passagem para um estado superior do espírito humano, designado por um conceito que engloba qualidades individuais e morais. “A areté era, prioritariamente, um sentimento individual de superioridade, uma certa ‘qualidade de existência’, que tornava seu possuidor diferente das demais pessoas”; “(…) a areté envolvia idéias de ordem moral que se exprimiam num comportamento intimamente ligado à concepção de glória e da bravura individuais”. Sob esse ponto de vista, mesmo com todos os seus crimes, Getúlio prova o seu valor. Em Aracaju as coisas podem ter mudado, mas a moral do sertão ainda o abençoa.
Este romance, publicado em 1971, ano em que João Ubaldo completou trinta anos, não afirma apenas a areté de um personagem de ficção. Para a literatura brasileira, ele é a afirmação do imenso valor de um jovem de carne e osso. Após um primeiro romance, já ambicioso no melhor sentido da palavra, mas de execução discutida e menor repercussão, também o escritor decide se superar, impondo a si mesmo um novo patamar artístico.
E o sucesso é total. Sargento Getúlio ganha o prêmio Jabuti de Revelação de Autor, em 1972. Ao longo dos anos, recebe críticas elogiosas de escritores do porte de Érico Veríssimo, Jorge Amado, Antônio Calado e Fernando Sabino. Finalmente, é o livro que marca o início da carreira internacional de João Ubaldo, vertido pelo próprio para o inglês, ao ser publicado nos EUA em 1978. Mais do que isso, é a partir deste romance que João Ubaldo abre caminho para o domínio sobre seu métier que demonstra nos anos seguintes, durante os quais produz os contos humorísticos de Vencecavalo e o outro povo, de 1974, e do Livro de Histórias, de 1981, obras-primas do gênero, e até 1984, quando nos suga para dentro do universo paralelo de Viva o povo brasileiro, um romance de outra dimensão.
Para João Ubaldo se colocar de vez em primeiro plano no quadro dos escritores de sua geração, e das gerações seguintes, a missão de Sargento Getúlio deveria ser cumprida. Essa era, também, uma questão de areté.
A auto-superação João Ubaldo como escritor, o sucesso de crítica, os prêmios etc., são recompensas a uma grande prova de seu valor criativo: a impressionante argamassa de linguagem que é o monólogo de Sargento Getúlio.
Refletindo a perícia extrema na composição da estrutura — frenética, a todo momento alternando conteúdos, ligando-os pelas associações mais rápidas e livres, e tudo isso de forma cronologicamente retorcida —, a “voz” do personagem é em si um feito estilístico.
Muito se discutem os vínculos formais de Sargento Getúlio com o regionalismo maduro de Guimarães Rosa — maduro no nível coletivo, da história do movimento regionalista, e também no individual. E algum tributo deve ser pago, sem dúvida, ao escritor mineiro, pelas trilhas que abriu rumo a um novo tipo de composição literária, que recria, estilizando, a fala das classes populares do meio rural. Entre 1956, ano em que sai Grande sertão: veredas, e 1971, ano da publicação de Sargento Getúlio, a tocha de Guimarães permanecera acesa em muitos escritores, e seus métodos chegaram inclusive a ser aplicados às classes populares urbanas, pois funcionavam, pelo menos em tese, como ponte na qual a literatura erudita e a oralidade do povo brasileiro se davam as mãos.
Mas só esse parentesco não é suficiente para explicar Sargento Getúlio. Há, entre o narrador de Grande sertão: veredas e Sargento Getúlio, movimentos internos bastante diferentes.
É consenso, tanto quanto possível, a existência de uma índole “mito-poética” em Guimarães Rosa. E de fato uma certa inspiração mítica Sargento Getúlio parece mesmo ter. Mas a voltagem da carga poética é muito maior em Guimarães. Por exemplo no que se refere ao meio. O narrador de Guimarães, predominantemente, faz um movimento em direção à natureza. Ele tem um encanto pela fauna e pela flora, e pelos conteúdos existenciais e poéticos que o conhecimento de ambas, e o convívio com elas, pode lhe trazer.
O narrador de João Ubaldo, em Sargento Getúlio, embora tenha total intimidade com a natureza que o cerca, embora a conheça a fundo, tem com ela, quase sempre, a relação que se teria com uma série de desafios mortais. Não há muito espaço para inspirações poéticas. Seu movimento vai em direção oposta à natureza, que a todo momento deseja esmagá-lo. Em resumo: Getúlio não busca a comunhão com o meio, e sim a superação do meio. Então fica difícil imaginá-lo como um narrador regionalista, pois, grosso modo, vai em sentido contrário a um dos preceitos mais elementares do movimento.
Quanto ao estilo propriamente dito, relativiza-se ainda mais a relação aparente, apenas indireta, entre João Ubaldo e o regionalismo maduro de Guimarães Rosa.
Quando se começa a ler Grande sertão: veredas, tem-se como que um contato com outra língua. O leitor demora a compreender como as palavras se formam, a se situar naquele novo arcabouço semântico, a não se perder nas peculiaridades sintáticas etc. Mas, uma vez ele adaptado, tudo começa a fazer sentido. O discurso adquire normalidade e uniformidade próprias. A linguagem torna-se homogênea, coesa, e de uma elegância inesperada, que transcende o registro social dos personagens — e também o do leitor —, produzindo um amálgama genial entre a cultura popular e a erudita. Assim a fatura estilística segue coesa, num caminho à margem ao da língua real.
Já na composição formal de Sargento Getúlio, embora se possa, numa comparação minuciosa com Grande sertão, identificar efeitos estilísticos comuns, e ainda que a impressão inicial possa ser a mesma, a de que se está lendo outra língua, a impressão final é bem outra. Não se forma esta elegância, esta coerência equilibrada. O discurso, como já se viu, é frenético, avança rápido e centrífugo. E para que esse efeito fosse atingido, João Ubaldo, utilizando-se em alguma dose da “receita” estilística de Guimarães, na verdade extrapolou-a. Ele não faz uso de um lote homogêneo de recursos, ele usa os de Guimarães e uma infinidade de outros, a princípio incompatíveis. Ele produz uma cacofonia estilística que está absolutamente ausente de qualquer coisa que Guimarães já escreveu na vida. Há, no romance de João Ubaldo, mil efeitos impensáveis em Grande sertão.
Tudo que se possa imaginar como marca de estilo faz parte da linguagem do policial militar sergipano: erros intencionais (“por causo” p.9, “caldeirãos” p.10, “se desmancha-se” p.11); evoluções sonoras que, para o leitor comum, se descolam da intenção de transmitir alguma mensagem definida (“arremetido naquela suaeira, estropeando as reiúnas novas naquelas catanduvas barracentas” p.9, ); onomatopéias (“ufeúfe nas asas” p.10, “vuquevuque” p.33, “tchunque” p.75); fusões de palavras (“pelessa” p.9, “almospenados” p.10, “nunstantinho” p.58, “destá” p.105, em vez de “deixa estar”); frases encurtadas (“Mesma coisa”, p.11, na qual falta o verbo, “Não ser quando dá bigu às raparigas” p.10, na qual falta a preposição,); frases retorcidas (Não, tem que levar, é nunca de outro jeito agora” p.11, “bastante de com força” p.48, ); interjeições oralizantes “aviu” p.51, “arre” p.73) corruptelas do inglês (“Hudson”, em vez de Hudson p.68, “vrido safeti” p.59, em vez de safety, “mítingue” p.19, em vez de meeting); palavras arcaicas ou eruditas (“entupigaitado” p.17, “ancho” p.10, “desprecatado” p.21, “latinório” p.65, “cascavilhar” p. 136); expressões arcaicas ou eruditas (“indo a locé” p.107, “vaite para a sorete” p.121, “tiro de eito” p.136 e 139); estruturas sintáticas arcaicas (“No meu pensar” p.13); ditados populares (“enfim quem come jaca e bebe qualquer espécie de cachaça estupora” p.11, “bem que o tempero da comida é a fome” p.107); neologismos completos (“caralhoplano” p.131, “Crazento da pustema”, “disfricumbado firigufico”, “Carniculado da isburriguela” p.138,); marcas de sotaque regional (“retado” p.107, “oxente” p.43), repetições intencionais (“Possa ser que possa ser para mim esse armamento, possa ser que não possa” p.96, “Morrer é como que dormir e dormindo é quando a gente termina as consumições, por isso é que a gente sempre quer domir. Só que dormir pode dar sonhos e aí fica tudo no mesmo” p.99, “Deve ter sustado a força da força” p.77)). Tais efeitos, inclusive, se combinam muitas vezes, o que apenas multiplica o repertório.
Em Sargento Getúlio, a combinação entre a alternância acelerada de conteúdos, e esta fartura de efeitos estilísticos, que também apontam para todos os lados, também parecem querer abraçar o mundo por todos os lados, não resultam numa prosa elegante, poética, como a de Guimarães. Resultam num discurso que nunca parece deixar de ser delirante. É como se, pela linguagem, em vez de fundir-se ao meio em que se propõs retratar, ou de extrapolá-lo por meio da poesia implícita no linguajar rural, o duplo movimento realizado por Guimarães, o escritor João Ubaldo afirmasse sua areté artística de um lado fundindo-se ao meio, mas através da reprodução estilística do sentimento permanente de ameaça, e de outro extrapolando-o, ao compor sua mistura vertiginosa de conteúdos e de recursos estilísticos díspares. O exemplo mais óbvio desse processo ocorre justamente quando o sertanejo cita descaradamente o monólogo de um príncipe dinamarquês do século XVII, hoje em dia identificado com um repertório erudito, sofisticado. A linguagem de Getúlio é resultado de um amálgama visceral e explicitamente heterogêneo, composto por elementos os mais variados.
Espelhando essa linguagem absoluta, pois que a tudo compreende, o universo emocional do personagem ganha dimensões totalizantes, numa areté absoluta no momento em que já perdeu todos a quem amava, ficando sozinho rumo à morte matada. Seus mortos queridos, para começar, adquirem dimensões sobre-humanas. Amaro se torna santo (p.140), enquanto Luzinete encarna a Lua (p.139). Finalmente ele próprio se torna uma espécie de super-homem, de herói mítico, que em derradeiro instante diz: “eu vou morrer e nunca vou morrer e nunca vou morrer” (p.157). É o prório Get´úlio quem diz: “Eu não tenho nada, tenho as minhas pernas e a minha cara de cinza e tenho essa terra toda. Isso eu tenho, essa terra toda eu tenho, porque quem me pariu foi a terra, abrindo um buraco no chão e eu saindo no meio de umas fumaçãs quentes e como eu outros ela vai sempre parir, porque essa terra é a maior parideira do mundo todo. Quer dizer, esse povo de Aracaju não sabe, nem nunca vai saber, só eu sei o que tem nessa terra toda e posso correr por cima dela com o vento na cara, nas águas e no chão. (…) quero viver uma vida curta de macho, sendo eu e mais eu e respeitado nesse mundo e quando eu morrer se alembrem de mim assim: morreu o Dragão” (p.153).
No momento da consagração, Getúlio dá um rugido colossal, como um animal selvagem, um leão rei dos sertões, demarcando seu território e para si mesmo afirmando seu valor na defesa da própria vida.
[2005, publicado em Obra Seleta, de João Ubaldo Ribeiro]
Ribeiro, João Ubaldo. Sargento Getúlio, Nova Fronteira, RJ, 11a ed., 1982. Daqui em diante, as citações do romance serão indicadas no corpo do texto, pelo número das páginas entre parênteses.
Entrevista a Tarso de Castro, Josué Guimarães e David Vidal. “Literatura da Miséria”, Folha de São Paulo, SP, 02/10/1977.
Idem. E o próprio Cavalcanti é citado um uma passagem do livro: “Imagine o finado Cavalcanti, que trouxeram de Paulo Afonso numa assistência que era mais marinete do que assistência, com vinte e seis rebites no corpo, em diversas posiçãos, e o bicho ainda chegou vivo em Aracaju gofando sangue (…)” (p.23).
Azevedo, Antonio Carlos do Amaral. Dicionário de nomes, termos e conceitos históricos. Nova Fronteira, RJ, 2a edição, 1996.