Editorial James Joyce | Entrelivros
A proposta da revista Entreclássicos nesta sua nova fase é servir como uma introdução para os livros de artistas consagrados, os quais, muitas vezes, são considerados difíceis ou, pior ainda, assustadores. Em poucos casos essa proposta é mais conveniente do que em relação à obra de James Joyce. Embora ele seja um artista fundamental do século XX, um dos pilares daquilo que veio a se chamar de modernismo literário, como é freqüente que um leitor comum sinta-se temeroso diante de seus livros! Seu desrespeito às técnicas narrativas tradicionais, sua crescente liberdade no trato da linguagem, entre outros fatores, contribuem para que livros como Ulisses e Um retrato do artista quando jovem sejam vistos como territórios proibidos para simples mortais, isto é, para pessoas que não tenham diplomas de doutorado em Teoria Literária.
Talvez esta edição seja mesmo um teste de fogo para o tipo de revista que nos propusemos a fazer. Para vencê-lo, mantivemos a seqüência que balizou os dois números anteriores, sobre Dostoiévski e Kafka. De início, um texto biográfico, situando o leitor; em seguida, um texto para cada obra do autor em pauta, contando a história e discorrendo sobre os vários episódios que a compõem; por fim, alguns textos críticos, que mergulham mais fundo nas várias camadas de leitura possíveis das obras então já conhecidas pelo leitor. Além disso, também continuamos trabalhando não apenas com vozes ligadas à academia, mas com editores, tradutores e, sobretudo, narradores profissionais, por serem muitas vezes os mais indicados para recriar o fluxo das histórias e o sabor de cena aqui descrita.
Vale destacar, neste número, o guia de leitura que Ricardo Lísias preparou para o Ulisses de James Joyce. Seu texto vai, passo-a-passo, capítulo por capítulo, contando a história do romance. Dessa forma, joyceanos de primeira viagem não precisam temer a sensação de que a riqueza inventiva da linguagem de Joyce os impedirá de “entender o que está acontecendo”. Eles partirão para a obra-prima do autor irlandês com um conhecimento prévio do enredo, e assim poderão, de forma muito menos angustiada, admirar sua carpintaria literária.
Mas há aqui textos sobre todos os demais livros do autor – entre eles os famosos Dublinenses, resenhados por Iuri Pereira, e Finnegans Wake, por Carlos Eduardo Ortolán – e textos sobre obras menos difundidas do autor – como seus dois livros de poemas, esplendidamente analisados por seu premiado tradutor Alípio Correia, e sua única peça de teatro, Exilados, trabalhado pelo jovem dramaturgo Julio de Santi. Por fim, na seção crítica, vale destacar o texto do professor Fábio Durão, que discorre com clareza sobre o modo de composição de James Joyce.
Nos próximos três números de nossa revista, dedicados a Jorge Luis Borges, Marcel Proust e Fernando Pessoa, o editor será o experiente Ricardo Ditchun, que nos substituirá com a competência de sempre. Desejamos a ele, e à coleção que ajudamos a redefinir, toda a sorte e o sucesso que merecem.
|| Ana Lima Cecilio e Rodrigo Lacerda, editores