A editora em dificuldades | A dinâmica das larvas
O editor de literatura José Pereira, locatário e autor da decoração deste peculiar apartamento, era um homem alto, de cabelo preto já temperado por alguns fios brancos aqui e ali, de barba cheia e ligeiramente descuidada, cujo rosto não escondia nenhum de seus quarenta e oito anos. De índole pacífica e semblante risonho, José era um autêntico bon vivant, dado a gastanças, e conversador de mão cheia, ainda mais quando estimulado por cervejas bem geladas, “cú de foca”, como dizia, ou pelo crepitar do gelo em altos e fortemente amarelados copos de uísque, os seus “guaranás de escocês”. A profusão de livros, discos e vídeos, que pululava em sua residência, explicava-se por seu gosto artístico sofisticado e por uma intensíssima vida interior.
Naquele momento, com um cigarro pendurado nos lábios, José assistia meditabundo à viagem preguiçosa das espirais de fumaça rumo ao teto. A penumbra e o silêncio misturavam-se numa atmosfera dilatada, frouxa e sonolenta, enquanto uma mulher nua, de cabelos compridos e alourados, dormia recostada em seu ombro. O enorme colchão de água, barulhento e revolto instantes atrás, pacificara-se como tudo mais em volta, sugerindo a natural prostração ao fim das diligências custosas e acaloradas do sexo. Todavia, o editor José Pereira sentia-se incomodado, ou mais do que isso; em verdade, de seu atual estado psicológico poderia-se dizer, numa apreciação benevolente, que era inconstante e radical a um só tempo, oscilando entre o desalento passivo e a aflição laboriosa, ora mostrando-se ferido em sua auto-estima, preso a um atoleiro de resignação, ora determinado e disposto a usar qualquer recurso, por mais desprezível que fosse, na luta contra a maré negra que perseguia suas finanças nos últimos tempos.
Visando conter esta desleal arremetida dos embaraços, José e Oswaldo, seu contador, haviam forçado os respectivos bestuntos durante semanas, logrando craniar subterfúgios bastante inventivos, imbricadíssimas conspirações políticas junto ao sindicato dos editores, maquinações financeiras de complexidade avançada, feitas sob medida para confundir os credores, e engenhosas mumunhas fiscais, que uma vez abonadas, trariam lágrimas aos olhos secos e piedade ao coração desnaturado da Receita Federal. Porém, dos estratagemas que lhes soprara a astúcia, guardiã dos encrencados, nenhum demonstrara ter chances convincentes de êxito aos olhos de José. Então, por sua conta e em segredo, o editor concebera um plano desesperado para recuperar a punjança de sua empresa. Fora necessário vencer alguns impedimentos éticos a fim de executá-lo, mas José, embora fosse um homem de razoável honradez, não havia insistido numa teimosa e pueril indiferença às prescrições soberanas do destino, e acabara conformando-se à funesta ocupação de seduzir a esposa de um colega editor, sujeito amável, inteligente e honestíssimo, que nem de longe fazia jus a tão duro golpe.
Melancólico, José suspirou. Se a conspiração armada não salvasse a editora da crise em que havia mergulhado, pondo-a a uma distância mais tranquilizadora do fundo último do abismo e recolocando-a na situação cotidiana, tranquilizadora e ligeiramente estimulante de suave crise financeira, ele acabaria obrigado conter seus gastos. Neste sentido, as reclamações de Oswaldo — que na prática invertia o registro de trabalho, ficando secundariamente no papel de diretor financeiro da empresa e primordialmente no de contador particular — sucediam-se com a regularidade de um metrônomo, ou melhor, de um bate-estaca, denunciando o custo exorbitante que o aluguel do flat e o volume das despesas gerais impunham ao bolso do patrão e, inclusive, ao caixa da empresa, fatalmente chamado a comparecer na hora dos maiores desfalques. Mas José resistia, obedecendo à promessa íntima, ele resistia, e cegamente, à tribulação de uma mudança que lhe chegava antes como um pesadelo e não uma realidade eventual, pois, segundo gostava de acreditar, já transformara aquele apartamento de hotel num retrato de sua personalidade, numa prolongação de sua própria natureza, e também não chegara a esta altura da vida para abrir mão de seus caprichos.
“Que diabo!” — indignou-se José ante a lembrança destas intromissões—, “O dinheiro é meu, a editora foi criada por mim, não tenho herdeiros e portanto não tenho que deixar merda nenhuma para trás. Vou guardar para quê, para quem? Dinheiro é ou não para se gastar? E depois, quem disse que a editora vai falir? Ela há de se recuperar, mas não fazendo economias mesquinhas. De um sacrifício pessoal meu, isto sim, obterá a sobrevida e a promessa de saúde no futuro. O mais doloroso sacrifício que já precisei fazer, aliás, como homem e como editor. Foi duro desencaminhar uma esposa e uma profissional, esquecer o respeito que eu sentia, e sinto, por um eminente colega de ofício. A salvação da editora justifica qualquer coisa, não há dúvida, mas eu mereço recompensas, e como! e quantas! Desde que me separei da Heloísa, ou foi da Márcia, até isto já estou embaralhando, da Suzy não foi porque ela veio antes, enfim, moro aqui desde que me separei pela última vez, e não vou mudar para uma pocilga qualquer, tendo que me aborrecer com empregados desonestos, porteiros retardados, ou com o pagamento da conta de luz na fila do banco. A editora que se vire, para retribuir as oblações que eu deponho em seu altar”.
Na semana passada, seu contador estivera mais irrascível do que nunca, e fora de uma intransigência irritante com os mínimos desembolsos da editora e da conta pessoal de José. Eles não haviam tido uma semana fácil, isto era imperioso reconhecer. A gráfica sempre utilizada havia atrasado muitos livros, inclusive os lançamentos, dos quais a editora dependia para continuar viva, resfolegando moribunda, é verdade, mas ainda sentindo o bafejo longínquo do sopro vital. Os livros já fotolitados, mas ainda não entregues à gráfica, também vinham sofrendo reveses, e permaneciam parados nas prateleiras do departamento de produção, devido à escassez de papel no mercado, invocada pelo fabricante no qual costumavam se abastecer. Para culminar, os investimentos externos feitos na editora, há um ano atrás, sob a forma de aporte de capital, com a intermediação de um banqueiro conhecido, já estavam por merecer a distribuição de dividendos combinada. Caso a editora não estivesse em condições de honrar seus compromissos com o banco, as ações preferenciais, emitidas em nome da instituição financeira à época da operação, logo se transformariam em ordinárias, transferindo parte do poder decisório de José para as mãos de investidores desconhecidos.
— Zé — havia dito Oswaldo, o contador — o quadro é o pior possível. Nossa receita pode cair até quarenta por cento este mês, se não liberarmos alguns dos livros presos na gráfica, e o mesmo acontecerá mês que vem, se não encontrarmos o papel para os títulos novos. Por favor, faça um esforço e reúna-se com o Laertes da gráfica e com o Joaquim da fábrica de papel. É para o bem da editora, pode salvar nossa pele, meu velho.
— Oswaldo, você sabe que eu odeio lidar com estas pessoas. Para mim, o mal da profissão de editor é lidar justamente com estes tipos, gráficos, papeleiros, distribuidores, livreiros. Eles não gostam de mim, eu não gosto deles. Além do mais, sou um arrematado analfabeto numérico, você melhor do que ninguém sabe disto. Quando vocês sacarem de suas pastas aquelas máquinas de calcular cheias de botões e começarem a fazer contas complicadíssimas, eu vou ficar ali com cara de idiota, pois mal sei fazer divisões de dois algarismos.
— Zé, eu acho um erro grave esta sua atitude superior, distante e orgulhosa, ainda mais considerando que o devedor nesta história é você. Mas vá lá, deixe que eu converso com os dois. Agora, uma coisa eu lhe peço, imploro. Alguém precisa conversar com o banqueiro, o Werner. Outro dia, um diretorzinho de lá me ligou, já falando grosso e mencionando a iminência da conversão das ações preferenciais em ordinárias. Sabemos o que isto significa. A empresa não será mais sua, Zé. Dado o volume de capital aportado pelo banco aqui dentro, nós jamais conseguiremos o valor necessário para garantir a maioria acionária. Estaremos fritinhos.
— Mas o que você espera que eu faça? Hipnotize o homem? A editora está longe de poder distribuir dividendos agora.
— Peça um favor, Zé. Engula esta soberba aristocrática. Convença-o a segurar os investidores um pouco, por mais um ano, pelo menos. Quem sabe ano que vem poderemos molhar as mãos deles?
— É ruim, hem, Oswaldinho. Permita-me a expressão chula, mas é muito ruim disto acontecer.
— Sem brincadeiras, Zé. Vai ser difícil, mas se o esforço para salvar a editora não partir do dono… O rombo não é só financeiro, Zé, deste cuido eu, mas há implicações políticas pelas quais só você pode responder. Vá, fale com o alemão, passe uma conversa nele, jogue uma lábia.
— Você está me pedindo para fazer algo de que só alguém completamente diferente de mim seria capaz. Eu jamais soaria espontâneo, convincente. Quando ele me perguntasse sobre as perspectivas da empresa, o que eu poderia dizer?
— Zé, esta você me deve. Por todos os anos que trabalhamos juntos, por toda a dedicação que eu tenho demonstrado. Aceite fazer este sacrifício.
— Você nem imagina os sacrifícios que tenho feito, Oswaldo.
— Quais? Não vi nenhum.
— Ainda não posso contar o que é nem para você, que dirá para o Werner. Mas logo tudo estará confirmado e teremos ganho uma sobrevida para a editora.
— Meu Deus, Zé, tremo só de pensar nas maluquices que anda fazendo. As suas soluções para os problemas da realidade são invariavelmente estapafúrdias. Enquanto a grande tacada não acontece, vamos administrar a crise com os pés no chão, está bem?
Após uma pausa, o editor de literatura resmungou, torcendo o canto da boca em desagrado:
— Está bem, está bem.
Oswaldo então marcou, para dois dias depois e em campo neutro, numa sala que um advogado amigo emprestaria, um encontro com o gráfico e o fabricante de papel. José, através de sua secretária, combinou um almoço com Werner, o banqueiro teutônico.
— “As forças da reação devem agir por meio de contra-ataques súbitos e aguerridos, surpreendendo o inimigo em mais de um ponto simultaneamente”, o barão von Clausewitz, grande teórico da guerra, já disse isto — ironizou José, enquanto ele e seu contador saíam para seus respectivos encontros.
— Clausewitz nunca disse isto porra nenhuma.
— Brincadeira, brincadeira. Nunca li Clausewitz, para falar a verdade, mas era previsível sua familiaridade com o livro, pois ele foi moda há uns anos atrás, entre yuppies veteranos como você, que eu imagino, devam considerar-se os novos generais.