Discurso do presidente Kennedy
Discurso do presidente Kennedy, após encontros com o líder soviético Nikita Khrushchev
Em maio de 1961, o presidente John Fitzgerald Kennedy viajou à Europa. Ele esteve algum tempo em Paris, com o general Charles de Gaulle, seguiu até Viena, para encontros com o líder soviético Nikita Khrushchev, e na volta passou por Londres. De volta aos Estados Unidos, ele fez, no dia 6 de junho, o seguinte pronunciamento em cadeia nacional de televisão:
“Retornei esta manhã da viagem de uma semana que fiz à Europa e quero relatá-la por completo a vocês. Ela foi em todos os sentidos uma experiência inesquecível. As pessoas em Paris, Viena e Londres foram generosas em sua recepção. Sua hospitalidade foi de aquecer o coração, e sua gentileza para com minha esposa é particularmente apreciado.
Sabíamos é claro que as multidões e os gritos eram dirigidos em larga medida ao país que representamos, que é visto como o principal defensor da liberdade. Igualmente memorável foi a opulência da história européia, que não poderia faltar em qualquer cerimônia formal, seja ao depositar uma coroa de flores no Arco do Triunfo, ou jantando em Versalhes, no palácio de Shönbrunn e com a rainha da Inglaterra. Estas são as memórias coloridas que ficarão conosco por muitos anos. Cada uma dessas três cidades que visitamos – Paris, Viena e Londres – existe há muitos séculos, e cada uma serve como um lembrete de que a civilização ocidental que pretendemos preservar floresceu durante muitos anos, e soube se defender através dos séculos. Mas esta não foi uma viagem de cerimonial. Dois objetivos da política externa americana, sobre todos os outros, motivaram essa viagem: a unidade do mundo livre, cuja força é a segurança de todos nós, e a eventual obtenção de uma paz duradoura.
Para fortalecer a unidade do Ocidente, nossa jornada teve início em Paris e encerramento em Londres. Minhas conversas com o general de Gaulle foram profundamente encorajadoras para mim. Certas diferenças em nossas atitudes em um ou outro problema tornaram-se insignificantes tendo em vista nosso compromisso comum em defender a liberdade. Nossa aliança, eu acredito, tornou-se mais segura, a amizade entre a nossa nação e a deles, eu espero, tornou-se mais firme, e as relações entre nós dois que temos a responsabilidade tornou-se mais próxima, e eu espero que tenham sido marcadas pela confiança. Encontrei o general de Gaulle muito mais interessado em nossa franqueza ao marcar posição, fosse ou não igual a sua, do que em nos ver fingindo concordar com ele quando não o fazemos. Mas ele sabe perfeitamente bem o verdadeiro significado de uma aliança. Ele é afinal de contas o único líder de destaque da Segunda Guerra Mundial que ainda ocupa uma posição de grande responsabilidade. Sua vida tem sido de uma rara dedicação; ele é um homem de caráter pessoal extraordinário, que simboliza a nova força e a grandeza histórica da França. Ao longo de nossas conversas ele mostrou as perspectivas para a França, e para o mundo em geral. Encontrei nele um sábio conselheiro para o futuro, e um guia cheio de informações sobre a história que ele ajudou a fazer. Tivemos, portanto, um encontro valisoso.
Acredito que certas dúvidas e suspeitas que possam ter surgido tenham sido removidas de ambos os lados. Problemas que provaram ser de pouca substância, mas de formulação e procedimento, foram esclarecidos. Nenhum tópico, por mais delicado, foi evitado. Nenhuma área de interesse foi ignorada, e as conclusões a que chegamos serão importantes no futuro – para nosso acordo em defender Berlim, em trabalhar para melhorar as defesas da Europa, em ajudar a independência política e econômica do mundo subdesenvolvido, incluindo a América Latina, em acelerar a unidade econômica européia, em concluir com sucesso a conferência sobre Laos, e em estreitar as consultas e a solidariedade da aliança Ocidental.
O povo de Viena sabe o que é viver sob uma ocupação, e sabe o que é viver em liberdade. A recepção com que brindaram a mim como presidente deste país deveria aquecer os corações de todos nós. Fui a Viena encontrar o líder da União Soviética, sr. Khrushchev. Por dois dias mantivemos conversações sóbrias e intensas, e acredito ser minha obrigação para com o povo, o Congresso e os nossos aliados, relatar estas conversações franca e publicamente.
O sr. Khrushchev e eu tivemos uma troca completa e sincera de pontos de vista sobre os principais temas que atualmente dividem os nossos países. Direi-lhes agora que foram dois dias de muita sobriedade. Não houve descortesia, destemperos, ameaças ou ultimatos de parte a parte; nenhuma vantagem ou concessão foi obtida ou concedida; nenhuma decisão importante foi planejada ou tomada; nenhum progresso espetacular foi conquistado ou fingido.
Este tipo de troca informal pode não ser tão excitante quanto um ampla conferência, com uma agenda fixa e um vasto corpo de assessores, na qual as negociações são tentadas e novos acordos trabalhados, mas este não se propunha e não foi um encontro do tipo, nem planejamos em Viena qualquer futura conferência.
Mas considerei este encontro com o chairman Khrushchev, embora sombrio, imensamente útil. Eu havia lido seus discursos e as diretrizes políticas que publicara. Fui instruído sobre seus pontos de vista. Fui municiado por outros líderes do Ocidente, general de Gaulle, chanceler Adenauer, primeiro-ministro Macmillan, com informações sobre o tipo de homem que ele era.
Mas eu carrego a responsabilidade da presidência dos Estados Unidos, e é meu dever tomar decisões que nenhum assessor ou aliado pode tomar por mim. É minha obrigação e responsabilidade cuidar para que essas decisões estejam lastreadas no maior número de informações possível, e baseadas no conhecimento mais direto e de primeira mão possível.
Julguei de imensa importância, portanto, conhecer pessoalmente o sr. Khrushchev, obter maior insight e entendimento que eu pudesse sobre suas políticas presentes e futuras. Ao mesmo tempo, queria me certificar de que o sr. Khrushchev conhecia este país e sabia de suas políticas, que ele entendia nossa força e determinação, e sabia que desejávamos a paz com todas as nações de todos os tipos.
Eu queria apresentar-lhe nossas opiniões diretamente, precisamente, realisticamente, e com uma oportunidade para discussão e esclarecimentos. Isso foi feito. Nenhum novo objetivo foi estipulado a portas fechadas que não tenha sido afirmado em público, por cada uma das partes. A distância entre nós não foi, em tão curto período, materialmente reduzida, mas pelo menos os canais de comunicação foram abertos mais inteiramente, pelo menos as chances de um perigoso erro de julgamento de parte a parte deve ser menor de agora em diante, e pelo menos os homens de cujas decisões a paz depende em parte concordaram em manter contato.
Isto é importante, pois nenhum de nós tentou simplesmente agradar o outro, concordar simplesmente para ser agradável, para dizer o que o outro gostaria de ouvir, e assim como nosso sistema jurídico se ampara em testemunhas comparecendo à corte e interrogatórios, ao invés de testemunhos indiretos ou depoimentos por escrito, assim, também, foi esse toma-lá-dá-cá direto de valor imensurável para tornar claro e preciso o que consideramos ser vital, pois os fatos sobre esta matéria são que os soviéticos e nós mesmos damos sentidos totalmente diferentes para as mesmas palavras – guerra, paz, democracia e vontade popular.
Temos visões completamente diferentes de certo e errado, do que é um assunto doméstico e do que é agressão, e, sobretudo, temos conceitos completamente diferentes de onde está o mundo e de para onde ele está indo.
Apenas com tais conversações foi possível para mim ter certeza de que o sr. Khrushchev sabia como vemos diferentemente o presente e o futuro. Nossas visões contrastaram agudamente, mas ao menos, no fim, soubemos melhor onde cada se colocava. Nenhum de nós estava lá, eu creio, para ditar um acordo ou converter o outro a uma causa ou para conceder nossos interesses básicos. Mas nós dois estávamos lá, eu creio, por entendermos que cada nação tem o poder de infligir enormes danos à outra, que tal guerra pode e deve ser evitada ao máximo, uma vez que ela não eliminaria qualquer disputa ou provaria qualquer doutrina, e este cuidado deveria portanto ser tomado para prevenir nossos interesses conflitantes de se confrontarem tão diretamente ao ponto de que a guerra fosse uma conseqüência inevitável.
Acreditamos num sistema nacional de liberdade e independência. Ele acredita num conceito expansinista e dinâmico de comunismo mundial, e a questão era se esses dois sistemas podem algum dia almejar viver em paz, sem permitir qualquer perda de segurança ou qualquer negação de liberdade para nossos amigos. Por mais difícil que pareça responder a essa pergunta de modo afirmativo, enquanto nos aproximamos de testes tão severos, creio que devemos à humanidade inteira fazer todo o esforço possível.
É por isso que julguei úteis as conversações de Viena. O ânimo sombrio que eles demonstraram não foi motivo de estímulo ou descontração, tampouco foi motivo de medo e pessimismo indevidos. Ele simplesmente demonstrou quanto trabalho nós no mundo livre temos de fazer, e o quanto nosso destino como americanos, como principais defensores da causa da liberdade, nessa geração, deverá ser um esforço árduo e prolongado.
O único assunto que permitiu alguma perspectiva imediata de acordo foi o Laos. Os dois lados reconheceram a necessidade de reduzir os perigos nessa situação. Os dois lados endossaram o conceito de um Laos independente e neutro, muito próximo da postura de Burma ou do Camboja.
De importância decisiva na atual conferência sobre o Laos em Genebra, os dois lados reconheceram a importância de um cessar-fogo efetivo. é urgente que isto se traduza em novas atitudes em Genebra, permitindo que a comissão de controle internacional faça o seu trabalho, assegurando que um cessar-fogo seja respeitado e mantido. Tenho esperanças de que progressos possam ser atingidos nessa matéria nos próximos dias em Genebra, pois isto melhoraria bastante a atmosfera internacional.
Semelhante esperança não emergiu, entretanto, no que tange à outra conferência de Genebra, esta sem saída, que visa um tratado para que sejam banidos os testes nucleares. O sr. Khrushchev deixou claro que, em sua opinião, não poderia haver um administrador neutro, pois ninguém seria realmente neutro, que um veto soviético precisaria ser aplicável aos atos de implementação deste banimento, que a inspeção era apenas um pretexto para a espionagem na ausência de um desarmamento total, e que as presentes negociações para o banimento dos testes lhe pareciam fúteis. Em resumo, nossas esperanças de acabar com os testes nucleares, de acabar com a proliferação das armas nucleares, e de desacelerar a corrida armamentista, sofreram um sério golpe. Não obstante, os prêmios são muito importantes para nós para que abandonemos a minuta de acordo que oferecemos em Genebra.
Mas nossas conversas mais sombrias trataram da Alemanha e de Berlim. Deixei claro ao sr. Khrushchev que a segurança da Europa Ocidental, e portanto a nossa própria segurança, estão profundamente relacionadas com a nossa presença e nossos direitos de acesso a Berlim Ocidental, que esse direitos estão baseados na lei e não no sofrimento, e que estamos determinados a fazer valer esses direitos a despeito de qualquer risco, e assim cumprir nossa obrigação com o povo de Berlim Ocidental, e seu direito de escolher o seu próprio futuro.
O sr. Khrushchev, por sua vez, apresentou sua visão em detalhe, e sua apresentação será tema de futuros pronunciamentos. Mas não é nossa intenção mudar a atual situação. Um binding German tratado de paz é importante para todos que estiveram em guerra com a Alemanha, e nós e nossos aliados não podemos abandonar nossas obrigações com o povo de Berlim Ocidental.
Em geral, o sr. Khrushchev não falou em termos de guerra. ele acredita que o mundo caminhará em sua direção sem que ele precise recorrer à força. Ele falou dos êxitos de sua nação no espaço. Ele enfatizou sua intenção de nos superar na produção industrial, no comércio, para provar ao mundo a superioridade de seu sistema sobre o nosso. Mais que tudo, ele predisse o triunfo do comunismo nos países mais novos e menos desenvolvidos.
Minha passagem pela Inglaterra foi rápida, mas a visita deu-me a chance de mais uma vez conversar privadamente com o primeiro-ministro Macmillan, assim como outros dos nossos em Viena estavam conversando ontem com o general de Gaulle e o chanceler Adenauer. Todos concordamos que há trabalho a fazer no Ocidente, e dessas conversações surgiram medidas consensuais para que esse trabalho seja iniciado. Nosso dia em Londres, cujo ápice foi um encontro com a rainha Elizabeth e o príncipe Philip, foi um poderoso lembrete, ao fim de um longo dia, de que o Ocidente permanece unido na determinação de afirmar suas convicções.
Permitam-me concluir dizendo simplesmente que estou feliz de ter chegado em casa. Nesta viagem admiramos lugares esplêndidos e vimos paisagens impressionantes, mas estamos felizes de termos chegado em casa. Nenhuma demonstração de apoio no exterior poderia significar tanto quanto o apoio que vocês, o povo americano, tão generosamente dão a seu país.
Com este apoio eu não temo o futuro. Devemos ter paciência. Devemos ser corajosos. devemos aceitar tanto os riscos quanto os fardos, mas a vontade e o trabalho da liberdade irão prevalecer.