Diario do grande ABC | O mistério do leão rampante
Escritor revelação escolher editora de São Caetano.
Neto do político Carlos Lacerda, Rodrigo Lacerda, 27 anos, concorre ao prêmio Jabuti deste ano.
|| Por Paulo Carneiro
O escritor Rodrigo Lacerda, 27 anos, conseguiu o que raríssimos iniciantes conseguem. Seu livro de estréia, O Mistério do Leão Rampante, inaugurou a editora Ateliê, de São Caetano, no final do ano passado, e não pára de dar alegrias ao editor: Premiado na Bienal do Livro do Rio, o livro concorre ao Prêmio Jabuti. “Eu não esperava tanto”, disse o autor ao Diário. Neto do ex-governador do Rio e fundador da Nova Fronteira, Carlos Lacerda, ele explica, na entrevista abaixo, por que escolheu uma pequena editora e a Inglaterra como tema em sua estréia literária:
Diário – Qual a razão do seu fascínio pela Inglaterra renascentista, tema do seu livro?
Rodrigo Lacerda – Fiz faculdade de história, daí a familiaridade com o tema. Na época em que estava começando o mestrado, cuja tese era sobre a literatura renascentista (não apenas Shakespeare), decidi dizer tudo aquilo de forma ficcional, literária. O resultado foi O Mistério do Leão Rampante.
Diário – A essa altura você já havia descoberto sua vocação de escritor?
Lacerda – Já havia escrito outros textos, mas nenhum me deixou tão satisfeito Quanto este, que é rico de conteúdo e bem acabado na forma. Acho que reproduzi a atmosfera da época sem reproduzir a sintaxe.
Diário – Quais são suas influências mais próximas?
Lacerda – Entre os escritores brasileiros, me inspirei na tradição de autores como Arthur de Azevedo e nos textos mais humorísticos de Coelho Neto, além do Ariano Suassuna, sem o peso regionalista que ele tem. Entre os mais atuais, sempre houve uma grande empatia de minha parte para com o João Ubaldo Ribeiro.
Diário – Você é de moa família de editores. Por que escolheu uma pequena editora de São Caetano para seu batismo de fogo?
Lacerda – Eu queria acompanhar todo o processo de produção, desde a escolha dos tipos ao papel a ser utilizado. Isso só é possível em pequenas editoras. Outra coisa é que a editora da minha família não é o quintal da minha casa, e lá eu não poderia participar do processo.
Diário – Depois desse sucesso,você vai continuar na Ateliê?
Lacerda – Não tenho motivo para mudar. Estou muito satisfeito.
Diário – O livro está concorrendo ao Prêmio Jabuti. Quais as suas expectativa ?
Lacerda – Acho que já cheguei muito longe ao estar entre os indicados. Meu livro é uma novela, gênero situado entre o conto e o romance. O gênero é meio órfão em concursos literários, que só premiam contos e romances.
Diário – Quais os fatores que influem na decisão?
Lacerda – É que, na primeira fase do Jabuti, os livros são avaliados por leitores qualificados, mas na segunda, por livreiros. Eu não tive a repercussão de um Chico Buarque ou Jô Soares. Ou seja, na parte comercial não tenho como ser apontado como finalista.
Diário – Assim como você, Radoun Nassar ganhou notoriedade depois de escrever duas grandes novelas, Um Copo de Cólera e A Lavoura Arcaica. Há outras semelhanças entre vocês?
Lacerda – Ele tem uma atmosfera totalmente diferente da minha, sendo mais psicológico e sombrio. A minha literatura é mais bufa e engraçada, mas eu não acho o riso uma manifestação de segunda categoria. Na forma, talvez haja uma semelhança remota nas frases longas. Tanto o Raduan quanto eu e Saramago temos isto em comum.
Autor surpreende com texto descontraído
O Mistério do Leão Rampante tinha tudo para ser mais um daqueles tratados eruditos sobre o rico universo criado à sombra do florescente império britânico, não fosse a atração de Rodrigo Lacerda pela originalidade. Estudante de história na Universidade de São Paulo, depois de passar pela PUC carioca, o autor decidiu oferecer à massa parte do que pesquisou em anos de estudo sobre a literatura renascentista inglesa. Em vez de um tratado, escreveu uma farsa em alto estilo.
Lacerda confessa que estava ansioso para escrever sobre o seu objeto de pesquisa, mas nunca conviveu bem com a idéia de levar o leitor às entediantes notas de rodapé, recurso comum nos textos acadêmicos. Em vez disso, despejou o douto saber em linhas carregadas de humor, com um texto tão descontraído que é impossível parar de ler.
A história tem como palco a Inglaterra do século XVII, entre o final do reinado de Elizabeth I e a dinastia Tudor, cujos bastidores o autor percorre arrastando o curioso leitor. Por essa Shakespeare não esperava.
JORNAL: Diário do Grande ABC – São Paulo
DATA: 7 de julho de 1996.
SEÇÃO: Cultura & Lazer
PÁGINA: 03