Cotidiano e história: episódios exemplares

“Adorable votre révolution”, teria dito Brigitte Bardot, em uma de suas visitas ao Brasil, ironizan do nossas idiossincrasias ideológicas. Isso quem conta é o ator- escritor- compositor Mário Lago, no livro Reminiscências do Sol Quadrado. Ele próprio, lembrando sua prisão em 1964, narra passagens que justificariam o comentário. Por exemplo quando, ao ter sua casa revistada, ouve do oficial encarregado: “Sabe?, Eu nem vou contar pra patroa que vim prender o senhor, senão vai ser briga pra muito tempo. Ela é ta de suas novelas, não perde uma.. Ou quando o carcereiro, ao receber o famoso compositor, cobre-o de gentilezas para, no final, confessar seus interesses: “Eu também castigo minhas musiquinhas, sabe?, e se o senhor não se incomodar de ouvir…”.

Estes dois episódios ilustram bem o quanto, no frigir dos ovos, elementos do cotidiano interferem nas atitudes políticas dos indivíduos, se nem sempre com a força necessária para alterá-las, pelo menos humanizando-as. São momentos em que a pureza ideológica presta homenagem à vida prosaica.

Tais homenagens podem advir de pequenas coincidências, vide os dois casos acima, ou também de questões estruturais, como, digamos, o fato de dois adversários políticos pertencerem ao mesmo grupo social e, portanto, acabarem sendo levados à convivência por força de uma rede de relações comum. Um exemplo: na Velha República, Maurício de Lacerda era um político de esquerda, de inspiração comunista (tanto que seu filho, Carlos Lacerda, chamava-se Carlos Frederico, de Karl Marx e de Friedrich Engels). Por isso, foi preso e torturado ao longo do governo Artur Bernardes, entre 1922 e 1926. Décadas depois, seu filho Carlos, momentaneamente isolado no próprio partido, a UDN – que, no seu entender, aderira em peso à idéia da construção de Brasília e, conseqüentemente, à saída da Capital Federal do Rio de Janeiro -, auto exilou-se com a mulher e os três filhos nos EUA, esperando o fascínio mineiro de Juscelino entrar em refluxo. Maurício, querendo mandar algum dinheiro aos netos no exterior, escolheu um portador que naquele momento calhava de estar com as malas prontas. E quem era o portador? O filho de Artur Bernardes, o filho do homem que o torturou e com quem ele e seu filho Carlos haviam se reconciliado. Como explicar essa reaproximação entre famílias adversárias, para não dizer inimigas, se não pela força do pertencimento a um mesmo grupo social?

Mas também os campos profissionais podiam abrigar proximidades inesperadas entre grandes adversários ou distanciamentos entre grandes amigos, ditados pela confluência política versus cotidiano. Samuel Wainer e Carlos Lacerda, por exemplo, celebrizados, entre outras coisas, pelo combate entre os jornais que dirigiam, a Última Hora e a Tribuna da Imprensa, haviam na realidade sido amigos no início de suas carreiras e na época de suas simpatias pelo Partido Comunista. Foi Samuel quem acompanhou o drama de Carlos quando este, instruído pelo próprio PC, aceitou escrever uma matéria, imposta pela direção de determinado veículo, sobre a “falência do 00munismo”, segundo a lógica “melhor que seja escrita por um de nós”. Mas a instrução do PC revelou-se falsa, ou uma armadilha, e Carlos acabou “excomungado” pelo partido e por muitos de seus amigos e parentes comunistas (Logo ele, Carlos Frederico). E foi Samuel Wainer quem o acompanhou na noite de sua desgraça e o levou para casa, aos prantos, bêbado de álcool e de sentimento de rejeição. Muitos anos depois, no auge do combate entre os dois jornais, às vésperas do famoso atentado à vida de Carlos na Rua Toneleros, a mãe de Samuel, que lembrava do grande amigo do filho, não conseguia acreditar no discurso que ouvia no rádio, não concebia que a política justificasse o fim de uma amizade como aquela. E perguntava: “Mas Samuelzinho, por que o Carlos está falando coisas tão feias de você?”.


Lacerda e Getúlio

Muitas vezes, o episódio corriqueiro traz, inclusive, pistas sobre a verdadeira essência da figura política. O mesmo Carlos Lacerda, ao chegar em casa, não tocava a campainha e simplesmente esperava que atendessem; ele tascava o dedo no botão e ficava buzinando insistentemente até que alguém lhe abrisse a porta.
Transportando isso para sua atuação política, fica mais fácil entender a impaciência com que testemunhava o lento avanço da política brasileira, da nossa famosa “modernização conservadora. Seus grandes méritos como político e administrador, a paixão com que defendia suas posições, bem como seus equívocos históricos, decorrem em parte dessa característica pessoal e manifesta nos mínimos detalhes do dia-a-dia.

A observação cotidiana também poderia tê-lo ajudado a entender seu principal opositor, Getúlio Vargas. Apenas uma vez ele e Getúlio estiveram perto um do outro. Carlos, como jornalista, assistiu a um diálogo entre Getúlio, que inspecionava determinada formação militar, e o general por ela responsável. “O que acontece se a terceira trincheira for vencida?”, perguntou Getúlio; “Ainda temos a segunda, respondeu o general; “E o que acontece se a segunda for vencida?”, insistiu Getúlio; “Ainda temos a primeira, respondeu o general; “E se a primeira também cair?”; “Bom presidente, aí perdemos a guerra.” Carlos não soube interpretar corretamente o que julgou uma tola seqüência de perguntas óbvias. Não soube extrair conhecimento da minúcia cotidiana. Só mais tarde entendeu a dimensão do apego de Getúlio ao poder, disposto que estava a nele perpetuar-se fosse por meio de expedientes não exatamente democráticos, fosse, segundo Lacerda, criando uma máquina política de base dupla – de um lado, atraindo a oligarquia, o empresariado conservador e as estruturas p líticas estaduais, o PSD, e de outro rachando o operariado urbano com o PC, o PTB – máquina esta que, articulada, de fato venceu todas as eleições presidenciais de 1945 até 1960. A partir desse episódio exemplar, Carlos poderia ter entendido muito antes que Getúlio, simplesmente, não concebia a hipótese de “largar o osso”.

REVISTA: História Viva – Grandes Temas. Edição especial temática n° 4.
PÁGINA: 86-87.