Correio Braziliense | O mistério do leão rampante

Trama mirabolante e prosa envolvente

Livro de estréia de Rodrigo Lacerda, O Mistério do Leão Rampante é a revelação de um autor de texto elegante e engraçado. || Por  Paulo Paniago

Dupla estréia em alto nível: a novela O Mistério do Leão Rampante é o primeiro livro de Rodrigo Lacerda e o primeiro título da Ateliê Editorial. Na apresentação ao livro de Lacerda. João Ubaldo Ribeiro diz que o texto dispensa recomendação. porque recomenda-se por si. “Mas repito não estou acrescentando nada a um talento pronto, feito, acabado e burilado”. adiciona. Nada mais certo. Ao final das 90 páginas, que deslizam num texto elegante e engraçado, o leitor tem certeza que aí está um autor prontíssimo, que não demada senões ou reparos.

Não somente a prosa de Lacerda é envolvente, ele se preocupa em proporcionar uma trama mirabolante. Na Inglaterra elisabetana. século XVII. um certo Valfredo Margarelon se encarrega de esclarecer alguns fatos acerca de sua prima Maria, caluniada por três “elementos nocivos”: João Manninhgam, Guilherme Shakespeare e o ator Ricardo Burbage. Na alta tradição dos escritores renascentistas. Rodrigo Lacerda faz parágrafos longos e bem encadeados. O Guilherme Shakespeare, o leitor terá percebido, é esse autor teatral a quem o narrador trata com grande desprezo. “(…) Desde cedo o jovem Guilherme mostrou-se inclinado ao caminho do vício”. escreve Valfredo. “Para começar sua trajetória malsã. engravidou a filha de um fazendeiro da região; uma tal de Ana Hathaway”.

Mas depois de situar esses “elementos nocivos”. Valfredo vai narrar sua versão da história. Maria se casa com um nobre francês, Francisco du Barry. O casamento não produz filhos. Maria se desinteressa do marido. Inicia se uma série de tratamentos com a medicina disponível na época, a “Temporal” (à base de remédios, plantas) e a “eclesiástica” (exorcismo. Filtros, coisas que tais). O texto deixa entrever que os dois métodos eram praticados por charlatões, apesar de o narrador manter uma certa distância crítica.

Nada dá certo. Até que uma bruxa aparece com revelações e deixa um brasão. Por conta dele, a família segue para Londres e termina, admiravelmente, percorrendo o Globe Theatre, onde eram levadas as peças de Shakespeare. Nesse cenário, o imbróglio da famíliaem busca da cura de Maria chega ao fim, com a resolução do problema de cunho sexual através de saída bem-humorada.

Rodrigo Lacerda fazia curso de pós-graduação com interesse nas mudanças de percepção que os homens do Renascimento tinham de si e do mundo a sua volta. Esse tema tem um desdobramento claro no final do livro quando ouvimos um discurso de Shakespeare dirigido à Maria. “A vida é um palco, minha cara, e não adianta o Autor Supremo determinar as falas, se os autores não subirem nele e as pronunciarem em alto e bom som. com convicção e verossimilhança”, emite um Shakespeare satisfeito. Mas quem se realiza à larga no final é o leitor, que ganha um autor de primeira.