Correio Braziliense | A dinâmica das larvas
JORNAL: Correio Braziliense
DATA: 06 de outubro de 1996
SEÇÃO: Caderno 2
Nova Escrita Fina
Entre o escreve, risca, corta e acrescenta, as atuais revelações da literatura brasileira exercitam os neurônios diante de seus micros, e injetam sangue novo a prosa e ao verso nacionais e contam como o apoio das pequenas editoras. Por Lourenço Fráguas.
Pouco divulgados, com raras exceções os escritores emergentes descobriam a formula de driblar o esquema fechado das grandes editorais, e colocar no mercado obras muitas vezes surpreendentes, com historia e poesias de alto nível, que acabam rimando com prêmios.
Pra tanto, encontraram nas pequenas editoras excelentes cúmplices que, depois de revela-los para os leitores, acabam perdendo-os, agora sim, para as editoras de autores já consagrados. E uma ingratidão concedida.
Que os digam os escritores: Rodrigo Lacerda. Premio Jabuti 96; Regina Rheda. Prêmio Jabuti 96; Bernardo Carvalho: Heloisa Seixas; Jose Roberto Torero e o poeta Heitor Ferraz.
Rebento de uma família proprietária da editora Nova Fronteira, o carioca Rodrigo Lacerda de 27 anos, deu um susto na critica ao levantar o Prêmio Jabuti deste ano e ombrear seu primeiro livro. O Mistério do Leão Rampante, com obras de autores já velhos de guerra, como Carlos Heitor Cony e Ivan Ângelo, outro dois premiados na categoria romance.
COMEÇO
Mais surpreendente ainda por escolher uma pequena editora, a Ateliê Editorial, para apadrinhar seu romance. Na verdade, a Ateliê passou a existir a partir do livro de Rodrigo, que pensava ate então em produzir uma edição de autor Ou seja bancada por ele mesmo.
Agora já em casa, Rodrigo partiu para seu segundo projeto e lançou pela Nova Fronteira, A Dinâmica das Larvas, que ele cunhou de “ uma comédia trágico – farsesca”.
Neto do historio governador Carlos Lacerda . Rodrigo passa a maior parte de seu tempo na pele de editor da Nova Aguilar, também de sua família. E mesmo vivendo entre livros diz que tem certo pudor em discutir literatura, coisa que não leva a lugar nenhum.
O jovem escritor confessa que embora seu Leão Rampante tenha sido premiado , “o segundo romance a principio me agradou ate mais” Ele explica. “ Quando escrevi A Dinâmica das Larvas havia o desafio de como ser atual mantendo um estilo”.
Este estilo meio “abarrocado”, segundo Rodrigo, esta sendo agora exercitado em mais três projetos, que ele se impôs:? Um livro de contos, e um romance, já iniciados, e a proposta do cineasta Antonio Penido para escrever um roteiro.
Ates de chegar a este ponto, Rodrigo que é formado em História pela Universidade de São Paulo, já havia traduzido o Médico e o Mostro, de Robert L. Strvenson e A Nuvem da Morte de Arthur Conan Doyle.
CONSELHO
Hoje assumidamente escritor. Rodrigo diz que o importante para quem quiser editar um livro é ter um intermediário que fala a ponte entre o autor e a editora. “ Se não tiver referencia nenhuma, é difícil entrar” assegura ele, que conhece os dois lados da moeda.
Amigo de letras e de bons papos com Rodrigo, o poeta Heitor Ferraz, 31 anos, é outro que entrou com o pé direito no mercado editorial. Seu primeiro livro, Resumo do Dia, recém lançado também pela Ateliê Editorial, já começa a produzir pequenos mas saborosos frutos.
Sensibilizado com a qualidade de suas poesias, o respeitado colunista Élio Gaspari não pensou duas vezes em pinçar três delas para fixá-las em sua coluna de O Globo. “Ele escolheu as que eu mais gosto”, maravilhou-se Heitor.
Concorda, porem, que de um modo geral os editores não arriscam apostas em escritores emergentes. No seu caso especifico, afirma que já linha contatos com alguns editores, sendo ele mesmo editor-assistente da editora universitária da USP.
E por tudo isto que Heitor sugere aos novos que procurem as pequenas editoras, que ainda não têm compromissos com o lucro sobre autores já conhecidos dos leitores. “Os editores não apostam em gente nova. E puro comercio”, constata ele.
SOBREVIVÊNCIA
Tentando equilibrar seu orçamento como free lancer do Jornal da Tarde, ele se diz com problemas para escrever o que gosta. “Nos últimos meses estou tentando retomar minhas poesias com grande dificuldade”, lamenta o poeta.
Num outro ponto da capital paulista. Bernardo Carvalho, 36 anos. também dá um murro danado para manter sua conta bancária ativa. Colaborador da Folha de S.Paulo e trabalhando como tradutor. Bernardo não passou pelos percalços de gastar sola de sapatos para colocar seus livros no prelo.
Ele conta que quando bateu na porta da editora Companhia das Letras em 1993 com os originais de Aberração, seu primeiro livro, não esperou muito para ser atendido.
A editora acertou em cheio. Segundo o autor. Aberração sai em abril do próximo ano na França pela editora Rivage, traduzido por Maryonne Lapouge que entre outros feitos, colocou Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. na ordem do dia dos leitores franceses.
Com isto Bernardo cristaliza o chavão de que santo de casa não faz milagres, numa terra em que a seu ver “falta divulgação para os novos escritores” e onde “se lê muito pouco”.
Mas ele toca o barco pra frente. Tanto que a sua editora no Brasil já bancou um segundo livro de sua autoria, batizado de Os Bêbados e os Sonâmbulos, com o olho num terceiro que já começou a escrever, mas que não revela nem para seu travesseiro.
CHALAÇA
“Estou escrevendo no meio do trabalho e prefiro não talar ainda sobre seu conteúdo”, despista Bernardo. Mas concorda que escrever é uma necessidade: “Escrevo obsessivamente. As vezes trabalho um romance inteiro na cabeça e depois o escrevo em 15 dias”, afirma.
Para aqueles que estão começando a dar os primeiros passos na literatura, ele sugere que “sejam originais e pessoais, pois assim terão chances de criar algo novo”. O conselho è á cara dele.
Em Cotia, região da Grande São Paulo, a história vai se repetir. José Roberto Torero, 32 anos, pode ser considerado um fenômeno editorial. Como seu colega Bernardo Carvalho, ele procurou a Companhia das letras com os ordinais de O Chalaça e pouco depois estourou na praça.
Resultado: dez edições e 36 mil exemplares vendidos. Nada mal para um neofíto. Mas mesmo assim ele continua mourejando para garantir o leite das crianças. Com uma coluna semanal no Jornal da Tarde sobre assuntos aleatórios, Torero burila seu segundo livro que como o primeiro, é baseado num personagem da História do Brasil.
“Estou na quarta versão do livro, que pretendo terminar entre dezembro e janeiro do próximo ano”, calcula. A figura central, segundo ele. chama-se Cosme Fernandes, o Bacharel, codinome de um degredado português que acabou sendo o primeiro comerciante de escravos no Brasil colonial.
E entre o livro e o jornal ele ainda encontra tempo para escrever um roteiro encomendado pelo SBT para um especial de Natal, a ser estrelado por Denise Fraga. Torero também é roteirista e diretor de cinema, tendo vencido o Festival de Brasília de 94 com o curta – metragem Amor. Também é dele o episódio interpretado por Jofre Soares e Vanda Lacerda em Felicidade É. Este ano seu último curta. Alma do Negócio foi exibido em Gramado.
Aos futuros escritores, um conselho: “Antes de levar os originais paia uma editora, entregue-os para alguém ler, para ter a certeza de que
PRAZER DE ESCREVER MOVE JOVENS AUTORAS
Escrever pode trazer prêmio e impopularidade. A escritora Regina Rheda sabe o que isso significa. Depois de ganhar na categoria Conto o Prêmio Jabuti de 95 pelo primeiro livro, Arca de Noé – Histórias do edifício Copan. ela teve que enfrentar a intolerância dos vizinhos no prédio onde morara e que lhe deu combustível para sua obra.
O Copan é um prédio-cidade projetado por Oscar Niemeyer, onde se acotovelam cerca de sete mil pessoas. Resma captou o dia-a-dia e o noite a noite do edifício, contou suas histórias e passou a ser chamada de fofoqueira quando colocou tudo no papel. A decisão foi expulsá-la de lá.
Perderam tempo. “Eu já estava mesmo de mudança”, conta ela com segurança em seu novo endereço no bairro Cerqueira César. Nem o prêmio surpreendeu a escritora: “Achava que merecia. O que me assustou foi a repercussão negativa”.
Mesmo premiada, o livro vendeu pouco, segundo Regina. Mas a editora Record quis tê-la no seu ume. principalmente depois que lançou na Bienal do Livro Pau de Arara – Classe Turística, sobre jovens da classe média brasileira que partem para os EUA paia limpar o lixo que os americanos acumulam em tomo de si.
Incansável, ela já prepara um novo lançamento para o ano que vem. Trata-se de um livro de contos que batizou de Amor Sem Vergonha – Histórias de Sacanagem.
Produzir um livro por ano é a receita que oferece aos novos escritores. No seu caso diz que “me sinto na obrigação de fazer o melhor e tenho muito prazer em escrevei” Dinheiro? Regina batalha duro para garantir seus compromissos como colaboradora de revistas. Como escritora ela não tem ilusões: “Vivo muito mal. A gente goza por pouco. Agora, o objetivo de todo escritor é ganhar dinheiro”, diz sonhando com viagens e conforto. É este prazer que a também nova escritora Heloísa Seixas quer passar em seus livros. Lançada peia obscura editora Sulina, de Porto Alegre, Heloisa viu seu livro de contos Pente de Vênus se transformar num”pequeno milagre”, sendo, inclusive, indicado para o Prêmio Jabuti deste ano.
Escrito por uma necessidade pessoal, ela tentou emplacá-lo na Companhia das Letras, recebendo um não logo de caia. Ressabiada. entregou os originais à editora Sulina e “eles ficaram encantados”, vinga-se.
Mulher do jornalista e escritor Rui Castro. Heloísa volta agora vitoriosa as livrarias com seu primeiro romance intitulado A Porta, que a editora Record lança no próximo dia 28. Ela se envereda pelo caminho do sobrenatural, inaugurando, em estilo gótico um filão nunca explorado pela literatura brasileira.
A obra sai com o aval do escritor Carlos Heitor Cony, que além da orelha também intermediou sua contratação pela Record. Segura, Heloísa diz que “não imagino minha vida sem escrever”. E manda um recado aos futuros-colegas: “O único caminho para. quem está começando é não desistir. É.ótimo ouvir histórias de escritores que levaram um não das editoras”, ensina.