Correio Braziliense (2) | A dinâmica das larvas
JORNAL: Correio Braziliense
DATA: 26 de setembro de 1996
Lacerda Toca fogo na fogueira das vaidades
|| Por Mauricio Melo Junior
Um concurso literário pode ser a solução para a vida de varias personagens. Um professor universitário que quer tirar dali o sentido de sua vida. Um editor de literatura que vê alia a tábua de salvação para sua empresa. Uma executiva que sonha se libertar mudando de atividade.
A junção de todas estas ambições serve de pano de fundo para o novo romance de Rodrigo Lacerda, A Dinâmica das Larvas. E o que surge é um mundo que não chega a ser uma exclusividade do meio literário. O enredo adequa-se a qualquer atividade onde as pessoas lutem por seu espaço. E basicamente é este o recado do autor. A ambição esta em todos os cantos, sempre disposta a atropelar alguém.
Rodrigo optou por situar no meio literário o drama de sua auto denominada comedia – trágico – farsesca por questões obvias. É o mundo que lê melhor conhece. Formado em história, trabalhou em uma editora universitária e traduziu vários romances ingleses. Sua estréia como romancista se deu no ano passado com a excelente novela. O Mistério do Leão Rampante, premiada com o Jabuti de Melhor Romance e o Prêmio CBN da Bienal do Livro de 95. Enquanto isso, sua família administra uma das mais tradicionais editoras do país.
Era até natural que o espaço sonhado fosse mesmo este, mas a analogia termina pó aqui. A carreira de Rodrigo, de fato, está embasada em elementos mais sólidos. Sua prosa é honestamente boa e seu trabalho constante em vários aspectos.
Alias, é esta segurança que transmite em seu texto que permite Rodrigo vacilar em alguns pontos deste A Dinâmica das Larvas. Em alguns momentos a farsa torna-se maçante. Sobretudo quando trabalha com o discurso do zoólogo Abdias Lobato. O trecho peca por exagerar no tamanho. E aquilo que nasce apenas com a função de ser uma ancora com a realidade, termina se transformando em algo chato a ate desnecessário.
No mais, o livro se mantém vivo. Seu clima intencionalmente folhetinesco sobressai e ensina as muitas possibilidades da literatura. A fogueira das vaidades é acesa e se deixa queimar o tempo todo. E no final o folhetim explode na previsibilidade natural, acalanto para os leitores do inicio do século.
E o forte a literatura de Rodrigo Lacerda esta justamente ai. Ele assume cada um dos pontos que determinada como norma para sua prosa e não foge deles. Na estréia quis reproduzir o estimo barroco do século XVII. Conseguiu. Agora quis remontar o tempo que os romances eram lidos em capítulos de jornais. Conseguiu.
Para o milagre, o escritor se utiliza de preciosismo no linguajar. Sua arma é exatamente esta. A linguagem. Rodrigo é meio artesão. Esta sempre buscando o termo certo para o período exato. O resultado é um realismo que diverte e constrói.
Fica de A Dinâmica das Larvas a certeza de um escritor, que se não desta vez acertou em todos os pontos, pelo menos conhece o caminho exato do alvo. E o livro, apresar de pequenos pesares, ainda pode ser visto como um exemplo do que de melhor esta acontecendo na nova literatura brasileira.