Continente | Vista do Rio
Revista Continente
DATA: maio de 2004.
SEÇÃO: Entremez
PÁGINA: 86-87
Visão do Rio
Desenhado como um quebra-cabeça, cada texto do livro de Rodrigo Lacerda suscita uma impressão de autonomia || Por Ronaldo Correia de Brito
Ricardo Piglia, no livro de ensaios intitulado Formas Breves (Companhia das Letras, São Paulo, 2004), afirma existir, na elaboração do conto, um jogo entre a vacilação do começo e a certeza do fim. Essa afirmação também vale para um romance e encontra-se bem ilustrada em Vtsta do Rio, do escritor carioca Rodrigo Lacerda (Cosac&NaifY, São Paulo, 2004). Desenhado como um quebra-cabeça, cada texto do livro suscita uma impressão de autonomia. No entanto, todas as peças se interligam, compondo uma narrativa, cujo enredo e desfecho surpreendem. E nossa curiosidade é instigada a descobrir até onde a história é tecida com a trama da vida de quem a escreve.
Num primeiro momento, dois meninos, Marco Aurélio e seu amigo Virgílio trucidam um beija-flor, colocando-o num liquidificador, e assistem a agonia do pássaro, transformado numa pasta grossa e vermelho-escura.
O segundo momento do livro, desprovido de efeitos dramáticos, descreve o edifício Estrela de Ipanema com minúcia dos detalhes arquitetônicos. Por meio desse personagem de concreto, quase onipresente, conheceremos as pessoas que o habitam, seus estilos de vida, os estratos sociais a que pertencem. O Rio de Janeiro é mostrado, até quase o final do livro, pelas repetidas descrições do prédio, sempre em novos detalhes. “Para quem nasce na cidade, o que é feito pelo homem é que é o natural…”
Num outro momento, Virgílio assiste a uma “cena primária”, entre o motorista da sua casa e o filho, um adolescente de 12 anos. Por mais que Freud afirme que somos portadores dessa “cena original de sexo”, mesmo que nunca a tenhamos testemunhado, os estragos causados em Virgílio serão eternos. O filho sacrificado não arde numa fogueira, como nos relatos míticos, mas nos braços do próprio pai.
Com linguagem fragmentária e tempo recorrente, Vista do Rio lembra um roteiro cinematográfico, pleno de ousadias, tais como de findar num remoto passado, quando todos os possíveis desfechos já foram anunciados. Apesar dos arrojos de estilo, o fio da narrativa é mantido pelos dois personagens: Marco Aurélio, futuro escritor e estudante de história, e seu amigo e mestre Virgílio, um diretor teatral rebelde, iconoclasta e cínico, que escandaliza e seduz. É inevitável a lembrança dos colegas Arcádio e Bazárov, do Pais e Filhos, de Turguéniev, e do humor elegante e ferino de Oscar Wilde em O Retratode Dorian Gray.
Marco Aurélio, o personagem que conduz a narrativa, afirma uma “assepsia de tudo, menos de sentimentos”. Mas o que se observa na primeira metade do romance é um bloqueio afetivo entre narrador e narrado. Como se o seu desejo fosse o de não se contaminar com qualquer emoção que impregna o mundo, embora afirmando sempre o contrário.
A cada intervenção sobre o Estrela de Ipanema, com sua arquitetura moderna alienando o homem da natureza e do sagrado, ele reforça essa ruptura com a emoção. “E quando, (…) se analisava o Estrela de Ipanema propriamente dito, via-se que o conjunto e todos os seus componentes arquitetônicos, em perfeita sintonia, reafirmavam a superioridade indiscutível do intelecto e da civilização. (…) O prédio obrigava a espécie humana a crescer mais rápido, a se libertar mais cedo de seus impulsos naturais…” Jogando com o tempo, fazendo incursões pela história social e política da cidade e do país, intercalando narrativas, Rodrigo Lacerda mostra o seu talento de romancista, um perfeito domínio da técnica concebida para inquietar o leitor, para impedir que ele saia imune da leitura.
Na segunda metade do livro, quando começam os relatos mais pormenorizados da doença de Virgílio e sua interlocução com o amigo Marco Aurélio, o romance se desfaz dos excessos de sua estética e assume uma comovente poesia e humanidade. O Rio de Janeiro das paisagens luxuriantes e misérias sociais também se abre nas últimas páginas, numa dolorosa celebração. O livro de Rodrigo Lacerda chega ao seu termo com a imagem de um Virgílio luminoso, liberto, voando de asa-delta sobre a cidade. Tempo remissivo tão bem encaixado que chegamos a esquecer um Virgílio presente, apodrecendo num leito de hospital, vítima do seu hedonismo.
Num contraponto genial, o adolescente Marco Aurélio olha com inveja o amigo alado, e deseja uma vida de “experiências, de permanente e simultânea excelência artístico – ético – sexual”. Porém, já se conhece o vencedor. Mesmo afogado no vômito e na náusea, Marco Aurélio é o sobrevivente.
Fiel a Kipling, quando afirma que ao escritor é dado criar a fábula, mas não a moral da fábula, o autor evita qualquer moralismo na análise do seu personagem Virgílio, e quase nunca o contradiz. Mas, não o poupa do castigo da doença e da morte. Da mesma forma que Turguéniev matou o cínico Bazárove Wilde puniu Dorian Gray.
O romance se encerra com a dolorosa reminiscência de tudo o que se anunciou nas primeiras páginas, e com a pergunta: “Onde está escrito que o papel do homem na terra é ser feliz?” A história volta ao começo. Desmonta-se o quebra-cabeça, novos encaixes são buscados. Mas as peças só se ajustam às formas para que foram desenhadas.
A terceira leitura do livro confirma a mesma certeza: só é possível existir.