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30/07/2009 |

A grande encruzilhada

A grande encruzilhada do Brasil, expressa na literatura, é a seguinte. O país sabe o que fazer para se transformar em um país socialmente mais justo e cujo Estado oferece melhores serviços à sua população. Ele sabe que precisa distribuir a sua riqueza de forma mais equânime. Mas, em primeiro lugar, isso é difícil de fazer, ainda mais na democracia. As pessoas resistem a entregar, outras querem mais do que precisam. Em segundo, e aí vem a encruzilhada, ele sabe que essa distribuição de riqueza criará uma gigantesca classe média. Mas, como eu disse ontem, os dois pólos da pirâmide social, tanto a base quanto o topo, desprezam os valores e o estilo de vida da classe média, vista como financeiramente individualista, intelectualmente limitada e politicamente conservadora.
Então as forças progressistas, da direita e da esquerda, querem tirar as pessoas da pobreza, mas não têm para onde levar. Porque elas no fundo não se identificam com o que a classe média, grosso modo, representa: a vida financeiramente controlada, a relação de poder muitas vezes desfavorável no trabalho, a ausência de contatos com pessoas importantes, a inferioridade diante da lei, a preocupação de atuar politicamente no sentido de não pôr em risco o seu padrão de vida etc.
Por isso a classe média é politicamente órfã. Todo mundo quer uma sociedade mais justa, mas ninguém quer viver de dentro o resultado dessa transformação.
Acho que esse assunto tem só mais um desdobramento, de que falo na próxima vez.

29/07/2009 |

Politicamente órfã

Pode ser que eu esteja louco e que essa minha teoria não tenha qualquer fundamento, mas eu sinceramente acredito que, no Brasil, a classe média está órfã politicamente falando. E isso, claro, se reflete na literatura. Num extremo da pirâmide social, temos aqueles que estão à margem da sociedade de consumo. Eles, entretanto, têm muitos porta-vozes na literatura brasileira. Esses porta-vozes compõem inclusive uma longa tradição, que podemos remontar desde o famoso Antônio Fraga, ou do livro Quarto de despejo, da Maria Carolina de Jesus, passando pelo João Antônio, até chegarmos ao Paulo Lins, ao Ferrez e a tantos outros escritores que se debruçam sobre essa faixa da sociedade. E claro que esses livros, explicitem ou não as grandes discussões políticas do Brasil, têm um conteúdo político muito forte.

No outro extremo, temos a classe alta, digamos a “aristocracia”, na falta de palavra melhor. Aqui, em geral, os protagonistas são rematados canalhas, que mais ou menos explicitamente deixam transparecer seu cinismo, sua falta de consciência social, etc etc. A expressão literária desses livros está, por exemplo, no livro Heranças, do Silviano Santiago e no Leite derramado, do Chico Buarque (dois romances que aliás são idênticos no desenho geral; outro dia falo disso com detalhe). Claro que, aqui também, há um conteúdo político colocado, ainda que de forma “machadiana”, isto é, indireta.

Já a classe média, quando protagoniza um romance entre nós, das duas uma: ou o livro se volta exclusivamente para dramas individuais, fechando-se no âmbito da família, por exemplo, como no caso do Filho Eterno, do Cristóvão Tezza; ou então o protagonista, apesar de pertencer à classe média, é ele próprio um ataque ambulante aos seus valores. Quantos livros vocês já leram em que o protagonista é um escritor/professor universitário que, por se sentir intelectualmente superior aos seus pares, ataca os valores da classe a que pertence?

Nada contra nenhuma dessas linhas de trabalho, pois todas já renderam ótimos livros. Mas o que vejo é que junto aos escritores que tratam dos marginalizados, a classe média é vista essencialmente uma força conservadora, que cuida dos próprios interesses e não força as mudanças sociais tão necessárias. Já para os que trabalham no âmbito da elite, a classe média é insossa, sem a formação cultural e intelectual que a elite tem, e sem, é claro, a força que o dinheiro dá. E esses dois atributos compõem, junto com a falta de caráter, o charme de seus personagens.

Então talvez não seja por acaso o fato de ser tão raro encontrar livros em que a classe média seja enfocada e que, além de enfocada, ela tenha expostos (para não dizer defendidos) os seus pontos de vista sobre a sociedade brasileira e sobre a vida política brasileira. A minha tese é que essa orfandade expressa uma grande encruzilhada ideológica do nosso país, que será o tema do meu post de amanhã.

27/07/2009 |

Para que serve um blog?

Sempre sugado pela necessidade de pagar as contas, já tenho muito menos tempo do que eu gostaria para escrever os meus livros. E acabo precisando concentrar minhas energias ao máximo, tocando em geral apenas um, quando muito dois projetos por vez. Mas, apesar disso, cedi à tentação de ter um blog.

Para que exatamente? Não sei. Contar piadas, sem dúvida, é um dos objetivos. Mas não deve ser só pra isso. Meu estoque não é tão grande assim. Também não me proponho a ser um desses benfeitores da humanidade, que fazem do seu blog uma espécie de agenda cultural da cidade e do país. Sou agradecido a eles, mas não sou tão bem informado quanto eles.

Acho que o blog servirá mesmo é para que eu possa dar minha opinião, ou os meus palpites, sobre qualquer assunto. Dou grande valor à opinião dos não-especialistas como eu, que nunca me especializei em *#!@#* nenhuma. Afinal, pegue qualquer assunto que seja e compare a opinião dos dois maiores especialistas do mundo. Você fatalmente verá que eles estão dizem o oposto um do outro. Essa constatação, ao longo dos anos, fortaleceu em mim a certeza de que a visão dos especialistas não passa de uma opinião, ou de um palpite, disfarçado de certeza científica.

Mas há ainda outra vantagem do blog, e preciosa: no dia seguinte de um post no qual eu dizia A, posso perfeitamente escrever outro dizendo B. Nada me impede de escrever no outro dia o contrário do que disse na véspera. E sempre achei a incoerência uma grande virtude. Ou melhor, como dizia meu avô, “a única coerência que valorizo é a que me faz mudar de idéia toda a vez que tenho uma idéia melhor”.

Pronto: acabou a encheção introdutória de lingüiça. Amanhã começo pra valer.

23/06/2009 | Impressões sobre o “Outra vida”

Uma grande amiga, Beatriz Antunes, editora da Girafinha e escritora bissexta, acaba de me mandar a mais generosa impressão do livro que estou lançando hoje, o Outra vida. Para um primeiro post no meu blog, não poderia haver coisa melhor. Leiam e imaginem a minha alegria:


“Falei muito brevemente ontem sobre o livro e fiquei de te mandar um e-mail com as minhas impressões. Pois aqui vamos nós.

Eu gostei muito. Primeiro porque me pareceu que você tinha feito um livro bastante diferente do “Vista” — e não só porque naquele havia, de fato, vistas, paisagens e um clima de modo geral mais arejado (um certo sabor de romance de formação), mas porque a escrita desta vez veio trabalhada de um jeito diferente.

Assim: no “Vista”, a narrativa apontava prioritariamente para a frente ou para trás, menos para baixo e para cima. O ritmo era dado pelo encadeamento de fatos, acontecia muita coisa, havia ação. No “Outra vida”, ao contrário, o texto aponta para dentro, o narrador vai cavando a personalidade dos três personagens e, nesse movimento “para baixo” e “para o fundo”, o leitor acaba preenchendo as lacunas de toda a história pregresa que leva à cena (em termos de tempo, curta) da rodoviária.

Mas aí é que vem a coisa… Era de se esperar que, nesse tipo de narração, o efeito conseguido fosse particularizante. Ou seja, que quanto mais o narrador cavasse o personagem, mais o leitor enxergaria a particularidade daquele tipo. E, no entanto, o mergulho para dentro dos três personagens resulta num comentário mais universal que eles três e a filha, mais universal que um casal à beira da separação na rodoviária. Me vi ali diversas vezes, vi gente que conheço e imaginei que algumas atitudes de conhecidos deveriam ter as mesmas explicações que as dos personagens. De alguma forma, então, o mergulho “particularizante” resultou “universalizante”.

É um livro comovente, mas não só porque a história seja em si comovente, mas porque é impossível tomar partido. O leitor não tem descanso, é convidado o tempo inteiro a se identificar, a se afastar, a rejeitar ou admirar atitudes muito reais e não consegue fincar a bandeira em nenhum território para observar a guerra de longe. A gente (falo por mim) está o tempo todo sendo atingido, mesmo quando achava que já tinha se definido por um dos lados e que portanto estaria imune a pelo menos metade dos dardos.

Até o capítulo “A mulher” eu sinceramente achava que o livro estava pendendo mais pro lado do marido, defendendo as teses dele com mais convição e mostrando as da mulher com certa ironia. Ou com um distanciamento. Tive medo de que no final o livro a “abandonasse”. A impressão se dissipa quando ela ganha um capítulo inteiro para dar consistência a sua história. Só assim o livro pode chegar tão bem à cena final em que o pai leva a criança sem parecer o herói e, por sua vez, a mãe pode abdicar da obrigação “natural” de manter a filha sem parecer vilã.

Eu ainda poderia falar dos vários trechos que considero exemplos de uma observação muito fina da realidade, mas vou falar só de uma passagem para que esse e-mail não se transforme num livro. Na página 164, você escreve: “Então, o que é melhor? Perdoar a traição e continuar casado com a mãe de sua filha, com uma mulher que o deixava orgulhoso de si mesmo, ou romper? / Olhando para os peitos, a bunda e as pernas da jovem desconhecida, o homem sente falta antecipada desse orgulho e lamenta o sexo ultimamente morno entre ele e a mulher”.

A falta antecipada da esposa, sentida pela projeção do sexo com outra, é alguma coisa que explica o que é o sentimento amoroso em termos absolutamente palpáveis e, por isso, precisos. Como se uma parte desse sentimento que gostamos de achar misterioso fosse exatamente este “pressentir a falta da pessoa amada” ou ainda “pressentir falta dela projetando, na verdade, a falta de um status que ela a nos dava estando a nosso lado”. Nisso, é claro, você acabou dizendo muito dos personagens, humanizando esse homem sempre tão cristão e altruísta (então ele também se ressente de uma aparência perdida, não será somente a mulher).

De todo modo quando cito aqui o trecho é para dizer que esse tipo de observação está presente no livro todo e me impressinou por evidenciar a profundidade e a precisão da sua maneira de observar o mundo. É raro que um autor acerte tantas vezes no ponto quando faz isso, às vezes soa falso, às vezes excessivo. No “Outra vida” isso não acontece. Tudo se encaixa.”

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