Uma grande amiga, Beatriz Antunes, editora da Girafinha e escritora bissexta, acaba de me mandar a mais generosa impressão do livro que estou lançando hoje, o Outra vida. Para um primeiro post no meu blog, não poderia haver coisa melhor. Leiam e imaginem a minha alegria:
“Falei muito brevemente ontem sobre o livro e fiquei de te mandar um e-mail com as minhas impressões. Pois aqui vamos nós.
Eu gostei muito. Primeiro porque me pareceu que você tinha feito um livro bastante diferente do “Vista” — e não só porque naquele havia, de fato, vistas, paisagens e um clima de modo geral mais arejado (um certo sabor de romance de formação), mas porque a escrita desta vez veio trabalhada de um jeito diferente.
Assim: no “Vista”, a narrativa apontava prioritariamente para a frente ou para trás, menos para baixo e para cima. O ritmo era dado pelo encadeamento de fatos, acontecia muita coisa, havia ação. No “Outra vida”, ao contrário, o texto aponta para dentro, o narrador vai cavando a personalidade dos três personagens e, nesse movimento “para baixo” e “para o fundo”, o leitor acaba preenchendo as lacunas de toda a história pregresa que leva à cena (em termos de tempo, curta) da rodoviária.
Mas aí é que vem a coisa… Era de se esperar que, nesse tipo de narração, o efeito conseguido fosse particularizante. Ou seja, que quanto mais o narrador cavasse o personagem, mais o leitor enxergaria a particularidade daquele tipo. E, no entanto, o mergulho para dentro dos três personagens resulta num comentário mais universal que eles três e a filha, mais universal que um casal à beira da separação na rodoviária. Me vi ali diversas vezes, vi gente que conheço e imaginei que algumas atitudes de conhecidos deveriam ter as mesmas explicações que as dos personagens. De alguma forma, então, o mergulho “particularizante” resultou “universalizante”.
É um livro comovente, mas não só porque a história seja em si comovente, mas porque é impossível tomar partido. O leitor não tem descanso, é convidado o tempo inteiro a se identificar, a se afastar, a rejeitar ou admirar atitudes muito reais e não consegue fincar a bandeira em nenhum território para observar a guerra de longe. A gente (falo por mim) está o tempo todo sendo atingido, mesmo quando achava que já tinha se definido por um dos lados e que portanto estaria imune a pelo menos metade dos dardos.
Até o capítulo “A mulher” eu sinceramente achava que o livro estava pendendo mais pro lado do marido, defendendo as teses dele com mais convição e mostrando as da mulher com certa ironia. Ou com um distanciamento. Tive medo de que no final o livro a “abandonasse”. A impressão se dissipa quando ela ganha um capítulo inteiro para dar consistência a sua história. Só assim o livro pode chegar tão bem à cena final em que o pai leva a criança sem parecer o herói e, por sua vez, a mãe pode abdicar da obrigação “natural” de manter a filha sem parecer vilã.
Eu ainda poderia falar dos vários trechos que considero exemplos de uma observação muito fina da realidade, mas vou falar só de uma passagem para que esse e-mail não se transforme num livro. Na página 164, você escreve: “Então, o que é melhor? Perdoar a traição e continuar casado com a mãe de sua filha, com uma mulher que o deixava orgulhoso de si mesmo, ou romper? / Olhando para os peitos, a bunda e as pernas da jovem desconhecida, o homem sente falta antecipada desse orgulho e lamenta o sexo ultimamente morno entre ele e a mulher”.
A falta antecipada da esposa, sentida pela projeção do sexo com outra, é alguma coisa que explica o que é o sentimento amoroso em termos absolutamente palpáveis e, por isso, precisos. Como se uma parte desse sentimento que gostamos de achar misterioso fosse exatamente este “pressentir a falta da pessoa amada” ou ainda “pressentir falta dela projetando, na verdade, a falta de um status que ela a nos dava estando a nosso lado”. Nisso, é claro, você acabou dizendo muito dos personagens, humanizando esse homem sempre tão cristão e altruísta (então ele também se ressente de uma aparência perdida, não será somente a mulher).
De todo modo quando cito aqui o trecho é para dizer que esse tipo de observação está presente no livro todo e me impressinou por evidenciar a profundidade e a precisão da sua maneira de observar o mundo. É raro que um autor acerte tantas vezes no ponto quando faz isso, às vezes soa falso, às vezes excessivo. No “Outra vida” isso não acontece. Tudo se encaixa.”
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