Baco | coleção Deuses da Mitologia
Este quarto volume da coleção Deuses da Mitologia, escrito pelo professor Luis Krausz, é dedicado àquele que talvez seja o deus mais perturbador de todas as galerias de divindades: Dioniso, ou Baco, nome pelo qual também era conhecido na Grécia, mas que em Roma tornou-se único.
Filho de Zeus e Sêmele, e portanto metade deus, metade mortal; salvo da barriga de sua mãe antes que ela fosse carbonizada; tendo sua gestação terminada na coxa do pai, e assim des- de o nascimento encarnando a unidade entre a morte e a vida; Dioniso ganhou feições ora libertárias, ora assustadoras. De um lado, sua aparição trazia o alívio dos sofrimentos cotidianos e seu culto era aberto mesmo a quem pertencia às classes mais baixas. De outro, ele provocava a loucura e a desagregação social, constituindo uma ameaça.
Para muitos estudiosos, Dioniso teve origem em sociedades primitivas, anteriores à Idade do Ferro, agrárias e matriarcais. Daí o incômodo que despertava em autores como Homero, já em plena era dos guerreiros e heróis, ou seja, do patriarcalismo instituído. A vinha, planta sagrada, a máscara que o simbolizava, seu séquito de mulheres devassas e desgrenhadas, a algazarra que o anunciava, as serpentes, o ímpeto assassino de seus seguidores, todos esses elementos contribuem para que ele seja ao mesmo tempo muito atraente e amedrontador. Baco é, por excelência, o deus que nos promete a total liberdade, mental, social e sexual, mas que nos ameaça com o descontrole sobre nós mesmos e sobre nossa agressividade. Mas é, não obstante, um deus a quem devemos muito. A tragédia grega, por exemplo, é uma forma mais “civilizada” de cultuá-lo.
Com o tempo, seu culto ganhou caráter iniciático, em cujo ritual as fronteiras entre a vida e a morte, entre a loucura e a sanidade eram abertas a uns poucos escolhidos. Também vemos nesta edição suas afi nidades com divindades estrangeiras, como o egípcio Osíris e a Shiva hindu. Ao longo desses textos, sempre ilustrados por obras clássicas da história da arte, percebemos o quanto o “dionisismo” nos é próximo. Sexo, drogas e rock & roll é uma máxima perfeitamente aplicável à forma original de seu culto.
RODRIGO LACERDA, editor
