As peregrinações do “agente duplo” V.S. Naipaul

Em descrições e entrevistas feitas na índia, país de seus antepassados, o autor opta pela impessoalidade ao exercer o papel de atravessador cultural entre Ocidente e Oriente. 

Índia: Um Milhão de Motins Agora é o sétimo livro do escritor V.S. Naipaul publicado no Brasil. Nascido em 1932, na então colônia britânica de Trinidad, no Caribe, e depois, aos 18 anos, tendo se transferido para a Inglaterra, Naipaul sempre esteve ligado à terra de origem de seus bisavós: a índia. Foi criado segundo as tradições conservadas pelo núcleo de população hindu que se transferira para o Caribe e, na metrópole, sempre foi identificado como um escritor hindu. Ele integra a safra de autores provenientes das ex-colônias que, na segunda metade deste século, cavaram um lugar ao sol na literatura inglesa, juntamente com Salman Rushdie, Kazuo Ishiguro, etc. Visitou a índia uma primeira vez, em 1962, e, no início dos anos 80, voltou para fazer a viagem que deu origem a este novo livro.

Sua biografia, por misturar a herança hindu e a vivência em sociedades ocidentais-, habilitam-no ao posto de um agente duplo, no melhor sentido do termo, de atravessador cultural entre esses dois mundos. É com esta atitude que construiu o livro agora publicado. O livro refaz seu roteiro pela índia, começando por Bombaim, passando por Goa, Calcutá, Nova Délhi, Madras, pelo Punjab, etc. Cada capítulo marca, com relativa flexibilidade, os avanços de sua peregrinação. À medida que a viagem se desenrola, ele vai improvisando um repertório de entrevistas com pessoas das mais diversas procedências, atividades e classes sociais. Líderes comunitários, religiosos, profissionais liberais, políticos, cientistas sociais, artistas, delinqüentes, todos são alvo de suas atenções. As entrevistas são mais ou menos longas, feitas com o auxílio de intérpretes sempre que o entrevistado não fala inglês, e tanto podem se aprofundar em seus detalhes biográficos como podem dar margem a que ele reflita sobre o passado, o presente e o futuro da índia. Os temas abordados são inúmeros: a vida na maior favela de Bombaim, a criminalidade, as contradições entre a religião e a vida moderna, a entrada da tecnologia na sociedade tradicional, as guerras de independência da índia e do Paquistão, o clientelismo político, a religião sikh, a democracia, a desigualdade social e a ameaça de ruptura no embate entre tradição e modernidade. É por meio desse mosaico de entrevistas e de temas que se pode entender o subtítulo “Um Milhão de Motins Agora”.

Quando não está entrevistando alguém, Naipaul está descrevendo paisagens que viu, bairros por onde passou, ambientes domésticos que visitou. Perpassando todo o livro, há uma oscilação entre as . marcas autorais inevitáveis a qualquer obra, e o distanciamento pretendido pelo autor em relação a seus entrevistados e aos temas sobre os quais discorrem. As entrevistas não são transcritas na íntegra, não fica dito se essas são de fato todas as entrevistas feitas durante a viagem e, nos agradecimentos, Naipaul anuncia que “por motivos óbvios (sic), alguns nomes e circunstâncias foram modificados”. Mesmo assim, as entrevistas são legitimadas aos olhos do leitor como reproduções absolutamente sinceras e fidedignas de tudo o que foi dito. Também nas descrições de lugares a objetividade é a principal preocupação de Naipaul, que aparentemente se limita a enumerar aspectos físicos de cada paisagem, bairro ou domicílio. Portanto, os traços autorais do livro estão, na medida do possível, apagados da vista do leitor, invisíveis na preparação do material. Assim Naipaul procura exercer com maior imparcialidade seu caráter de “agente duplo” entre o Oriente e o Ocidente.

Sua atitude é ao mesmo tempo dissimulada e cerimoniosa. Dissimulada porque procura camuflar o peso de sua própria subjetividade, eliminar a importância de suas impressões pessoais a respeito de tudo o que vê e ouve, e que obviamente desempenharam um papel na composição de cada uma das 408 páginas. Cerimoniosa porque, uma vez disposto a não se posicionar, ele acaba impedido de questionar seus entrevistados

de forma mais contundente. Quando muito, dá uma cutucadinha e, ao primeiro sinal de resistência por parte do entrevistado, deixa passar. Nunca instaura nenhum debate sobre nenhum assunto, apenas recebe o depoimento e o processa com a impessoalidade possível.

Uma estratégia que poderia ter relativizado essa fleuma com a qual Naipaul aborda se”u próprio trabalho seria um esmiuçamento das relações entre a cultura que descreve e suas reminiscências de infância na colônia hindu de Trinidad, ou entre a viagem dos anos 80 e sua primeira visita à índia duas décadas antes. Mas isso, quando acontece, também é feito de modo a diminuir o peso autobiográfico, o que torna esse esmiuçamento quase tão imparcial quanto as descrições e as entrevistas. Ao contrário do que se poderia imaginar, esse não é um livro no qual o autor vai ao encontro de suas origens culturais mais profundas; esse é um livro sobre a índia, e ponto.

Quando se chega ao final do livro, tem-se exatamente a impressão de quando se olha o conjunto de um mosaico, ou seja, a sensação de que há uma imagem ali que ainda não foi inteiramente assimilada. Qual é, afinal, a imagem da índia que se pode extrair desse livro? Que perspectivas Naipaul enxerga para o subcontinente? Essa dúvida ocorre em parte por causa da opção pela forma fragmentada, de documentário, em parte pela auto filtragem procedida pelo autor. Mas porque esse distanciamento pretendido pelo autor nunca é realizável de forma absoluta, pode-se, aqui e ali, fisgar algumas pistas.

A primeira delas esta no parágrafo de abertura do capítulo 8, quando fala do processo histórico hindu: “Despertar para a história significa deixar de viver instintivamente. Significa começar a ver a si mesmo e ao próprio grupo da mesma forma que o mundo exterior os vê.” Mais tarde, na página 404, ele diz: “A restituição da índia a Si própria no século 20 levara tempo… A índia voltava-se para uma nova forma de vida intelectual e recebia novas idéias sobre sua história e civilização.” Finalmente, ao falar de democracia, página 153, ele percebe que “…talvez pela primeira vez na história da índia a maioria das pessoas acreditava que eles próprios ou seus representantes, alguém de seu grupo, tinham a possibilidade de chegar ao centro mais quente, onde estavam o poder e o dinheiro”. A partir desses exemplos, e de trechos de algumas entrevistas, o que se depreende é que a modernização econômica, social, política e tecnológica da índia é inevitável. Pode gerar conflitos, pois despertar para a própria história “…significa conhecer um tipo de raiva” — diz Naipaul novamente na abertura do capítulo 8 —, mas certamente acontecerá. A índia é, portanto, um país que se descobre no momento em que faz um balanço de seu passado, um país que ainda está sujeito a explosões de ódio intestino, mas que tem chance de superar essas diferenças no decorrer desse processo de auto – conhecimento histórico.

Retirados todos os filtros colocados por Naipaul em sua narrativa, obtém-se uma análise consciente da complexidade da situação indiana, mas, em última instância, otimista. E foi por desaguar nesse otimismo longínquo que o escritor indiano rejeita, ao final de seu livro, a obra que aparentemente era uma referência para ele: os textos do correspondente do Times de Londres, William Howard Russell, famoso por denunciar ações escabrosas cometidas pelos exércitos envolvidos na Guerra da Criméia (1853-1858). Em seus textos sobre a índia, de 1858, Naipaul nos conta que Russell “havia descrito um vasto país fisicamente em ruínas” compondo uma “idéia de abjeção, derrota e vergonha”. Mas não é bem essa a conclusão de V.S. Naipaul.          



JORNAL: Jornal da Tarde
DATA: 29 de março de 1997
SESSÃO: Caderno de Sábado
PÁGINA: 6