Apolo | coleção Deuses da Mitologia
A coleção Deuses da Mitologia, cujo primeiro número foi dedicado a Zeus, ou Júpiter, figura central do panteão greco-romano, ganha continuidade com esta edição inteiramente voltada a outra divindade de crucial importância. Trata-se de Apolo, o deus da luz, das artes e da beleza.
Os textos aqui reunidos foram em sua maioria escritos pela professora de arqueologia e história antiga Marlene Suano, do Departamento de História da USP. Também tivemos a colaboração de Rafael Scopacasa, professor que vem desenvolvendo estudos na Inglaterra e pesquisas arqueológicas na Itália. Os dois sabem muito bem da responsabilidade inerente ao projeto de compor um retrato compreensivo de Apolo.
Para começar, ele é neto de Titãs e filho de ninguém menos que Zeus. Sua mãe, Leto, também faz parte da primeira geração olímpica. É justamente por ela estar tão próxima das grandes forças da natureza, e do panteão, que sua gravidez ameaça a Hera, quando esta se casa com Zeus. Hera dá então início uma perseguição inclemente à amante do rei do Olimpo, que só termina em Delos, uma ilha perdida no mar Egeu. Lá, cercados de deuses e de manifestações naturais, que atestam a importância de seu nascimento, Apolo e Ártemis, ou Diana, para os romanos, finalmente vêm à luz.
Mas a figura de Apolo apresenta ainda desafios que vão além de sua grandeza face aos “companheiros” de Olimpo. Ele é um dos mais multifacetados personagens de todo o conjunto mitológico a que pertence. Deus das artes e da beleza, deus da medicina e da cura, Apolo é também o deus castigador, o deus cujo amor próprio ferido o leva a cometer verdadeiras chacinas. Heróis grego, possui entretanto ligações com a mitologia e a história do Oriente próximo, e luta a favor dos troianos na guerra mais famosa de toda a Antigüidade. Além disso, quando chega a Roma, Apolo não apenas muda de nome. Ele é fundido ao mito de Fetonte e o carro do Sol, bem como ao deus Hélios, que na Grécia detinha a prerrogativa exclusiva de, com este carro, controlar o dia e a noite. Por fim, o oráculo de Apolo em Delfos é um dos mais intrigantes rituais místicos da Grécia, combinando profecia e observação, aconselhamento individual e decisões estratégicas de Estado.
Como senhor das artes, Apolo possui a sua volta as Piérides, as Graças e as Musas, divindades que disseminam o talento e a inspiração entre músicos, poetas, pintores e escultores. Nas competições, também associadas a sua figura, demonstra a sorte que não teve no amor. Por estranho que possa parecer, o deus da beleza sempre foi rejeitado por suas amadas.
Na modernidade, vários elementos parecem ainda remeter ao chamado “deus da luz”. A máxima “Conhece-te a ti mesmo”, aprendida por Sócrates no oráculo de Apolo, parece ainda ecoar nos consultórios de nossos psicanalistas. E a oposição entre os conceitos apolíneo x dionisíaco continua presente não apenas na crítica de arte, mas em toda uma compreensão da vida e do mundo.
A história da arte, é claro, registrou em profusão não apenas os atributos de Apolo, entre eles a lira, símbolo de seu patronato artístico, mas também os principais episódios de sua acidentada e grandiosa trajetória. O leitor encontrará aqui, nas ilustrações distribuídas ao longo da revista, ou em dossês de imagem que aprofundam alguns aspectos particulares da iconografia existente, um grande repertório dessa intensa relação entre o talento humano e a simbologia dos deuses.
RODRIGO LACERDA, editor
