Alberto Manguel: a Ilíada e a Odisséia
A Ilíada e a Odisséia são duas obras que certamente se encaixam numa coleção chamada “Livros que mudaram o mundo”. Escritas por volta de oitocentos anos antes de Cristo, desde então fazem parte do chamado cânone Ocidental. Mas nem sempre este pertencimento ao cânone foi visto com tanta naturalidade. É exatamente do processo de consolidação dessas obras, e de seu autor, na lista dos clássicos de todos os tempos, que trata o novo livro do escritor, tradutor e antologista Alberto Manguel.
Os capítulos de abertura abrem espaço para um pequeno resumo dos poemas e para a indefectível discussão sobre a existência ou não de Homero. Mas não são eles que importam. Fazer a “biografia” dos dois livros primordiais da literatura grega, como propõe o título, significa recuperar as diversas leituras que já inspiraram.
Tal recuperação começa ainda na Grécia antiga, mas vem até a contemporaneidade. No caminho, atravessa a Antigüidade latina, os primórdios do cristianismo, o Império Bizantino, o mundo árabe, o Renascimento, o período da Reforma, os sécs. 17 e 18, a época do movimento romântico, e chega até nós analisando as referências a Homero nas obras de Freud, Jung, Nietzsche, Joyce e Borges, entre outros menos conhecidos. Ao longo de tantas etapas, certamente que há uma infinidade de aspectos interessantes sendo discutidos, ainda que de forma sumária (não poderia mesmo ser diferente, tendo em vista a amplitude do percurso).
Em geral, para melhor retratar a forma como Homero era lido num determinado momento, a primeira estratégia de Manguel consiste ou em reconstruir polêmicas que de fato aconteceram em torno da Ilíada e da Odisséia, ou em articular por sua conta autores que tratem dos dois grandes épicos.
Os capítulos assim estruturados propiciam ao leitor uma sensação de agradável onisciência. É como se ganhássemos ingressos para assistir, de camarote, Platão e Aristóteles discutindo de que forma, e se, Homero deveria ser lido; ou Santo Agostinho e os teólogos da Igreja avaliando o quanto as histórias daqueles personagens ambivalentes e seus deuses contraditórios eram, ou não, úteis à propagação da nova fé; ou ainda Freud e Jung disputando, no terreno psicanalítico, qual a melhor forma de decifrar a carga simbólica presente nos mitos gregos. Pouca importa se tais embates são historicamente comprovados ou não. É sempre curioso testemunhar grandes gênios da humanidade em duelo.
Nesses momentos, que representam a maior parte do livro, Alberto Manguel faz uma bibliografia comentada parecer uma leitura agradável mesmo ao leitor não especializado. O tom “acadêmico-light” e a liberdade no manejo das fontes conferem ao livro uma leveza que ele dificilmente teria de outra forma.
O capítulo “Madame Homero” é um exemplo bem claro do quanto Manguel se desdobrou para tornar o livro palatável, incluindo no extenso rol de obras comentadas algumas menos representativas, porém curiosas e pitorescas. Trata-se aqui da estrambótica teoria do escritor Samuel Butler que, em 1897, afirmou ser Homero, na verdade, não um bardo cego, e muito menos uma abstração resultante da fixação em livro da cultura oral grega difundida por inúmeros narradores. Segundo Butler, o autor da Ilíada e da Odisséia era, isto sim, uma jovem siciliana, solteira, que teria vivido no séc. II a.C.!
Há capítulos, no entanto, em que a ênfase do livro é deslocada para outra forma de abordar a perenidade dos épicos gregos. Nesses, em vez de fazer uma história da recepção, Manguel discute aspectos propriamente literários do texto homérico, como a permanência de alguns de seus temas e/ou metáforas na literatura que veio depois. Ele então deixa de mapear a assimilação de Homero pelo viés dos embates no âmbito da política cultural, e passa a contá-la do ponto de vista do processo criativo dos escritores. Alguns dos temas eleitos aparecem nos capítulos “O eterno feminino”, em que são recuperadas, de Homero até o séc. 19, certas aparições do motivo da beleza feminina; e “A guerra sem fim”, no qual se discute o horror e a atração que o belicismo desperta na humanidade desde Tróia até os conflitos televisionados de hoje.
Em “Homero no inferno” o foco se fecha ainda mais. Manguel chama a atenção para a perenidade de uma das metáforas usadas por Homero na Ilíada. Ela diz respeito à morte dos homens, comparada à das folhas, que morrem quando caem das árvores, e surge quando Ulisses desce ao reino dos mortos e vê as almas rodopiando como num redemoinho de outono, animado pelo vento maligno da morte. Em seguida, o próprio Homero desdobra essa imagem, abarcando não apenas a morte, mas o nascimento dos sucessores, comparável ao dos brotos na primavera: “As gerações dos mortais assemelham-se às folhas das árvores,/ que, umas, os ventos atiram no solo, sem vida; outras, brotam/ na primavera, de novo, por toda a floresta viçosa./ Desaparecem ou nascem os homens da mesma maneira”.
Séculos depois, na Eneida de Virgílio, o troiano Enéias, ao chegar a uma praia, depara-se com uma aglomeração de almas infernais semelhante àquela vista por Ulisses, e usa a mesma imagem das folhas. Dante, na sua Divina Comédia, quando chega ao portão do inferno, exclama também: “Como as folhas que o vento outonal colhe/ Uma após a outra até que a nua ramagem/ Só fita os restos seus que a terra acolhe”. John Milton, o poeta inglês do séc. 17, recupera a mesma metáfora, ao descrever as legiões de Satã, segundo ele, “numerosas como as folhas de outono caídas à beira dos rios”. Já no séc. XIX, Paul Verlaine e Gerard Manley Hopkins seguem a mesma toada, bem como Percy Shelley, que fala das folhas como espíritos errantes: “Estive dentro da Cidade desterrada;/ E ouvi as folhas outonais como pisadas leves/ De espíritos passeando pelas ruas”.
Sejam eles temas ou metáforas, o levantamento de traços comuns entre a Ilíada, a Odisséia e várias obras posteriores, escritas por autores tão diversos, é uma segunda e última estratégia de Manguel para mostrar, e nos fazer entender, a permanência de Homero no imaginário Ocidental. Se em Virgílio e Dante tal influência é explícita, ele entretanto continua presente em escritores que talvez sequer tenham lido suas obras. As apropriações seriam inevitáveis, mesmo quando imprevistas, pois como diz Manguel: “É difícil para nós imaginar que, nessa época tão remota [a Grécia arcaica], já tínhamos palavras para nomear nossas experiências mais desconcertantes e nossas emoções mais profundas e obscuras”.
[2009, publicado em O Estado de S. Paulo]