Abertura | O fazedor de Velhos
Abertura
Eu não lembro direito quando meu pai e minha mãe começaram a me enfiar livros garganta abaixo. Mas foi cedo.
Lembro das sessões de leitura de poesia a que eu e minha irmã éramos submetidos pela nossa mãe, e que ela só aceitava interromper quando um filho, em geral eu, caía de joelhos a sua frente com gestos de reza fervorosa, e o outro, normalmente minha irmã, agarrava sua mão com a intensidade de um moribundo fazendo o último desejo. Ela nos olhava contrariada, mas ria do nosso desespero exagerado: “Pára, mãe, pelo amor de Deus, pára!”.
O conteúdo dessas leituras era relativamente variado. Digo relativamente porque as preferências de minha mãe, mesmo sendo variadas entre si, se repetiam sempre. Depois de um tempo, começamos a reconhecer alguns nomes de gente – Castro Alves, José Régio, Gonçalves Dias, João Cabral de Melo Neto, Manuel Bandeira, Fernando Pessoa, Carlos Drummond de Andrade –, e depois alguns nomes de livros e poemas – “Navio Negreiro”, “I-Juca-Pirama”, Poesia Até Agora, Mensagem, Rosa do Povo, Carnaval, Auto do Frade, Espumas Flutuantes, “O Monstrengo”.
Após anos combatendo amorosamente a inclinação dos filhos pela preguiça mental, minha mãe enfim conseguiu colher resultados. Aos poucos, nós não só fomos nos acostumando aos nomes e aos versos que ouvíamos a contragosto, como também, aqui e ali, começamos a desenvolver nossas preferências, a eleger quais, por um motivo ou por outro, amenizavam o tédio torturante das sessões de leitura.
A minha escolha mais antiga, pelo menos que eu me lembre, era um poema de título estranho: “I-Juca-Pirama”. Só depois descobri que era o nome do personagem principal, um índio tupi.
Num determinado momento da história, os tupis perdem a guerra contra os timbiras, e o I-Juca-Pirama, enquanto foge com o pai velho e doente pela floresta, é preso pelos vencedores.
Um dia, sei lá que idade eu tinha, me interessei por esta passagem. E a minha mãe ajudou, fazendo o favor de adicionar um dado novo e palpitante às agruras do protagonista. Ela disse que os índios roubavam a força e a coragem dos inimigos de uma maneira muito concreta: comendo-os.
Não crus, assados. Mas mesmo assim…
O guerreiro tupi, diante dessa tétrica perspectiva, cheio de orgulho e tristeza, canta para os timbiras e para a morte que se aproxima, em forma de espeto:
Meu canto de morte,
Guerreiros, ouvi:
Sou filho das selvas,
Nas selvas cresci,
Guerreiros descendo
Da tribo tupi.
Da tribo pujante,
Que agora anda errante
Por fado inconstante,
Guerreiros, nasci:
Sou bravo, sou forte,
Sou filho do norte;
Meu canto de morte,
Guerreiros, ouvi.
Minha mãe lia em voz alta, com ritmo, marcando as rimas.
Quando o ritual de antropofagia parece que vai começar, o prisioneiro chora. Chora e confessa aos inimigos ter escondido na floresta o pai cego e à beira da morte. Implora que o deixem cuidar do pai até o fim, prometendo voltar e reassumir o papel de prisioneiro, e de prato principal, assim que o velho Pirama partir para a grande floresta lá do céu.
Os timbiras, porém, não percebem o quanto as lágrimas do guerreiro são honradas e nobres (ou você acha que é para qualquer um, se entregar de novo só por uma questão de honra?). Eles não compreendem que o choro não é por medo da morte, mas de preocupação com o pai. Então, sem entender o verdadeiro caráter do candidato a churrasco, julgam-no um covarde e preferem libertá-lo, pois não querem “com carne vil enfraquecer os fortes”.
O tupi, incompreendido, vai afinal encontrar o pai. Só que o velho, cego e moribundo, não quer saber de alterações no modelo de comportamento que faz a honra de um guerreiro. Repreende o filho, ao saber como havia apelado para a generosidade dos vencedores, usando a sua doença como desculpa. Ordena-lhe que o conduza até o acampamento inimigo. Lá chegando, pede que aceitem de volta o prisioneiro, e que o tratem como a um valente. Ou seja: espeto.
Mas tudo ainda piora. Os timbiras se recusam a aceitar o I-Juca-Pirama de volta, e o pai, ao entender porque, isto é, ao saber que o filho havia chorado diante do inimigo, desiste de salvar a sua honra. Ter apelado para a generosidade dos timbiras já era ruim, ter usado a sua doença como desculpa era péssimo. Mas ter chorado, aí não; merecia o pior castigo de todos, a maldição paterna:
Tu choraste em presença da morte?
Na presença de estranhos choraste?
Não descende o covarde do forte;
Pois choraste, meu filho não és!
Sê maldito, e sozinho na terra;
Pois que a tanta vileza chegaste,
Que em presença da morte choraste,
Tu, covarde, meu filho não és.
Quanta injustiça! Que o inimigo não visse a grandeza do gesto de I-Juca-Pirama, até dá pra entender. Agora, ser incompreendido e amaldiçoado pelo próprio pai!
Acabei adorando esse novelão metrificado, com índios no lugar de galãs bigodudos.
Outro poema que terminei preferindo, e aprendendo quase de cor, foi “O Monstrengo”, escrito, segundo minha mãe, por um poeta português que dizia ter quatro personalidades. Achei isso impressionante. Já imaginou, quatro portugueses numa pessoa só?
O poema reproduz o diálogo de um marujo com uma criatura horrível. O marujo está no meio do oceano, sozinho no convés, conduzindo o leme de um navio do rei de Portugal, quando é ameaçado pelo vulto macabro, que voa ao seu redor, como um fantasma dos mares. Essa criatura, o “monstrengo”, fica o tempo todo perguntando ao homem do leme quem é, e o que está fazendo em seu território:
Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tetos negros do fim do mundo?
De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?
Disse o monstrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso.
E, ao fim de cada estrofe, o homem do leme, tremendo de medo, responde sempre que está ali por ordens do rei D. João Segundo (que existiu mesmo).
Depois de ouvir a mesma pergunta várias vezes, e de responder várias vezes a mesma coisa, uma bela hora o marujo sobe nas tamancas (ele era português, afinal). Fica cheio de coragem e encerra o poema enfrentando o fantasma:
Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes:
“Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um povo que quer o mar que é teu;
E mais que o monstrengo, que a minha alma teme,
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!”
Eu não sabia explicar por que este ou aquele poema virava meu preferido. De repente me pegava lembrando dos mesmos versos que tempos antes ouvira no maior sacrifício. Aos poucos ia gostando da música forte que as palavras compunham. O ritmo do “I-Juca-Pirama” e d’“O Monstrengo” transmitia algo que eu não sabia definir, mas era bom.
Hoje, olhando para trás, vejo que havia mais uma coisa em comum entre os meus poemas preferidos: a história. Eu gostava mais se eles contavam uma história.
Talvez por causa disso, quando meu pai começou a me recomendar livros de prosa, fossem romances ou volumes de contos, eu tenha gostado tanto daquele que era o seu autor predileto. Um outro português, chamado Eça de Queirós. Este, além de um bigodão típico, enroladinho nas pontas e tudo, tinha ritmo, música, piadas, amor e tragédia. Mas, sobretudo, não criava apenas uma história para cada romance, criava milhares, e milhares de personagens também.
Difícil escolher quais eu gosto mais. Praticamente impossível. Talvez a melhor resposta seja dizer que, na montanha de histórias do Eça, o que eu gosto mais é da combinação de dois personagens. Nada, acho, supera a amizade entre o Carlos Eduardo, protagonista do romance Os Maias, e o João da Ega.
Quando tudo começa, os dois amigos acabaram a faculdade em Coimbra e estão voltando para casa, em Lisboa, com planos de trabalhar, mas também de aproveitar a juventude. Afinal, estão com a vida ganha: em relação ao passado, têm a sensação de dever cumprido; em relação ao futuro, não têm ainda grandes responsabilidades. Saboreiam os prazeres da mesa, dos copos, das namoradas, e dividem tudo isso alegremente.
Ao ler aquilo, ficava me perguntado como seria, apenas com palavras, criar dois personagens tão vivos? E uma “liga” tão perfeita entre eles?
Carlos é um pouco menos malucão, mas adora a espontaneidade e a vivacidade do amigo, que vive encrencado; Ega admira a elegância de Carlos, a generosidade de sua alma e, sobretudo, sua personalidade equilibrada.
Tudo isso aparece nas cenas principais do romance, mas também em cenas menos destacadas. Num dado momento, por exemplo, o Ega é expulso, de uma festa a fantasia, pelo marido de Raquel de Cohen, mulher a quem ele, Ega, estava namorando um pouco escancaradamente demais. O Cohen descobrira o namoro clandestino, e expulsa o amante do salão, na frente de todo mundo. O Ega, então, segue desesperado para a casa do amigo Carlos, em busca de apoio naquela noite de horror. Carlos está se arrumando em frente ao espelho, quando toca a campainha:
Depois, pela escada acima, duas penas negras de galo ondearam, um manto escarlate esvoaçou – e o Ega estava diante de Carlos, caracterizado, vestido de Mefistófeles!
Carlos apenas pôde dizer: “Bravo” – o aspecto do Ega emudeceu-o. Apesar dos toques de caracterização que quase o mascaravam – sobrancelhas de Diabo, guias de bigode ferozmente exageradas – sentia-se bem a aflição em que vinha, com os olhos injetados, perdido, numa terrível palidez.
E então, depois que sua aparência sinistra deixou Carlos em estado de alerta, o Ega conta sua desgraça ao amigo. E a descrição é hilária:
– Quando entrei na primeira sala, estava ele, de beduíno; estava um outro sujeito de urso, e uma senhora não sei de quê, de tirolesa, creio eu… ele veio para mim, e disse-me aquilo: “Ponha-se fora! Você, seu infame, ponha-se já no meio da rua… Já no meio da rua, senão, diante desta gente, corro-o a pontapés!”
Só de imaginar um urso e uma tirolesa vendo o quebra-pau entre um diabo e um beduíno…
O Ega, ainda exaltado e humilhado, “mordendo cano” de tanta raiva, promete a Carlos que irá desafiar o Cohen para um duelo de morte. É a hora em que o amigo, em vez de passar a mão na cabeça dele, obriga-o a encarar a realidade:
Meu querido Ega, tu não podes mandar desafiar o Cohen.
O outro parou de repente, atirando pelos olhos dois relâmpagos de ira – a que as medonhas sobrancelhas de crepe, as duas penas de galo ondeando na gorra, davam uma ferocidade teatral e cômica.
Não posso mandar desafiar?
Não.
Então põe-me fora de casa…
Estava no seu direito.
No seu direito!… diante de toda a gente?…
E tu, não eras amante da mulher diante de toda a gente?…
Para continuar domando os impulsos do amigo, Carlos decide levá-lo até a casa de outro camarada, o Craft. Espera que uma segunda opinião faça o Ega ver as coisas como elas realmente são. Chegando lá, o Craft, lógico, apóia o entendimento de Carlos sobre o problema. Faz ver ao Ega que, se alguém está no direito de desafiar alguém, é o marido de Raquel, o homem traído. Portanto, tudo o que ele, Ega, pode fazer é esperar o dia seguinte, para ver se o desafio realmente se concretiza.
A questão estava simplesmente em que o Cohen o surpreendera amando-lhe a mulher. Logo, podia matá-lo, podia entregá-lo aos tribunais, podia escavacá-lo na sala a pontapés…
– Ou pior – interrompeu Craft. – Mandar-te a senhora, com este bilhetinho: “Guarde-a”.
Dá para ouvir o Craft e o Carlos rindo amigavelmente da cara do pobre Mefistófeles. O fato de o Ega não poder fazer nada, mais a gozação dos companheiros sobre sua ex-namorada, deixa-o inconsolável. Ele se lamenta, diz que os dois não o entendem, que não tem amigos de verdade etc. Mas nem o Carlos nem o Craft o levam a sério, e este último diz:
– Então, meu caro Ega, tens outra coisa a fazer, antes de morrer amanhã talvez, é cear esta noite. Eu ia cear, e por motivos longos de explicar, há nesta casa um peru frio. E há de haver uma garrafa de vinho…
E, no fim das contas, eles vão jantar. Durante a refeição, a fúria e a mágoa do Ega se desfazem, diluídas pela bebida, pela comida, pela conversa e pela amizade. No início, vão sumindo devagar, mas logo desaparecem por completo. É um processo que, resumido, fica assim:
Carlos, que se declarara esfomeado, trinchava já o peru, enquanto Craft desarrolhava, com veneração, duas garrafas do seu velho vinho, para reconfortar Mefistófeles.
Mas Mefistófeles, sombrio e com os olhos avermelhados, repeliu o prato, desviou o copo. Depois, sempre condescendeu em provar o vinho.
– Que é aquilo além, naquela lata? – perguntou o Ega, com uma voz moribunda.
Era um patê com trufas. Mefistófeles escolheu com tédio uma trufa.
– Bem bom, este seu vinho – suspirou ele.
Então Ega confessou que devia estar fraco. Com aquela excitação do seu traje de Satanás, nem jantara, contando cear bem em casa do outro… Sim, com efeito, tinha apetite! Excelente patê…
E daí a pouco devorava. Ele só bebeu quase toda uma garrafa de vinho.
O Ega se acalma na companhia dos amigos. Relaxa até demais, exausto de tantas emoções e amolecido pelo álcool. Fica completamente bêbado. Quando já está meio desmaiando, o Carlos, o Craft e um mordomo carregam-no para a cama. E o Ega, graças a seu estado de semiconsciência alcoólica, “entrega”, na frente dos amigos, os apelidos íntimos e ridículos que trocava com a ex-amante Raquel.
E enquanto o levavam para o quarto de hóspedes e lhe despiam a fantasia de Satanás, o Ega não cessou de choramingar, dando beijos babosos pelas mãos de Carlos, balbuciando:
– Raquelzinha!… Racaquê, minha Raquelzinha! Gostas do teu bibichinho?…
Lendo isto, toda a humilhação do Ega, todo o drama do término do namoro, para mim, vinham coloridos pelo escritor de um jeito tão alegre, com uma ironia tão simpática, que o sofrimento do personagem se tornava não menos humano, porém muito mais divertido. E talvez “divertido” não seja a palavra exata. O jeito do Eça escrever, à medida que fui conhecendo seus livros, foi virando a minha filosofia de vida.
Quando comecei, aos treze anos, minha mãe achou que era cedo demais. Temia que eu acabasse chamando o Eça de “Eca” de Queirós. Afinal, os romances dele não apenas costumam ser grandes, 250 páginas no mínimo, como também estão cheios de homens inescrupulosos, de mulheres que traem seus maridos, de figuras invejosas, cruéis etc. Mas nunca tive preguiça de lê-los, e nunca me choquei com absolutamente nada, pelo contrário, adorei rir das situações em que os adultos podiam se meter. Foi como que uma lição para a vida, mas iluminada pelo humor.
Fiquei muitos anos obcecado por aquela mistura de grande arte com diversão, de temas adultos com leveza, pela combinação que o Eça fazia de personagens bons com defeitos, e de personagens maus com qualidades, sempre tratando a todos de forma igualmente amorosa, igualmente irônica, como se o escritor, de fora, lançasse um olhar piadista sobre tudo e todos, um olhar que não condenava ninguém, mas ria de todo mundo. E essa piada, esse seu jeito de ir “tirando uma” dos personagens, se tornou para mim a conversa de um amigo.
Para quem não sabe, Mefistófeles é uma espécie de diabo.