Abertura | A dinâmica das larvas
— Neuroptera Myrmeleontidæ?
— Ou Neurópteros Mirmeleontídeos, como o senhor preferir.
— Qual é, exatamente, o argumento do livro?
“A vida é mesmo cheia de embaraçamentos e arapucas”, concluiu o editor universitário e professor-doutor em teoria literária, o senhor Carlos Andrade Vasconcelos. Mercadoria de amostra para semelhante juízo, em seu entender, havia farta no mundo. Tome-se, para exemplo, a sucessão de contrariedades e dissabores que vitimara-o durante todo o dia de hoje. Pela manhã, o jornal que assinava não havia sido entregue, o trânsito estivera péssimo na ida para o trabalho, o almoço, engolido como de costume no bandeijão mais próximo, pesara-lhe no estômago, excessivamente oleoso e gordurento, e o expediente no escritório distingüira-se por telefonemas desagradáveis, reuniões improdutivas e pedidos constrangedores, culminando agora no absurdo diálogo acima reproduzido. Um dia como este, que, assim como todos os outros, havia começado com as primeiras luzes do sol e iria terminar quando chegasse a noite da véspera do seguinte, não deveria castigar tão sistemática e deslealmente os humores de um editor universitário, pois isto não se faz a um honesto homem trabalhador e prejudica a boa lógica das coisas.
Porém, desde o início dos tempos, a única certeza a respeito dos dias que nascem, é mesmo a de que o crepúsculo virá para levá-los. Afora isto, os dias não têm curso arrumado e desobedecem qualquer noção de ordem, trazendo imprevisíveis as piruetas da história das civilizações e confundindo a humanidade com a injustiça dos eventos cotidianos. “A falta de sentido da história e a incongruência de nossas rotinas individuais são as melhores provas de que Deus não existe”, era a certeza que crescia no íntimo do professor, “ou, melhor dizendo, existe sim, mas é de uma incompetência crônica e irrecuperável”.
Como se vê, o professor não era um ateu convicto, ou um agnóstico integral, mas já ia longe o tempo em que obedecia, dos mais singelos, aos mais filosóficos preceitos da religião, tendo-os como dogmas utilíssimos à investigação da natureza e como base de seu universo teórico nos estudos literários. Extingüira-se nele o ímpeto para combater a ignorância em geral e, em particular, a ignorância relativa aos Mandamentos do Senhor. Esvanecera-se por completo, fosse em sala de aula, com as armas da pedagogia, fosse escrevendo livros eruditíssimos, coalhados de notas de rodapé e citações bíblicas, ou mesmo ocupando a presidência de uma importante editora universitária, como vinha fazendo nos útimos dez anos. Tal esforço só é concebível quando a fé está imaculada. Hoje em dia, embora contrariado, o professor reconhecia a falibilidade divina e cansara de lutar contra seus desacertos. No entanto, sua resignação ainda não era completa, ele teimava em reservar para si o direito de discordar do Todo-Poderoso, ainda que reconhecesse a inutilidade de tal gesto. Antes de ser um descrente, o professor Vasconcelos era um desconfiado, que agastava-se diante das armadilhas postas por Deus em seu caminho. Este ressentimento tinha origens no amplo desencanto que a meia idade lhe trouxera e no exercício constante de seu hiper-criticismo, através do qual acreditava ter desenvolvido extraordinários poderes de observação e avaliação da realidade, que habilitariam-no, inclusive, a emitir juízos sobre os atos de Deus, e neles apontar erros, incoerências e injustiças, então pensando consigo mesmo: “Aqui Deus errou!”
Tal era sua conclusão neste exato instante, quando aquele dia, gratuitamente cruel desde o início, prolongava a bateria de testes à sua paciência e colocava-o frente à frente com o professor-doutor em zoologia Abdias Pereira dos Santos, indivíduo tragicamente versado na cultura dos insetos, que viera propor a publicação de sua tese de livre-docência sobre o tema, um amedrontador calhamaço de quatrocentas e tantas páginas.
O zoólogo vestia um terno azul brilhoso, ligeiramente curto nas mangas e de corte ultrapassado, evidente na largura descomunal das lapelas. Uma gravata marrom também larga demais e o colarinho pontudíssimo da camisa completavam o toque demodé do visitante. Em seus ombros, repousava uma discreta poeira de caspa. Em uma das mãos ele trazia o fatídico calhamaço, enquanto na outra vinha uma capanga de couro bicolor, com a inicial A gravada na fivela de aço escovado. O professor Abdias era um homem de idade, orgulhoso da posição granjeada na vida acadêmica. Por considerar a publicação de sua obra, após tantos anos de trabalho, um prêmio até singelo, que a universidade lhe devia por merecimento, chegara sem marcar entrevista. A seu ver, o caráter insólito de suas pesquisas apenas atestava o ineditismo da obra e não depunha contra a idéia de vê-la editada, ao contrário, tornava-a necessária ao alargamento das fronteiras científicas no Brasil.